Vale do Silício vs Brasil: um debate sobre inovação

Por Igor Lopes | 10 de Junho de 2015 às 21h10

Quais as diferenças entre o universo de inovação no Vale do Silício e no Brasil? Que lições o brasileiro ainda precisa aprender? Que pontos da cultura do Vale podem ser adaptados para a cultura do Brasil? Estas foram algumas das questões que guiaram um debate que aconteceu hoje (10), durante o Salesforce Essentials, em São Paulo. Reinaldo Normand, empreendedor brasileiro que vive e respira a cultura de inovação do Vale do Silício há mais de cinco anos, discutiu o assunto com Camila Farani, uma das maiores investidoras anjo do Brasil, e com Murilo Gun, um dos principais nomes do stand-up brasileiro. À primeira vista pode parecer estranha a presença de um humorista nesse debate, mas, em 2014, Murilo passou três meses estudando na Singularity University, instituição alocada dentro do campus da NASA, em Mountain View. Durante esse período, ele deixou as piadas de lado para se focar em questões relacionadas à inovação.

A importância do feedback

Durante a conversa, Murilo comentou subre sua experiência na Universidade da NASA. "A turma lá é muito boa em testar hipóteses antes de criar um negócio grande e gastar muito dinheiro. Isso mudou minha forma de pensar. Nossa cultura nos ensinou a colecionar um monte de 'achismos' e, quando vamos para o mercado, nós nos f*** por não ter validado esses 'achismos'. É método científico, velho, que você aprendeu na escola! É tentativa e erro!", explica. Para ele, uma das grandes diferenças do Vale do Silício é que a cultura de lá abraça e permite fracassos. "Metodo científico é: observar uma coisa, criar uma hipótese e testar aquela hipótese. Se ela se prova verdadeira, vira teoria. Se é falsa, ela retroalimenta. Num ambiente que não permite o fracasso, não existe a retroalimentação e aí você nunca consegue melhorar aquela premissa", conclui.

Para Camila, ouvir não só o cliente, mas também os outros elementos envolvidos na cadeia do seu negócio é fundamental. "Tudo é válido. Não tem dinheiro para fazer um grupo de foco? Faça uma pesquisa no Facebook, use o Survey Monkey ou algo do tipo".

Segundo Normand, é comum encontrar, lá no Vale, pessoas nas ruas abordando desconhecidos e mostrando ideias no papel, ainda em rascunho, perguntando se as pessoas usariam aquele produto. "Às vezes são os próprios fundadores que fazem esse trabalho, e isso é fundamental para que o feedback chegue inteiro, sem intermediários", explica. "Feedback, se você traduzir, é retroalimentação. Se você não retroalimentar aquela opinião e gerar aprendizado, não teve o 'back', foi só o 'feed', brinca Murilo. "No começo eu gravava o áudio de todos os meus shows. Depois, em casa, eu abria o áudio e as ondas sonoras me exibiam um gráfico do meu show. Eu identificava os pontos de risadas e tentava aumentar esses trechos. Isso nada mais é do que análise de métrica baseada em tentativa e erro", explica.

Compartilhar conhecimento

Outro ponto bastante diferente entre Brasil e Vale do Silício, de acordo com os participantes do debate, é a questão do compartilhamento de informação. Camila afirma que aqui no Brasil existe uma grande preocupação em proteger a ideia. "Muitos falam pra mim: 'vou te mandar a minha ideia e você vai assinar um NDA'. Mas é ideia ainda, já é preciso assinar acordo de confidencialidade?", questiona. Para eles, o brasileiro não gosta de compartilhar ideias por medo de as terem roubadas. "Você vê muitas ideias, mas o que faz a diferença é a capacidade de execução. O que mais tem é empreendedor de mesa de bar, que no fim de semana fala de mil projetos mas durante a semana não consegue completar o que ele disse".

Transgredir, transgredir e transgredir!

"Se alguém não autorizou, faça assim mesmo e mostre os resultados - claro, sem fazer nada ilegal", aconselha Reinaldo. "O que eu vejo é que os jovens são iguais em qualquer lugar do mundo. O que acontece é que quando eles crescem e viram adultos, eles são geralmente massacrados pela cultura. Os pais e os chefes dizem 'você não pode', 'tem que obedecer a hierarquia', 'você é muito jovem e sonha alto'. Se a gente quiser mudar alguma coisa, eu tenho uma teoria: precisamos apostar no jovem de cerca de 15 anos e abrir a cabeça dele. Dizer 'você pode', 'você consegue' e ser o mentor dele, alguém mais experiente que o entenda. Sejam mentores dos mais jovens e deixem eles viajarem! A ingenuidade é que move o empreendedorismo. Se a pessoa achar que pode fabricar um foguete, deixe ela acreditar e sonhar! Não censure. Se fizermos isso, as coisas mudarão a longo prazo", conclui Normand.

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