Por que (não) devo começar minha startup no Vale do Silício?

Por Colaborador externo | 22 de Agosto de 2016 às 15h06

Por Nagib Georges Mimassi*

Empreender no Vale do Silício é o sonho de quem passa noites insones maquinando como construir o próximo unicórnio no mercado global de tecnologia.

Há mais de 7 décadas, estar no olho do furacão, no centro da inovação, na mira de investidores, trabalhando com os melhores talentos e oxigenado por um ecossistema vibrante favorecido por políticas públicas que incentivam o nascimento de novas empresas têm sido fertilizantes poderosos para criação de startups em San Francisco e imediações com condições de conquistar projeção internacional e revelar novos ícones no mundo empresarial.

Mas a vida no Vale não é tão glamorosa quanto possa parecer. Ao menos para quem está apenas começando.

Durante recente debate na Global Entrepreneurship Summit, ninguém menos que Sergey Brin, co-fundador do Google, declarou que a terra do silício não deve ser mais considerada a única opção para plantar a primeira semente de sua próxima startup:

“Se você não vê a hora de começar uma empresa dentro da sua garagem, não faça as malas e se mude para o Vale do Silício. É mais fácil iniciar fora do Vale. Neste momento em que a economia está aquecida, os altos custos do mercado imobiliário e as grandes expectativas dos profissionais dificultam lançar um negócio em que a conta feche. É mais fácil começar em outras partes do mundo. Ir para o Silicon Valley é melhor em um segundo estágio, quando o negócio já passou a ter alguma tração e precisa escalar com acesso a mais capital”.

Não, não é insanidade de quem construiu uma das maiores empresas de tecnologia de todos os tempos arquitetada justamente na Universidade de Stanford. São sábias palavras, mister Brin. Ao contrário do que muitos empreendedores pensam, dar os primeiros passos de uma startup na Califórnia pode significar uma sentença prematura de morte se o novo negócio ainda não tiver os recursos necessários.

Uma startup consome muito investimento em seus primeiros anos de vida e levar a empresa para respirar os ares do Vale pode ser mais recomendável quando já tiver a envergadura para suportar os altos custos da Califórnia.

Os encantos do Vale para empreender são inquestionáveis e suas contribuições para a indústria de tecnologia são inegáveis. Abrir um negócio na Califórnia, porém, nunca foi tão difícil. Com salários estratosféricos, consequência da disputa das gigantes da Internet pelos melhores talentos, um mercado imobiliário que cobra os alugueis mais caros do mundo, um custo de vida elevadíssimo e uma forte concorrência para atrair atenção do capital de risco, parece ser mais racional estruturar a operação inicial em países com custos mais acessíveis para somente depois mudar para o Vale.

E por que não começar pelo Brasil?

Mesmo com os juros altos e a condenável burocracia, o Brasil, apesar e por causa da crise, reserva boas condições para empreender.

Primeiro porque o País ainda carece de empresas com projetos atraentes, desafiadores e com potencial de escalar globalmente e os empreendedores que desenharem planos com estes elementos conseguirão atrair os melhores talentos.

E se precisar de especialistas para integrar seu time, também é fácil buscar profissionais capacitados no exterior que amariam trabalhar no Brasil.

Outro ponto é que os preços para alugar ou comprar espaços comerciais estão mais favoráveis por conta da queda na demanda imobiliária.

E por que não lançar também no Brasil?

Não custa lembrar: o brasileiro é amante de tecnologia e adere rapidamente a empresas B2B ou B2C com DNA digital que facilitem a vida e, claro, ofereçam qualidade, economia e conforto. Junte-se a isso um mercado de smartphones que não para de crescer e trazer um número cada vez maior de usuários para Internet, inclusive para consumir produtos e serviços.

Se ainda falta coragem, recomendo avaliar com mais cuidado quais são as reais razões para não acreditar no potencial do Brasil para o desenvolvimento e lançamento de novos negócios que irão conquistar o mundo.

Surpresa para muitos, São Paulo foi apontada como a melhor opção para empreender em uma startup de tecnologia na América Latina e a 12a do mundo, segundo o estudo Global Startup Ecosystem Ranking divulgado no ano passado e organizado pela empresa Compass para mapear os 20 melhores ecossistema de startups do planeta. Os pontos fortes da cidade indicados pelo levantamento foram disponibilidade de capital, performance das startups e alcance de mercado. Os piores foram talento e experiência.

Nunca é demais recordar os componentes da fórmula que levou o Vale do Silício a se tornar a meca da tecnologia: incentivo à pesquisa nas universidades, acesso a capital de risco, investimento em formação de talentos e programas governamentais de fomento ao empreendedorismo.

São ingredientes ainda escassos no Brasil, mas temos assistido uma atuação crescente de VCs tão qualificados quanto os do Vale do Silício. Inclusive, alguns dos grandes VCs do Vale já se estabeleceram no Brasil e estão investindo em startups por aqui.

O que nos falta é compensado com o que temos de sobra: paixão, coragem, muita dedicação, resiliência, criatividade e (por que não?) uma boa dose de patriotismo.

Não se engane. Encurtar sua viagem empreendedora e carimbar o passaporte direto para o Vale do Silício pode parecer tentador e a rota correta a seguir, mas não é garantia de sucesso para quem está somente começando uma longa e desafiante jornada rumo à conquista do mundo.

Que tal então começar pelo seu quintal?

*Nagib Georges Mimassi é CEO da RockSpoon, apaixonado por tecnologia e pelo Brasil, onde empreende no mercado de Internet desde 1999.

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