Ex-CEO do Google e Facebook conta o que PMEs precisam aprender para empreender

Por Rafael Romer | 05 de Outubro de 2015 às 12h56

Há quatro meses, Alexandre Hohagen resolveu deixar para trás a posição que muitos executivos de tecnologia nacionais considerariam o emprego dos sonhos: após quatro anos como CEO para a América Latina do Facebook, o brasileiro anunciou que sairia da companhia de Mark Zuckerberg em um post em seu próprio perfil dentro da rede social citando motivos pessoais e familiares que já não combinavam com a rotina acelerada da companhia.

Hohagen juntou-se ao Facebook em 2011 e foi um dos grandes responsáveis pela estruturação do site no Brasil. Antes disso, no entanto, o executivo já havia ocupado outra posição de destaque em outra gigante do Vale do Silício: desde 2004, Hohagen foi CEO do Google no Brasil, onde também construiu a operação do então pouco conhecido site de buscas dentro do país.

Desde que deixou o Facebook, Hohagen tem se dedicado a outros projetos de empreendedorismo e se manteve relativamente distante dos holofotes do setor corporativo. Nesta segunda-feira (10), entretanto, o executivo fez uma apresentação durante a Maratona Valor PME, em São Paulo, onde traçou um paralelo entre as experiências que teve no Facebook e Google e o que isso pode ser aplicado em pequenas e médias empresas.

"Na minha cabeça ficou muito claro, que sua empresa pode implementar processos de empresas como Google e Facebook", disse. "Eu não estou comparando a estrutura, dinheiro ou número de pessoas de cada empresa, mas dá para estabelecer um paralelo".

A experiência de Hohagen nas gigantes de tecnologia começou no final de 2004, quando foi sondado pela primeira vez pelo Google para guiar o processo de internacionalização da empresa no Brasil. Só depois de um processo de seleção que incluiu 22 entrevistas foi que ele se juntou oficialmente a empresa e daí já saiu seu primeiro ensinamento: a gestão de pessoas é essencial para o sucesso de qualquer empresa.

O executivo comenta que se surpreendeu com a forma como o Google dava atenção aos seus funcionários e, com isso, conseguia de volta o retorno esperado através de metas. Segundo ele, o famoso "escritório-Disney" do Google só era possível porque cada um dos colaboradores sabia exatamente o que era esperado dele. "Não tinha nada mais importante no Google do que a gestão de pessoas, desde a hora de contratar até os processos internos", comentou. "A partir do momento que você define metas muito claras, você tem a liberdade de deixar seus funcionários fazer o que quiserem".

Mas isso não significava que o Google estava completamente imune a desafios. Na empresa, Hohagen cita a experiência com o finado Orkut, um dos produtos de maior sucesso da companhia no Brasil. O executivo conta que apesar de ter atingido a marca de 40 milhões de usuários no país, o Orkut foi "deixado de lado" pelo Google por sua posição quase inatingível, o que acabou fazendo que o site se tornasse um repositório de conteúdo ilegal, o que ocasionou uma investigação de autoridades brasileiras sobre porque o Google não conseguia controlar esse tipo de conteúdo. "A gente sempre olhou o Orkut como uma oportunidade de monetização, mas nunca pensou nos cenários prováveis que podiam acontecer com o Orkut", afirmou.

Em outra ocasião, o empreendedor contou como o Google demorou para reagir a entrada do Facebook como competidor do Orkut. Em 2010, a empresa de Mark Zuckerber aproveitou a volatilidade de mercado de redes sociais para alavancar o seu então pequeno número de usuários no Brasil através de um aplicativo que ajudava a migrar contatos e fotos do Orkut para o Facebook, em uma época que o Facebook tinha apenas 5 milhões de usuários nacionais.

Dessas experiências, Hohagen tirou a segunda sugestão que pode ser aplicada também a pequenas e médias empresas: por mais brilhante que seja seu time, é preciso desenhar possíveis cenários negativos que possam acontecer no futuro. "A gente não fez e teve muito trabalho para filtrar esse conteúdo depois", explicou.

No final de 2010, o executivo foi contatado pela própria diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, que propôs a ele se juntar à rede social, que já projetava ultrapassar o Orkut no ano seguinte. Lá dentro, o brasileiro conta que aprendeu mais uma dica valiosa para empresários que estão começando agora: o maior risco para empresas vem de dentro delas próprias e companhias precisam ter a capacidade de criar produtos que sejam relevantes para o usuário e garantir que haja inovação.

Em abril de 2012, o Facebook finalmente faria sua oferta inicial de ações, mas, apesar de toda a expectativa, o processo não foi o sucesso esperado - logo após a abertura, analistas questionaram o foco do Facebook em dispositivos desktops, quando o mercado já começava a se direcionar para o mobile, o que derrubou as ações da empresa.

Depois dessa influência de fatores externos, Zuckerberg tomou a decisão de fazer um "lock down" dentro da empresa, com o objetivo de girar a companhia em direção ao mobile e garantir que a empresa continuasse inovando. A reorganização levou a estratégias como a aquisição de serviços como Instagram e WhatsApp, o que retomou o crescimento da empresa. "Na época, qualquer um que quisesse conversar comigo tinha que ter os dois primeiros slides falando do porque aquela ideia iria mudar a companhia para essa meta", brincou Hohagen.

Fique por dentro do mundo da tecnologia!

Inscreva-se em nossa newsletter e receba diariamente as notícias por e-mail.