Apple, Alphabet e sua startup

Por Colaborador externo | 25 de Fevereiro de 2016 às 08h00

Por João Chebante*

As últimas semanas trouxeram uma surpresa para o mundo da tecnologia: a Apple, cujo valor de mercado supera todas as empresas da Bolsa de Valores brasileira juntas, teve um resultado abaixo das expectativas no fechamento do ano de 2015. Como cereja do bolo, viu sua “concorrente”, Alphabet (a holding que controla o Google e outros projetos outrora presentes dentro da empresa), tornar-se a companhia mais valiosa do mundo.

Não vamos agora entrar no mérito da discussão sobre a Apple pós-Jobs, uma vez que estamos há mais de 4 anos sem a presença do gênio que criou e reinventou a maçã; tempo de sobra para a adaptação da empresa a um novo modo de operação e lideranças (estas, na prática, mantidas deste então, sob as perspectivas de Jony Ive e principalmente Tim Cook). Mas ainda que os resultados da Apple sejam espetaculares (lucro acima de US$ 18 bilhões, somente no último quarto do ano passado), o volume de vendas aquém do esperado de iPhones, principal produto da casa, e do iPad, liga o sinal amarelo sobre dois dos produtos-chave da empresa. Já o relatório de resultados da Alphabet apresenta lucro histórico de US$23 bilhões do Google em 2015, mas com prejuízo de US$ 3,6 bilhões em outras operações. Este panorama traz algumas lições que você pode levar consigo para sua startup ou pequena/média empresa:

Ciclo de maturidade do produto e marca: é notório que a Apple está próxima de atingir a maturidade, no ciclo de venda, dos seus principais produtos: ainda que não apresente uma performance inédita de vendas, o iPhone possui forte lucratividade e é o produto de entrada da empresa - geralmente o consumo da marca começa dele para outros gadgets a posteriori. O mesmo se aplica ao iPad, que se não tem o mesmo volume de vendas e enfrentou forte queda de vendas no período, ainda tem uma larga liderança no seu segmento.

O ponto que faz com que ambos os produtos tenham desaceleração das suas vendas é a construção da marca Apple nos últimos anos. A quebra do status quo de ambas as categorias hoje é apenas uma manutenção da posição adquirida nas primeiras gerações de ambos os produtos; não raro a Apple implementou elementos vistos em celulares concorrentes, ainda que de forma mais lúdica e de fácil uso, mas cada vez se enxerga menos ruptura a cada novo modelo lançado - o que faz com que o ciclo de troca do usuário seja mais longo e reduza as vendas.

O que este movimento de vendas da Apple pode trazer como reflexão para a sua empresa? Todos nós ofertamos produtos/serviços, mas não raro por afeição ou simplesmente pelo histórico de resultados nos mantemos fiéis a operação vigente, quando o mercado está sempre em movimento. O principal ativo de uma empresa é sua marca, e sua maior qualidade é a agilidade de mover-se para apresentar o que o público-alvo precisa ou deseja sem se ater aos resultados do passado. A Kodak se ateve ao passado analógico e desapareceu, ao mesmo tempo que inventou a câmera digital e hoje assiste o… iPhone ser o dispositivo que mais tira fotos no mundo. Da mesma forma que o público da Apple clama por novidades agressivas em celulares e tablets, sempre é bom refletir o que sua marca tem desenvolvido de novo ou diferente nos últimos tempos para se manter viva e presente na cabeça dos seus consumidores.

Alguém pode dizer que os links patrocinados do Google são os mesmos há anos - e está certo. Mas o Google tem em seu DNA a proposta de organizar as informações da internet, não de promover uma nova fronteira. Para manter a aceleração das vendas em produtos que hoje representam mais da metade das receitas da empresa, a empresa terá que reinventar cada vez mais a experiência de consumo de tecnologia móvel ou criar novas propostas de valor.

Novos modelos de negócio: O Google não perde quase US$ 4 bilhões à toa - está desenvolvendo novos modelos de negócios para o futuro da tecnologia. Por isso, o desmembramento dos negócios em torno da holding Alphabet, como a Nest (internet das coisas), Fiber (internet de alta velocidade via fibra) e o X (ex-Google X, de projetos especiais, como o carro autoconduzido). São apostas sobre caminhos que a empresa sabe que pode vingar a qualquer instante num momento em que produtos e/ou serviços tenham um encaixe interessante com o mercado e a capacidade de consumo do público-alvo.

A Apple também está de olho neste sentido - tanto que comprou a Beats por US$ 3 bilhões para entrar no jogo do mercado fonográfico via streaming, além de reinventar seus fones de ouvido. Contratou centenas de profissionais do segmento automotivo para provavelmente desenvolver um veículo próprio, além do eterno projeto de uma televisão conectada ao iTunes e com experiência diferente da atual “ditaduras” das televisões a cabo. Ainda que os projetos sejam mais deficitários, o mercado aposta na Alphabet pelos projetos mais agressivos de inserção nas novas fronteiras da tecnologia que a Apple, que está de olho em segmentos anexo a sua área atual de operação.

O aprendizado aqui vem novamente em ficar atento às mudanças do seu mercado de atuação. Da mesma forma que as cooperativas lutaram sem sucesso para manter sua hegemonia frente aos aplicativos de celular, os taxistas se sentiram incomodados com a presença do Uber, gerando muito barulho (e propaganda gratuita) a troco de uma mudança para melhor a todos: eleva o nível de serviço de traslados urbanos. Da mesma forma, os aplicativos de delivery devem reinventar a forma que pedimos comida em casa. Ficar alerta e fazer pequenas apostas em novas frentes de negócio pode ser um grande passo frente a uma concorrência cada vez mais diversa e abrangente.

Portanto, se empresas do porte do Google e sua Alphabet e a Apple realizam suas apostas para garantir o desenvolvimento dos seus negócios nos próximos anos, a sua startup deve ter o mesmo movimento no radar - ainda que as quantias sejam bem inferiores. Ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu produto/serviço deve estar sempre alinhado com o movimento e demanda do mercado, pois o sucesso de hoje não garante o futuro de amanhã. Se até quem tem iPhone e iPad no seu portfólio de produtos está alerta às mudanças de mercado, imagina quem está começando ou se consolidando em seu segmento.

*João Gabriel Chebante possui onze anos de experiência em marketing, atuando em inteligência de mercado e gestão de marcas como profissional e como consultor de empresas, como Recaro, Colgate-Palmolive, Henkel, BankBoston, LyondellBasell, Braskem (Grupo Odebrecht) e São Paulo FC,

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