Qual é o futuro do empreendedorismo no Brasil?

Por Colaborador externo | 03.11.2014 às 17:50

por Tallis Gomes*

O Brasil é um país bastante desafiador para startups e empreendedores. Segundo um levantamento da Fundação Dom Cabral, uma em cada duas startups brasileiras encerra as operações em um período igual ou inferior a quatro anos. Isso não é nenhuma novidade entre nós e pode acontecer devido a um grupo de fatores que vai desde a falta de entrosamento entre sócios, à escolha equivocada do momento para abrir o negócio ou até mesmo à falha no processo de validação do produto ou modelo de negócios.

Esses fatores são desafios comuns para startups em qualquer lugar do mundo. Porém, ao comparar o Brasil com países onde o ecossistema de empreendedorismo já está mais amadurecido, nota-se que aqui ainda não temos muitas histórias de startups que já conseguiram se consolidar após esse período crítico dos primeiros anos. Sem dúvida temos um mercado com muitas promessas e novas startups, mas ainda são raros os eventos de liquidez em nosso setor. Porque será e o que precisamos fazer para mudar isso?

De acordo com a Serasa Experian, em 2013, foram criadas quase 2 milhões de novas empresas no Brasil, um aumento de 8,8% comparado com o ano anterior. Infelizmente, são poucos – ou quase inexistentes – os casos de saídas bem-sucedidas para investidores, seja via abertura de capital ou venda, o que acaba gerando maior cautela entre os mesmos para futuros investimentos no país. Entretanto, fundos como Kazsek, Redpoint, Monashees e Tiger Global continuam apostando em nosso mercado, especialmente em seu crescimento no longo prazo. Afinal, somos a quarta maior população de internautas do mundo, com mais de 100 milhões de pessoas online, o que representa apenas 50% da população do país. O crescimento no mercado mobile é ainda mais acirrado, com 72 milhões de usuários e crescimento de 38% em 2013, de acordo com o relatório anual da Mary Meeker.

Apesar desses números expressivos, até hoje, o grande case latino americano de startup bem-sucedida continua sendo o Mercado Livre, uma empresa originalmente argentina, que abril seu capital em 2007, com um IPO avaliado em U$400 milhões no Nasdaq e hoje tem um valor de mercado de aproximadamente U$4.8 bilhões. No Brasil, acompanhamos a trajetória do Buscapé, que foi vendido em 2009 para a sul-africana Naspers por cerca de U$340 milhões. Depois disso, houve um período de muita inércia no cenário de empreendedorismo brasileiro até surgirem empresas como Peixe Urbano, Dafiti e Netshoes, abrindo caminho para o nascimento de outras milhares de startups espalhadas pelo país.

A recente venda do Peixe Urbano para a chinesa Baidu, uma das 10 maiores empresas de internet do mundo, foi motivo de comemoração para a comunidade empreendedora no Brasil. Finalmente mais um caso de startup nacional conseguindo ultrapassar a marca dos 4 anos, atraindo o interesse de um player global do porte do Baidu. O gigante chinês, além sinalizar apetite para aproveitar ainda melhor o que foi construído pelo Peixe Urbano, também mostrou compromisso com o desenvolvimento da internet brasileira no longo prazo, destacando o Brasil como mercado prioritário dentro de sua estratégia de expansão internacional. Em uma conversa com o seu Country Manager, ficou muito claro que o Baidu irá investir fortemente em plataformas de serviços online no Brasil e a compra do Peixe Urbano já sinaliza essa iniciativa, alavancando o conhecimento do time de fundadores e a base construída ao longo dos últimos anos.

Este tipo de movimentação no mercado é muito importante para a construção do ecossistema de empreendedorismo. Agora precisamos unir forças para dar lugar a novos casos de sucesso incentivados pelo nosso ecossistema e não apesar dele.

Os desafios para as startups brasileiras hoje são muitos, incluindo um pano de fundo tributário, jurídico e trabalhista muito complexo, caro e burocrático. A economia estagnou – temos um Estado completamente aparelhado e gerido com base em convicções ideológicas cujo benchmark são países que respiram pobreza e autoritarismo. A previsão é que cresçamos apenas 0,3% em 2014 (mesmo com o recurso da “contabilidade criativa”), uma redução significativa versus os 2,3% em 2013 e bem abaixo da expectativa de crescimento mundial para este ano, de 3,3%,de acordo com o FMI.

Entretanto, de desafios surgem oportunidades e se há um grupo de pessoas que encara desafios de todos os tipos, o tempo todo e com bastante persistência, esse grupo inclui empreendedores. Estamos passando por um momento econômico e político bastante turbulento e mais que nunca precisamos nos juntar para conseguir influenciar o setor público e privado de forma a continuar construindo um ambiente fértil para inovação. O desafio será tremendo, principalmente para aqueles que buscam captar investimento. Nosso atual governo possui uma incrível habilidade de expulsar dólares do país e não há o menor sinal de que este cenário irá mudar; muito pelo contrário, provavelmente enfrentaremos um cenário de "estaginflação" no ano que vem. Como dizem no seriado Game of Thrones, “Brace yourself, the winter is coming” (“Prepare-se que o inverno está chegando”).

A população brasileira já se mostrou aberta a novidades. Os investidores (pelo menos os institucionais) já mostraram que têm fôlego para investir, porém nas condições certas. O mercado já mostrou que tem um número crescente de jovens com capacidade e vontade de empreender. E o cenário macroeconômico, apesar de apresentar grandes obstáculos no médio prazo, ainda tem tudo para continuar crescendo, especialmente dentro da esfera do e-commerce e mobile commerce. Agora o que nos resta é a tarefa – nada pequena – de pressionar por um sistema mais simples, com mais incentivos e menos riscos, como é o caso em polos de empreendedorismo mais produtivos e mais atrativos para startups. Para isso, a comunidade de empreendedores no Brasil precisa se unir para ter uma voz mais alta.

A importância da ABS (Associação Brasileira de Startups) irá crescer substancialmente neste cenário. É importante empoderarmos uma associação com competência para brigar pelos nossos interesses e ajudar com que o empreendedor brasileiro, que particularmente considero um herói, possa gerar ainda mais empregos e inovações, levando o “assunto Brasil” para além dos temas futebol e Carnaval. Já demos alguns passos importantes, mas a caminhada ainda é longa.

*Tallis Gomes, 27, já fundou 4 empresas e atualmente é o fundador e Co-CEO da Easy Taxi, uma das principais empresas de serviços mobile no mundo, presente em 35 países, 172 cidades e 4 continentes.