Para investidor-anjo, precisamos criar modelo diferente do Vale do Silício

Por Rafael Romer | 29 de Agosto de 2013 às 07h54

O investidor anjo Juán Pablo Cappello vai direto ao ponto quando o assunto é o ecossistema latino-americano de investimentos e startups: enquanto não pararmos de seguir o Vale do Silício, a coisa continuará difícil. “Eu não tenho nada contra o Vale do Silício, mas acho que nós ocasionalmente temos que parar e dar um passo para trás”, afirmou durante sua apresentação no evento The Next Web (TNW), que acontece entre esta quarta e quinta-feira (29 e 30), em São Paulo.

Segundo Juán Pablo, o problema do ambiente latino-americano começou no final da década passada, quando um grande número de investidores de fora começou a ver oportunidades para comprar empresas e negócios na América Latina, em um modelo similar ao seguido no Vale do Silício, com grandes aportes de investimento acontecendo em um ambiente fervilhante de aceleradoras, incubadoras e iniciativas. Mas em pouco tempo, os investimentos feitos começaram a não dar o retorno esperado e diversas empresas se tornaram “zumbis” em pouco tempo. “Está realmente começando a ficar difícil, nós estamos vendo uma geração inteira de companhias que receberam financiamento... A grande maioria delas está em um vale da morte”, afirmou.

Parte da depreciação do ambiente criado se deve a uma série de “falhas espetaculares” por parte de algumas empresas que receberam financiamentos na época, mas também de investidores, que jogaram dinheiro no mercado seguindo o modelo americano de comprar uma empresa por menos em vez de desenvolver uma solução internamente. De acordo com o anjo, que chegou a investir em cerca de 20 empresas latino-americanas diferentes no início dos anos 2000, houve casos de empresas que acabaram com zero clientes e zero lucro após a primeira rodada inicial de investimentos, algo inconcebível no mercado. “Nós não construímos empresas que eram suficientemente interessantes como um ecossistema”, explicou. “Nós todos ficamos enrolados nas nossas carteiras. Mas isso não é o que estamos aqui para fazer, nós temos que construir as companhias”.

De acordo com o investidor anjo, a solução é criar um mercado digital próprio para a América Latina e parar de tentar replicar o ambiente único do Vale do Silício. “3% da indústria representa 95% do retorno da [no Vale do Silício]. 97% da indústria tem retornos negativos depois de aportes. Isso não é algo que nós vamos ou queremos replicar”, afirma.

A inspiração para uma possível solução com relação ao investimento em startups e tecnologia na América Latina veio após uma viagem na qual Cappello conta ter assistido um filme produzido na indiana Bollywood. O modelo de produção de filmes na Índia segue uma lógica parecida com sua versão norte-americana de Hollywood, mas adaptada à realidade indiana.”Quando olhamos para o modelo de negócio de Bollywood, é bem diferente de Hollywood. Mas essa indústria é bem adaptada para seus próprios consumidores”. A estimativa anual é que Bolywood movimente cerca de 50% mais ingressos do que Hollywood por ano, mesmo que a versão americana lucre 35 vezes mais.

A mesma lógica deve ser adaptada ao mercado latino-americano: apesar de um número semelhante de usuários de internet e computadores, nós possuimos uma renda média menor e movimentamos cerca de um terço da economia dos “vizinhos de cima”. Cappello, aliás, vai contra a própria idéia de ver a América Latina como o continente “de baixo”. “Nós precisamos criar o nosso ‘tecnolatino’, um ecossistema inspirado pelo Vale, mas nosso”, explica.

Ele não se propõe a falar exatamente como esse ecossistema deve ser criado, mas solta algumas ideias: primeiro, é importante que os investidores parem de aportar “clones” no continente. A segunda sugestão é que as empresas também foquem em conseguir seus investimentos em grupos econômicos locais, que, apesar de mais modestos do que os do Vale de Silício, são mais interessados no mercado local.

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