Especial: Epic, o hub de inovação que surgiu após um terremoto

Por Rafael Romer | 24 de Janeiro de 2014 às 13h46
photo_camera Rafael Romer/Canaltech

Em 22 de fevereiro de 2011, Canterbury, região central da ilha sul da Nova Zelândia, foi atingida por um terremoto de 6,3 graus na escala Richter que deixou grande parte de sua capital e terceira maior cidade do país, Christchurch, em ruínas. Com 185 mortes registradas, o incidente é considerado o segundo maior desastre natural da história do país e até hoje deixa uma marca profunda na sociedade local e nas ruas da cidade.

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No ano passado, os custos de reconstrução estimados inicialmente em NZ$ 15 bilhões (cerca de R$ 28 bi) pelo governo foram reavaliados para NZ$ 40 bi (R$ 77 bi). Algumas estimativas de economistas consideram que o país pode levar até 100 anos para se recuperar completamente do acontecimento.

Quase três anos depois do terremoto, é possível ver de perto a destruição deixada pelo tremor: edifícios comerciais, residenciais e ruas inteiras permanecem interditados, e escombros ainda se espalham pela região central da cidade, com diversos imóveis em processo de demolição ou reforma – conforme a vida econômica da cidade vai se reestruturando.

Grande parte das áreas atingidas no centro de Christchurch abrigava dezenas de empresas que tiveram seus edifícios demolidos. "Várias empresas de tecnologia, como nós, perderam seus escritórios", explicou Shaun Ryan, o CEO e co-fundador da desenvolvedora de tecnologia para ferramentas de busca SLI Systems, em entrevista ao Canaltech na nova sede da empresa. "Então nós nos juntamos para construir um novo edifício. Criamos truste sem fins lucrativos e pegamos um empréstimo com o BNZ (Banco da Nova Zelândia), o Canterbury Business Recovery Trust e o governo".

O resultado da parceria é o Enterprise Precinct and Innovation Campus (EPIC), um hub de 2600 m² que reúne atualmente 200 pessoas de 16 empresas de alta tecnologia que ficaram "órfãs" após o desastre, 80% delas focadas em exportação. "Conseguimos transformar algo bem triste em uma coisa boa", afirmou o executivo da SLI, que atualmente ocupa todo o andar superior do complexo e, com 44 funcionários, é a maior companhia do hub.

Epic Hub

Edifícios destruídos ainda podem ser vistos pelo centro de Christchurch (foto: Rafael Romer/Canaltech)

Antes do terremoto, Christchurch já era um dos principais centros de inovação tecnológica da Nova Zelândia, com a presença de instituições de ensino que fornecem mão-de-obra especializada para a região, como o Instituto Politécnico de Tecnologia de Christchurch e empresas sólidas do setor, como a Tait Communications, uma das dez maiores companhias tech da Nova Zelândia, fundada em Christchurch há mais de 45 anos.

Após o desastre, no entanto, a principal preocupação do governo foi que essa capacidade não escapasse da cidade e que a mão de obra especializada tivesse incentivos para permanecer dentro de Christchurch. "O Governo quer garantir que Christchurch continue a ser um lugar atraente para o setor de alta tecnologia e as pessoas que trabalham lá", afirmou à época o Ministro de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Inovação (MSI), Steven Joyce. Até 2015, o governo da Nova Zelândia terá investido NZ$ 1,8 milhão (cerca de R$ 3,5 milhões) no projeto.

A mão de obra especializada é um dos pontos sensíveis na economia neozeolandesa, que não dispõe de uma grande população para abastecer as empresas locais de tecnologia. Na tentativa de manter essas pessoas na região, o governo, junto ao MSI, ofereceu um pacote de apoio para as empresas cujas equipes de pesquisa e desenvolvimento haviam sido afetadas pelo incidente. O apoio de NZ$ 4 milhões (cerca de R$ 7,6 milhões), que chegou a 60 companhias da região de Canterburry, garantiu que elas sustentassem suas equipes e produção em curto prazo.

A inciativa faz também parte do Plano de Recuperação de Central City, bairro central de Christchurch. Por decisão do Conselho Municipal de Christchurch, o terreno onde o hub foi construído terá isenção de impostos durante cinco anos, até 2017. "Toda hora tem alguma coisa acontecendo, as pessoas trocam ideias", conta Shaun. "Qualquer pessoa que queira conversar sobre tecnologia, inovação, empreendedorismo, ou sobre levantar capital, geralmente virá para cá". E para visitar o hub, não é nem preciso pegar um voo de 18 horas até a Nova Zelândia: através de uma parceria com o Google, a iniciativa já está até no Google Street View.

O EPIC é atualmente o segundo hub de alta tecnologia que está sendo planejado na Nova Zelândia. Em outubro de 2012, o Governo anunciou também sua intenção de trabalhar com a Câmara Municipal de Auckland para desenvolver um centro semelhante no Bairro Wynyard, região portuária da cidade.

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