A realidade das start-ups no Brasil: é hora de empreender?

Por Rafael Romer | 22.04.2013 às 18:01

Consideradas as filhas da "bolha da Internet", que atingiu o mundo no final da década de 90, start-ups são empresas rápidas e ágeis, bem diferentes de empresas convencionais, ligadas principalmente à inovação. Essas iniciativas estão ligadas a um modelo de empreendedorismo muito forte em países como Estados Unidos, funcionando com equipes limitadas, com alto potencial de risco e às vezes ainda em fase de desenvolvimento e pesquisa de mercado. O que costuma movimentar essas empresas são boas ideias, geralmente ligadas às áreas de produtos e serviços, além de uma possiblidade grande de retorno financeiro.

Apesar de fortes em regiões como o famoso Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde empresas como Google e Twitter tiveram início seguindo o mesmo modelo, start-ups começaram a ganhar força recentemente no Brasil, embaladas principalmente por uma série de iniciativas de aceleração do setor privado e público.

Segundo uma pesquisa da aceleradora Outsource Brazil, divulgada nesta segunda-feira (22), start-ups brasileiras já apresentam um nível crescente de amadurecimento, apesar de ainda precisarem de muito trabalho para chegar ao nível de competitividade internacional. De acordo com o levantamento, a média geral de maturidade de start-ups brasileiras ficou em 63,23%. No modelo de maturidade mais utilizado pelo mercado, uma empresa deve apresentar um mínimo de 75% de aderência para ter uma verdadeira tração de mercado, o que classificaria as start-ups nacionais como “em ascensão”.

Aceleradores

Iniciativas para o desenvolvimento de start-ups já estão a pleno vapor no país. Lançado em 2012 pelo governo brasileiro, o programa TI-Maior tem o intuito de acelerar o desenvolvimento do setor no país. Parte importante do programa é a iniciativa "Start-Up Brasil", que foca na estruturação e financiamento de empresas de software. A meta é acelerar 150 start-ups de TI até 2014, sendo 25% delas empresas internacionais localizadas no Brasil. A previsão é de R$ 40 milhões em investimentos.

Pedro Waengertner

No setor privado, uma das iniciativas foi a dos investidores Pedro Waengertner (foto) e Mike Ajnsztajn, que em agosto de 2012 criaram a incubadora de start-ups Aceleratech. "A gente começou a encontrar muitos problemas para descobrir start-ups viáveis para investimento. Conversamos com os outros investidores e vimos que a situação era meio generalizada", explica Pedro. Junto ao sócio, o investidor conta que percebeu que a educação era um componente que faltava na equação do mercado nacional. "A gente tem uma carência em termos de conhecimento, o que muitas vezes faz com que os investidores não tenham esse ar e cultura arraigados, que são importantes. A aceleradora americana pressupõe que você saiba algumas coisas, mas a gente não pode pressupor", conta.

Através de uma parceria com a escola de marketing ESPM, a empresa selecionou em dezembro do ano passado, entre mais de 300 inscritas, as onze primeiras start-ups que passaram pelo processo de aceleração durante três meses. As empresas escolhidas para o programa receberam, além de um aporte financeiro, ajudas de custo com hospedagem de sites, assessoria jurídica e contábil, além de um determinado número de horas de aulas e consultoria com mentores que ajudam com questões específicas e revisão do modelo de negócio de cada start-up. O resultado do primeiro programa deverá ser visto no próximo dia 23, terça-feira, quando as onze start-ups aceleradas se reunem para um demo-day de seus produtos em um evento que também deve reunir possíveis investidores.

O segundo programa da Aceleratech tem previsão de início para agosto deste ano. A expectativa da incubadora é de acelerar mais 50 start-ups no ano que vem. Para ajudar na meta, a empresa está criando novas bases regionais em Porto Alegre, Rio de Janeiro e no Nordeste. "A ideia é impactar o PIB brasileiro com empresas deste tipo", afirma.

O conhecido hacker paulistano, Vinícius Camacho, ou K-Max, de 30 anos, foi um dos onze escolhidos, e aproveitou a oportunidade para acelerar sua empresa, a Pontosec. Ao lado dos sócios Gabriel Lima, de 22 anos, e Guilherme Leite, de 25, o desenvolvedor conta que o aporte de R$ 20 mil e a consultoria foram importantes para trocar o modelo de negócio da empresa, visando a obter mais rentabilidade. "A gente acabou fazendo um produto que não tinha nada a ver com o que a gente fazia antes, que era teste de intrusão", conta.

O resultado é o Pontopass, um sistema de dupla autenticação de senhas disponível para pequenas, médias e grandes empresas que já está em fase final de desenvolvimento. "Muita gente tem uma ideia, mas não sabe o quanto essa ideia é aplicável no mercado, como era nosso caso, em que tínhamos um background em tecnologia e segurança, mas não tínhamos um background em finanças, marketing e vendas", explica Camacho.

Também participante do projeto de aceleração, a empresária Fabiany Lima partiu do ponto oposto de Vinícius. Antes de começar sua atual empresa, Fabiany juntou a experiência de trabalhar em três start-ups diferentes, duas espanholas, nas quais trabalhou na parte comercial, e uma brasileira, da área de Internet. "Nesse meio tempo tive a ideia de montar minha própria start-up de internet usando a minha experiência", conta. Em outubro do ano passado, então, a ideia foi para o ar na primeira versão do site Timolico, um e-commerce sob demanda de produtos de vestuário customizados. "A ideia surgiu de uma necessidade pessoal, eu tive gêmeas em 2009 e senti que eu precisava ter variedade e opções de produtos para elas. Chegou uma determinada fase em que o guarda-roupa delas era praticamente branco, rosa e lilás", explica.

Para Fabiany, start-ups se diferenciam de empresas tradicionais por sua velocidade de tomada de decisões e análise de concorrência, que costumam ser muito mais rápidas, ao mesmo tempo que responsabilidades comuns como gerenciamento de pagamentos, horários e funcionários se acumulam no dia-a-dia. "Eu costumo dizer que ao longo do dia, no horário comercial, eu administro uma empresa e nos outros horários eu empreendo dentro desta empresa, eu crio formas de fazê-la mais eficiente, mais clean, mais competitiva", brinca.

Apesar de já ter a experiência de trabalhar com empresas deste tipo, Fabiany conta que o programa de aceleração ajudou principalmente no networking, que promoveu o processo de descoberta da Timolico entre pessoas do mercado. "Coisas que talvez a gente precisasse ficar meses testando, gastando dinheiro... a gente conseguiu, através de alguns mentores, achar respostas mais rápidas", conta.

TImolico

A iniciativa de Fabiany Lima para venda customizada roupas para crianças (Foto: Reprodução)

Hora do Start?

Segundo Waengertner, nos dois últimos anos o Brasil tem vivido um momento positivo para start-ups, no qual não só boas ideias estão aparecendo, mas um número cada vez maior de investidores está disposto a arriscar e atuar como "anjos" para estes projetos. "A gente está vivendo um momento muito bom, não só em termos práticos, mas também em termos de interesse do profissional. Tem muitos profissionais qualificados lutando para empreender", explica.

Para Fabiany, o movimento ainda está só começando no país, com investidores analisando muito mais os projetos e procurando por bons times para investir, o que faz a chance de sucesso aumentar. "É um cenário diferente do que se via há três anos, quando o conceito investidor-startup estava chegando no Brasil", afirma. O ponto "negativo", segundo ela, é que o fator "atração" passa a contar muito mais nesse cenário. "Antigamente era muito mais fácil uma ideia no Power Point conseguir investidores. Hoje se vê o próprio empreendedor investindo tempo e recursos para provar que seu modelo realmente tem consistência".

Mas o momento bom para esse tipo de empreendimento não é sinônimo de sucesso para qualquer iniciativa, como revelam os dois profissionais. Alguns desafios, ligados principalmente a questões burocráticas e trabalhistas do país, ainda podem se mostrar um grande problema para a startup que está começando agora. "Ter um funcionário ainda é muito caro no Brasil e existe ainda o conceito de que é contratado para exercer determinada função. Dentro de uma start-up, isso é algo difícil de manter", opina a dona da Timolico.

De acordo com Waengertner, quando batem de frente com este tipo de problema, muitos empreendedores de start-ups brasileiras acabam se frustrando ou se sentindo desestimulados frente à falta de conhecimento sobre essas questões. O resultado disso é que muitas empresas acabam não decolando, mesmo com potencial. "Antes de começar qualquer coisa, é bom fazer um estudo profundo do mercado e entender um pouquinho do negócio como um todo", explica.

Entre as dicas e sugestões dadas pelo criador da Aceleratech, está montar um bom time, procurando sócios complementares para a start-up. "Se seu produto é digital, você precisa ter um sócio técnico, se você é técnico, um sócio comercial", diz. Outra coisa importante é não "chocar" produto, colocando-o no mercado após muito tempo de desenvolvimento. Nesse tipo de modelo, o intuito é colocar a sua ideia no mercado o mais rápido possível, para aprender e melhorá-la com o feedback. Segundo o investidor, mais um ponto importante é ter certeza de que o mercado para sua ideia é grande o bastante. "Você tem que fazer o dever de casa antes de começar qualquer coisa", encerra.