Em Hong Kong, manifestantes usam Bluetooth para burlar monitoramento

Por Felipe Demartini | 03 de Setembro de 2019 às 10h05
Anthony Kwan/Getty Images

Hong Kong já está entrando em seu sexto mês seguido de protestos contra o governo, com a forte repressão policial não impedindo o crescimento do movimento. E enquanto os conflitos acontecem nas ruas, manifestantes estão usando o Bluetooth para se comunicarem, emitindo avisos a todos os habitantes de uma região ou trocando mensagens privadas de uma forma que não pode ser rastreada pelas autoridades.

O aplicativo Bridgefy, da startup americana de mesmo nome, se transformou em software essencial nos celulares dos manifestantes. Nos últimos 60 dias, o aplicativo teve um crescimento de mais de 4.000% em sua utilização, justamente pelo método utilizado para envio dos textos, substituindo a internet e redes sem fio tradicionais pelo Bluetooth, criando uma rede que conecta os aparelhos diretamente uns aos outros.

Como o nome já indica, a ideia do app é que uma “ponte” seja feita entre o remetente e o destinatário de uma mensagem. Quando ela é enviada a partir de um celular, a comunicação navega entre todos os envolvidos na rede mesh até chegar em seu destino, sem passar por sistemas de comunicação convencionais.

O recebimento, claro, não é imediato, a não ser que o indivíduo esteja no alcance do Bluetooth ou em um raio de, no máximo, 100 metros, e com outros usuários do app também nas proximidades. Na teoria, não soa como a melhor alternativa, mas quando falamos em milhares de manifestantes utilizando a solução para troca de mensagens, a ideia acaba parecendo bem funcional.

Bridgefy não depende de internet e usa Bluetooth para envio de mensagens, criando pontes entre os usuários e ampliando a rede (Imagem: Bridgefy)

Enquanto SMSs, mensageiros instantâneos e telefonemas são monitorados pelo governo, o Bluetooth não pode passar pela mesma vigilância ostensiva. E em um momento de manifestação, em que todos os usuários estão juntos, o transporte de informação se tornou mais fácil e rápido, algo essencial para que as notícias sobre o que está acontecendo sejam compartilhadas não apenas entre os participantes, mas também para fora do cerco montado pelas autoridades.

De acordo com o CEO da Bridgefy, Jorge Rios, mais de 60 mil downloads foram registrados apenas nos últimos sete dias, e o que começou como um app que tenta contornar a ausência de conectividade em lugares lotados se transformou em arma política. Segundo ele, em Hong Kong, os manifestantes estão utilizando o app para se manterem seguros e coordenar protestos sem que o governo saiba de antemão o que vai acontecer. Rios também cita que picos de downloads semelhantes aconteceram após desastres naturais como terremotos ou furacões, que também acabam prejudicando o acesso à internet.

O CEO tem um sonho ambicioso, que envolve a união do Bridgefy com grandes softwares do mercado. Rios explica que a tecnologia, apesar de aplicada a um app de mensagens específico, também é licenciada para desenvolvedores e que, no futuro, imagina um mundo em que aplicações como WhatsApp, Uber, Tinder e WeChat possam ser utilizadas sem a necessidade de uma conexão permanente com a internet.

Os protestos em Hong Kong começaram no final de março, em oposição a uma lei de extradição que faria com que acusados de determinados crimes passassem pelos procedimentos legais e julgamentos na China. A ideia foi considerada como danosa à soberania do país e seus sistemas legais, além de submeterem essas pessoas à repressão e alto controle estatal da nação asiática.

Mesmo com a suspensão do projeto de lei, os protestos continuaram, agora, pedindo a renúncia da chefe de governo de Hong Kong, Carrie Lam, e em prol de dispositivos investigatórios independentes sobre a repressão policial. No último sábado (31), manifestantes compareceram à frente do Parlamento de Hong Kong, em um desafio à ordem governamental que havia proibido protestos, no que foi citada como a demonstração mais intensa desde junho, no auge da revolta contra a iniciativa de extradição.

Fonte: Forbes

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