Será que o HTML5 matou o Flash?

Por Luciana Zaramela
Flash brick

O Flash, companheiro dos sites e das aplicações web há tantos anos, pode estar com os dias contados. Os donos de dispositivos iOS, como iPhones e iPads, foram os primeiros a perceber essa tendência ao verem que o que antes representava um entrave na navegação com a mensagem "Flash plug-in needed" ou o símbolo de um tijolinho azul de Lego, hoje já não é mais empecilho algum.

O mesmo ocorre para os jogos e aplicativos. Depois do advento da tecnologia HTML5 e da popularização do Java (este, mesmo com suas falhas e bugs, serve de parâmetro de comparação para apps web), os usuários já não sentem mais tanta falta do Flash como antigamente. Para muitos desenvolvedores, o Flash não pode morrer, pois possibilita criar aplicativos interativos multiplataforma, bastando apenas algumas configurações realizadas no próprio ambiente de desenvolvimento.

Por isso, se formos realizar uma pesquisa no meio de usuários e desenvolvedores, ficaremos no meio-termo entre o fim e a resistência do Flash. Mas, nesse caso, resistir é inútil.

Em 2010, o então CEO da Apple já vislumbrava a extinção do Flash e não estava nem um pouco preocupado com a reação de sua desenvolvedora, a Adobe. Tendo ele declarado publicamente que não faria uso de tal plug-in para navegação na plataforma iOS, todas as atenções se voltaram para o ainda discreto HTML5 – que, na verdade, nada mais é que a linguagem HTML mais robusta, que conta com a ajuda do CSS3 e possui elementos de áudio e vídeo incorporados a seu código fonte.

Não confunda 'Pires de Oliveira' com 'pratinho de azeitona'

Muita gente faz confusão entre o Flash, software da Adobe propriamente dito, e o seu plug-in para navegadores, que é a peça fundamental para que vídeos e apps desenvolvidos em Flash sejam executados. Estamos avaliando o grau de sobrevivência do Flash como o plug-in que permite aos usuários visualizarem conteúdo multimídia em seus navegadores. E é esse plug-in que corre risco de desaparecer, lentamente, do mercado virtual (assim como já sumiu do mundo mobile), não o software.

A Adobe já percebeu essa tendência e está ciente do que pode ocorrer no futuro. Tanto que, por isso mesmo, já foca no HTML5 e abandona, a cada dia, o antigo padrão ActionScript – que ainda é utilizado e mostra sinais bastante vitais em jogos interativos, uma vez que o padrão HTML5 ainda não é capaz de produzir conteúdo para interação com os usuários. É justamente por isso que temos um sinal de que o Flash morrerá, mas bem lentamente, em longo prazo: ainda não existe um substituto à altura, com as mesmas funcionalidades (a exemplo do Stage3D), no quesito interação.

Em termos técnicos, a décima primeira e mais atual versão do Flash Player demorou a surgir, mas trouxe suporte à aceleração pela GPU, o que, em outras palavras, reproduz conteúdo multimídia consumindo menos recursos de processamento e bateria. Existe um potencial de melhorias que pode vir a ser a tábua de salvação do Flash como plug-in, mas, sem o ActionScript, não há como criar conteúdo Stage3D, uma vez que não existe uma IDE para isso.

Para quem acha que Flash é só vídeo e conteúdo 2D

Se para você o Flash não faz falta nenhuma como parte de aplicativos interativos, botões rollover, clipes de filme, keyframes, vetores e banners da web (estes, definitivamente, embora ainda utilizados por alguns sites, já estão ultrapassados e se tornaram obsoletos), sendo necessário apenas para conteúdo multimídia que resulta nos vídeos da web e em apps e jogos 2D, basta ter um dispositivo ou navegador com suporte à nova tecnologia HTML5 para nunca mais sentir falta do plug-in.

HTML5

Será ele o todo-poderoso?

O HTML5 traz inovações que suprem o que antes era entregado ao usuário final pelo plug-in do Flash: ele incorpora elementos e linguagens gráficas que acabam atraindo a atenção dos usuários de dispositivos móveis e computadores. Muitos sites apostam na tecnologia e já incorporaram o HTML5 em seu código. As animações ganharam mais detalhes, recursos que antes eram conseguidos apenas com o uso do Flash. Por serem integradas ao código das páginas da web, essas animações consomem muito menos recursos do sistema para serem reproduzidas, e estão sendo utilizadas em sites de vários propósitos: desde portais de notícias, como o Canaltech, a sites de desenvolvedoras e games online, como a versão para navegadores de Angry Birds.

Dispositivos móveis

Usuários de iPad e iPhone sentiam falta do Flash em seus dispositivos? A resposta depende do tipo de usuário, mas com o passar do tempo, a grande maioria nem percebia. A Adobe acabou cedendo, em setembro de 2011, à plataforma móvel da Apple, criando um software que permitia aos gadgets da Apple rodarem determinados arquivos em Flash utilizando o HTML 5 para convertê-los: o Adobe Flash Media Server 4.5. Depois, no final do mesmo ano, a empresa anunciou que deixaria de desenvolver o Flash para dispositivos móveis, focando apenas no HTML5.

Quando Steve Jobs optou por não utilizar o Flash no iOS, tinha razão: é instável, pesado e consome muitos recursos de dispositivos.

Flash Morto

Dizem que a Apple matou o Flash... pelo menos na versão mobile. Não teria sido o HTML5?

Hoje, a Adobe está mais focada em contribuir com o HTML5 e atender à demanda global de dispositivos, independentemente do sistema operacional. Seu trabalho com o Flash para a plataforma móvel está restrito ao uso concomitante com aplicativos que utilizam, de maneira nativa, a plataforma Adobe AIR. Trocando em miúdos: os navegadores, sejam de dispositivos móveis ou não, não mais necessitam do plug-in do Flash Player para executarem vídeos.

Uma morte vagarosa, mas sem muito sofrimento

Dizer a esta altura que o Flash morreu é errado e precipitado, afinal, essa afirmação de mau-agouro ainda gera controvérsias entre programadores, desenvolvedores e usuários. No entanto, dizer que o Flash irá sumir da face do mundo virtual em longo prazo é perfeitamente aceitável. O processo é gradativo: apesar de o ínterim entre a decisão da Apple de ceifar a presença do Flash em seus dispositivos até o dia em que a Adobe parou de desenvolver o plug-in para navegadores ter sido curto, ainda tem-se o Adobe Flash como software para declarar vida (nem muito longa, nem muito próspera) enquanto houver espaço para este tipo de conteúdo na web. A empresa deve refinar seu software por mais alguns anos, tornando-o cada vez mais compatível com o HTML5.

Em contrapartida, ainda temos muito que aprender com o HTML5. A linguagem tem se mostrado promissora, mas ainda não se consolidou nem conquistou sua hegemonia na web. Quem programa para web sabe que é necessário dispensar o código do Flash para arriscar incorporar todo o conteúdo multimídia em uma linguagem só, que, em termos práticos, ainda se encontra em estágio de desenvolvimento, necessita de alguns ajustes e também apresenta falhas. O HTML5 deu seus primeiros tiros, mas ainda não conseguiu fazer Flash bater as botas.

Mas o futuro para esta tecnologia é promissor, e 2013 parece ser um grande ano para a evolução e estabilização da linguagem em todas as plataformas.