Algoritmos já podem prever até mesmo revoluções sociais e políticas

Por Redação | 17 de Fevereiro de 2014 às 10h55
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O ano de 2013 foi repleto de revoltas, revoluções e insurgências. Na Síria, houve guerra civil; na China, violência étnica. Na Ucrânia, quase houve uma revolução. Apesar de parecer imprevisível, um conflito político pode ser, sim, previsto se levadas em conta algumas variáveis. É assim que trabalha um algoritmo criado no Ward Lab, da Universidade de Duke, nos EUA. Os resultados das previsões passaram a ser publicadas desde o ano passado, de acordo com reportagem do The Verge.

Em julho de 2013, o relatório mostrou que Paraguai tinha chance de 97% de ter uma insurgência popular. No mês seguinte, os tumultos se intensificaram. No caso da China, os modelos apresentaram chance de 33% de violência, ainda que a mídia estatal do país tenha tentado ocultar os conflitos. Por outro lado, a instabilidade na Ucrânia não começou a levantar alarmes até que tudo já estivesse acontecendo.

O Ward Lab diz que o objetivo não é fazer previsões, mas testar teorias. Se uma previsão apontar a possibilidade de revolta na Ucrânia, por exemplo, então a teoria pode ser avaliada em termos de estratégia. Mesmo que os especialistas pudessem prever, com precisão, todos os conflitos, seria apenas metade da batalha. “[A previsão] É um sucesso somente se ela não vier com o ônus de prever uma série de incidentes que acabem não acontecendo”, diz Michael D. Ward, pesquisador-chefe do projeto. “Mas isso sugere que podemos estar no caminho certo”.

A história da previsão de conflito automatizado começou na Agência de Projetos de Pesquisas de Defesa Avançada (DARPA). Na década de 1990, a entidade queria experimentar análises de software para antecipar colapsos políticos em um futuro próximo. A CIA já atuava no caso, com os chefes de seção de todas as regiões do país registrando previsões regulares. Mas a DARPA queria ver se uma abordagem informatizada poderia ter melhores resultados.

Testados, os analistas da CIA mostraram precisão média de 60%. Mas um novo sistema da DARPA mostrou precisão de até 80%, usando dados de 29 países na Ásia, com população superior a meio milhão. O Sistema de Alerta Precoce Integrado de Conflitos (ICEWS) obteve sucesso imediato com algoritmos de análise de regressão simples.

Isso acontecia porque, enquanto os agentes estão sujeitos a influências pessoais – conscientes ou inconscientes –, as máquinas não precisam se preocupar com a política interna ou ferir sentimentos. O sistema ICEWS acabou reclassificado e levado de volta para os departamentos secretos do Pentágono, mas os projetos mais empolgantes agora são empreendimentos totalmente abertos que publicam suas previsões para qualquer um ver.

Os pesquisadores da Universidade de Georgetown, nos EUA, estão catalogando cada evento político importante do século XX em um único banco de dados chamado GDELT, e deixando tudo aberto para pesquisa pública. Já o mapeamento da guerra civil síria e impasses diplomáticos entre o Japão e Coreia do Sul representam uma dinâmica nunca feita anteriormente. E, claro, há o Ward Lab, lançando uma nova folha de previsões a cada seis meses e aprimorando seus algoritmos com todo o desenvolvimento.

É um espelho do mesmo debate “aberto” contra “fechado” em sistemas de software, só que agora, em vez de lutar por código-aberto e auditorias de segurança, trata-se de uma luta sobre quem pode prever melhor o futuro. Mas Ward pondera: “Eu não acho que nunca vamos chegar a um cenário onde as coisas são previsíveis perfeitamente”.

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