Por que a Motorola demorou tanto para chegar à superliga dos smartphones?

Por Camila Rinaldi | 27 de Abril de 2020 às 19h30
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Ficha técnica

Finalmente podemos afirmar que a Motorola chegou à superliga dos smartphones. Com o anúncio do novo Motorola Edge+, depois de anos, a fabricante parece ter encontrado o caminho para o desenvolvimento de aparelhos sofisticados e de alto desempenho. Para entender essa demora, precisamos voltar algumas páginas na história da empresa.

Dos Estados Unidos à China

Uma empresa é basicamente um organismo vivo e não seria diferente com a Motorola. Com quase cem anos de história, a companhia já teve muitos altos e baixos, até que, em 2011, foi dividida em duas: a Motorola Solutions e a Motorola Mobility. Como parte dessa separação, a divisão mobile foi vendida para o Google neste mesmo ano.

Na época, o Big G desembolsou 12,5 bilhões de dólares pela empresa que, em 2014, foi vendida para a Lenovo por cerca de U$3 bilhões. O fato do valor de venda ser quatro vezes menor está relacionado às patentes da Motorola que permaneceram com o Google no ato da aquisição da divisão mobile pela empresa chinesa.

E é justamente a partir de 2011 que vemos algumas transformações importantes na Motorola Mobility para que, nove anos depois, pudéssemos ter o lançamento da primeira série realmente Premium da companhia.

Série Moto G: o grande acerto

Entre 2011 e 2014, a Motorola vivia o conceito “Android para todos” dentro do Google. Em 2013, a marca anunciava duas grandes séries do seu portfólio: Moto X e Moto G. Em 2014, tivemos também o lançamento da linha de entrada, Moto E.

A linha X era super inovadora para a época, pois trazia o conceito de assistente de voz, ainda novidade naquele ano, bem como um sistema de gestos para ativação de serviços como a câmera e a lanterna.

Contudo, a linha G se mostrou o maior acerto desta nova era da Motorola Mobility. Para se ter uma ideia, oito meses após o lançamento da primeira geração do Moto G, a Motorola saia da sexta posição em participação de mercado no Brasil para se consolidar até hoje como a segunda maior marca do país, ficando atrás apenas da Samsung (Statcounter). Ou seja, em menos de um ano a Motorola bateu nomes como Nokia, LG e Apple.

A Motorola sai da 6ª posição em participação de mercado no Brasil para se consolidar até hoje como a 2ª maior marca de smartphones no país

De acordo com Thiago Masuchette, Head de Produto da Motorola no Brasil, a empresa oferecia na época tudo o que as outras empresas deixavam de lado nas linhas intermediárias:

Pra você ter recursos premium no seu telefone ou tinha que investir muito ou tinha que comprar um telefone defasado. Na verdade, você tinha uma inovação de 2 anos atrás com um preço acessível, essas eram as opções. Então, o Moto G deu o termo, amplamente utilizado pela imprensa, que o chamou de ‘o melhor custo-benefício’.

O sucesso da série Moto G foi comemorado em março deste ano com o anúncio de que a Motorola já vendeu mais de 100 milhões de unidades dos modelos G, sendo 40 milhões delas apenas no Brasil. Em outras palavras, a Motorola está hoje entre as grandes jogadoras nas categorias de entrada e intermediárias no país. Contudo, o mesmo não podemos dizer da modalidade topo de linha.

Moto Z: o projeto modular inovador e sem sucesso entre os flagships

Quando a Motorola criou as séries G e E, abraçou o conceito do melhor custo-benefício, ou seja, um smartphone com hardware e software atualizado e a preços acessíveis. Uma revolução, especialmente, no Brasil. Contudo, a linha Moto X, apesar de contar com uma ficha técnica superior a das demais séries Moto da época, ainda deixava a desejar quando o assunto era a concorrência. Desta forma, os modelos X tiveram que ser logo substituídos.

Em 2016, a Motorola Mobility já não era mais uma empresa do Google, mas da Lenovo, e a aposta foi no projeto de smartphones modulares da série Moto Z. A essência do projeto, no entanto, não estava na troca de componentes, mas na otimização de algumas das principais características de um smartphone.

Assim, as pessoas que queriam usar o celular para amplificar os alto-falantes do Moto Z, podiam comprar o módulo criado em parceria com a JBL. Já quem queria otimizar ao máximo a experiência com a câmera, tinha à disposição o módulo da Hasselblad, por exemplo. Ao contrário da série X, a linha Z foi anunciada oferecendo uma variante com o SoC mais avançado do ano, o que dava a impressão de que a Motorola competia frente a frente com a concorrência na categoria premium.

Entretanto, a linha Z, de fato, não podia competir com os Galaxy S ou os iPhones, pois foi desenvolvida com foco no conceito modular, algo basicamente oferecido apenas pela Motorola e que ficou muito associado a ideia de produto experimental. Assim, o Moto Z não oferecia a mesma maturidade dos modelos premium das concorrentes Samsung e Apple.

Com o tempo, a linha Z foi sendo transformada e adaptada, e hoje está disponível em mercados específicos, como é o caso do Moto Z4, último modelo lançado como parte desta família.

Motorola RAZR: a reinvenção do V3, mas longe de ser um topo de linha

Estamos em 2019 e, desde a cisão da Motorola, em 2011, ainda não tivemos uma série realmente capaz de competir como flagship no mercado global de smartphones. Então, quase que como para flertar na categoria premium, a fabricante reinventou o RAZR V3, agora com tela dobrável.

Sim, o Motorola RAZR de 2019 é a variante moderna do clássico V3, que foi o celular flip mais vendido no mundo. De acordo com um dos maiores especialistas em smartphone da era moderna, Marques Brownlee, os engenheiros da Motorola pegaram o projeto industrial do V3 do início dos anos 2000 e adaptaram os seus componentes utilizando toda a tecnologia disponível hoje, como a tela dobrável, e construíram o novo Motorola RAZR.

Neste sentido, podemos dizer que o modelo anunciando no ano passado é basicamente a concretização daquilo que foi idealizado quando o V3 original foi projetado. Logo, não estamos falando de algo realmente novo aqui.

Entretanto, para Thiago Masuchette, o novo RAZR é um dos modelos mais inovadores da Motorola e, mesmo que o seu conceito já existisse no passado, hoje está adaptado à realidade do mercado:

O que o RAZR possui de inovador é o apelo. O modelo Flip existia antigamente, mas era um feature phone, com dois blocos, tela e teclado... não tinha uma imersão completa. Agora o RAZR permite que você tenha essa imersão, potencializando tudo o que se consegue fazer com um smartphone com a tecnologia atual, sem abrir mão de nada. Voltamos a ter o conforto de mobilidade, no sentido de poder colocar o telefone no bolso e sair. Hoje, quando sentamos para uma refeição não conseguimos deixar o telefone no bolso, mas com o RAZR isso é possível.

Mesmo sendo um lançamento recente, o fato é que os smartphones com telas dobráveis ainda estão mais para experimentos do que para algo consolidado.

Edge: a série topo de linha que faltava no portfólio da Motorola

De 2011 para cá, a divisão mobile da Motorola buscou muitas formas de revolucionar o mercado e, com certeza, mudou o status quo do comércio de smartphones no Brasil. Até a linha Moto G, pouco se falava sobre atualizações do sistema operacional de um celular.

Os Snaps, como ficaram conhecidos os módulos da série Moto Z, ofereciam uma nova experiência com um smartphone, de forma inteligente e de fácil transporte. Porém, ainda representavam um projeto bastante experimental e nichado. O mesmo ocorre com o Motorola Razr 2019.

Contudo, em 2020, a Motorola entrou no jogo das concorrentes e, finalmente, colocou no mercado um topo de linha, o Motorola Edge+. Este celular possui especificações de flagship, ou seja, o SoC mais moderno entre os aparelhos premium rodando com Android, câmera de ponta, a última versão do sistema operacional do Google, RAM e ROM competitivos e uma bateria acima da média. Além disso, a Motorola optou por trazer tecnologias de conexão como 5G e Wi-Fi 6.

O aparelho possui basicamente tudo aquilo que smartphones premium oferecem hoje? Sim, e é isso que torna o Motorola Edge+ um topo de linha.

Curiosamente, quando a Motorola optou por fazer o que todas as grandes jogadoras do mercado estão fazendo, acertou. É definitivamente o “mais do mesmo” que coloca hoje a empresa na superliga dos smartphones. Algo que Apple e Samsung fazem muito bem.

Acima de tudo, agora, os fãs da marca possuem a chance de fazer um real upgrade da linha intermediária da Motorola para um midrange premium, a versão Edge, ou escolher saltar para o modelo topo de linha Edge+. Até este lançamento, isso não seria possível no Brasil.

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