Opinião: onde foram parar os smartphones acessíveis? (Parte 3)

Por Pedro Cipoli | 14 de Julho de 2016 às 23h30

Para fechar este artigo, vamos questionar quanto realmente vale um smartphone. No fim das contas, quanto vale um certo modelo? Não estamos questionando quanto ele custa, o preço cobrado pela fabricante, mas sim quanto ele vale. Como saber se suas características correspondem ao seu preço final? Desde quando temos um segmento "Premium", acima do avançado? E como os impostos atrapalham esse cenário todo?

Afinal, quando vale um smartphone?

Como vimos na segunda parte deste artigo, muitas empresas tentam fazer um modelo mais básico ou intermediário parecer acessível tomando como referência os preços dos modelos top de linha. Quando um modelo avançado custa R$ 4.000, um de R$ 1.500 não parecer tão absurdo assim. Pelo menos em teoria. Na prática, consumidores sabem mais ou menos o preço aproximado de um modelo baseado em suas características, independentemente do que as empresas afirmam.

Independe também do quanto uma pessoa estaria disposta a investir tomando a sua renda como base. Não há campanha de marketing que tente transformar um smartphone de milhares de reais em uma boa opção, por mais que empresas tentem inventar segmentos diferentes para estipular seus preços. Há poucos anos, havia os modelos de entrada, os intermediários e os flagships (avançados). Agora há um (aparente) novo segmento, o "Premium", que estaria, em teoria, acima do segmento avançado.

LG G3

Quando o G3 chegou a R$ 1.500, muitos que não enxergaram interesse no lançamento consideraram comprá-lo.

O LG G3 foi um excelente exemplo disso. "R$ 2.500 de preço de lançamento? Jamais!" se transforma, alguns meses depois, em "R$ 1.500? Humm. Interessante". Os preços dos smartphones top de linha começaram a cair nos últimos anos exatamente por isso, quando os recursos extras de uma nova versão deixaram de justificar a diferença de preço da geração anterior. Com exceção dos iPhones, que raramente ficam mais baratos, mas porque no Brasil eles são mais um símbolo do que um smartphone.

Mais do que isso, mesmo um modelo básico (não de baixo custo) já é "bom o suficiente". Os primeiros modelos com Android não sofriam com isso. O ganho de uma geração para outra era perceptível sem que a fabricante precisasse explicar o motivo. O ganho de um Galaxy S para um Galaxy S2 era gigantesco. Já de um Galaxy S6 para um Galaxy S7 não é tão aparente, com algumas melhorias aqui e ali, mas nada que justifique um investimento extra na troca.

Smartphone barato

Essa tentativa de vender um modelo avançado como Premium é só uma desculpa para cobrar mais caro. "Premium" mesmo é o iPhone 6 acima, construído em ouro 24 quilates com detalhes em diamante. Só há um detalhe: ele foi anunciado por US$ 3,5 milhões.

Um Lenovo Vibe A7010, por exemplo, bate um Galaxy S3 em praticamente tudo o que pode ser comparado. Não é necessário nem ir tão longe: um Moto G 2015, mesmo o modelo com 1 GB de memória RAM, já consegue esse mérito, isso com uma diferença de apenas 3 anos entre um e outro, além de preços consideravelmente diferentes. Essa característica dos modelos atuais faz com que seja muito difícil convencer o usuário a trocar de aparelho por uma experiência de uso que não chega a ser tão diferente.

Quando os smartphones começaram a ser "bons o suficiente"? Se fôssemos chutar, diríamos que aconteceu quando o Moto G original foi anunciado, trazendo um conjunto de especificações com qualidade suficiente para sobreviver ao tempo. Por mais que fabricantes continuem sua corrida espacial de especificações, com modelos cada vez mais brutalmente potentes, isso deixou de impressionar os usuários, já que, depois de alguns meses de uso, esse poder de fogo extra fica subutilizado. Fica aquela questão: "por que eu troquei de smartphone mesmo?"

Para fechar, vamos aos impostos.

Impostos, impostos e mais impostos

A "Lei do Bem" isenta a incidência de IOF e Cofins sobre smartphones que custam até R$ 1.500. Sua revogação causou um aumento de de aproximadamente 10% em todos os modelos que se encaixavam dentro desse limite, o que foi tão desastroso que o próprio Governo acabou "revogando a revogação", talvez nem tanto pelo valor extra, mas pela consciência de que quem estivesse planejando comprar um modelo pagaria um valor extra considerável apenas para pagar esses impostos. Valor que nada tinha a ver com as características do aparelho.

O interessante é que a Lei do Bem só exclui esse dois impostos, já que há outros, como o ICMS, não aparecem na hora que você vai comprar um produto. Ele já está embutido no preço final, e em eletrônicos ele corresponde a 12% do valor. Ou seja, se você tivesse comprado um Zenfone 2 no lançamento no estado de SP (já que se trata de um imposto estadual), cerca de R$ 180 corresponde somente ao ICMS. E há mais impostos, muitos deles mais escondidos ainda.

Smartphone barato

Falar de impostos é realmente complicado, já que são altos e complexos, mas algumas empresas se escondem por trás deles para aumentar suas margens de lucro.

Dependendo do segmento, os impostos sobre smartphones chegam a corresponder a 40% do preço final. Não cabe a nós aqui questionar para onde esse dinheiro vai, ainda que seja difícil não acreditar que isso aumente, e muito, no preço de diversos modelos. Basta considerar que um iPhone 6s sairia por R$ 2.400 se não fosse o caso, mais barato do que o iPhone SE. De qualquer forma, culpar os impostos para um modelo desproporcionalmente caro não faz sentido, já que todas as empresas o pagam.

Em especial quando consideramos que os smartphones aumentaram de preço do dia para noite com o fim da Lei do Bem. Meses depois, a lei voltou a vigorar. Adivinhem se as empresas voltaram ao patamar original de preços? É como se o preço da gasolina diminuísse, mas os postos mantivessem os preços anteriores. O seja, os impostos são altos. É claro que são. Mas, por vezes, empresas tentam fazer com que eles pareçam mais culpados do que realmente são para estipular preços maiores.

Conclusão

Infelizmente, os smartphones com preços razoáveis realmente desapareceram. Quem quer gastar o mínimo possível em um novo aparelho terá que encarar preços na casa dos R$ 700, muitas vezes por um aparelho que é vendido por algumas dezenas de dólares em outros lugares do mundo. Muitos incorrem no erro de comparar os preços aqui com os preços em outros países, mas esquecem que as condições socioeconômicas são completamente diferentes.

O iPhone 6s mais básico, por exemplo, sai por US$ 649 (R$ 2.128 sem impostos) nos Estados Unidos há gerações, valor que, independentemente da cotação do dólar, cabe no bolso da população americana. O Zenfone 2 chegou por R$ 1.500, visto como um investimento justo por um aparelho que corresponde ao seu preço, mas sai por US$ 300 nos EUA, sendo uma opção mais acessível para um americano médio do que um Twist S de R$ 700 no Brasil.

Smartphone barato

A relação entre poder de compra e preço de iPhone é muito mais precisa do que a conversão direta do dólar, já que considera os fatores socioeconômicos do país. Em 2014, perdemos somente para a Índia, onde uma pessoa precisava trabalhar 376 horas para comprar um iPhone, enquanto o brasileiro tinha que trabalhar 160 horas. Isso em 2014.

Para não ficarmos somente nos EUA, vale dizer que os preços variam em todo o mundo, mas raramente fogem de um valor que a população tem condições de pagar. Um iPhone 6s de 16 GB sai por £539 (R$ 2.544) na Inglaterra e €749 (R$ 2.727) na Espanha, não sendo muito mais caro do que o valor americano, mas que fazem sentido dentro das condições socioeconômicas de cada país. Em 2014, um americano poderia comprar iPhone por US$ 649 trabalhando 6 vezes menos do que o brasileiro*, isso considerando o iPhone 6, que chegou por R$ 3.199. Consegue imaginar isso hoje?

Não seria um problema se houvesse opções realmente acessíveis para quem não está disposto a investir tanto, mas deixou de ser o caso. Como lutar contra isso? Ignore modelos que não correspondem às suas características. Diga não a modelos que custam milhares de reais, recheados de impostos e lucros exorbitantes. Se há uma coisa de bom na Lei de Oferta e Procura é que, se os produtos estão encalhados, o preço tem que diminuir.

*Folha de SP

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