Opinião: imagens do iPhone 7 mostram que a Apple esqueceu como inovar (Parte 1)

Por Pedro Cipoli | 16.07.2016 às 15:45 - atualizado em 18.07.2016 às 23:27

Com a data de lançamento oficial do novo iPhone se aproximando, detalhes sobre as suas características começam a aparecer com cada vez mais frequência e precisão. Lembra muito o filme Pacific Rim: monstros aparecem com cada vez mais frequência, em quantidade e em níveis. Aliás, é uma comparação que tem tudo a ver com os detalhes do iPhone 7 que parece, novamente, ter esgotado completamente a sua capacidade de inovação.

A Apple já tirou o pé do acelerador quando passou a repetir o mesmo design em dois aparelhos consecutivos (4/4s, 5/5s, 6/6s), mostrou que não tem a menor capacidade de anunciar um smartphone básico, como a falta de entusiasmo na receptividade do iPhone 5C e a tentativa desesperada de tentar lucrar com um iPhone SE mais barato com a desculpa de uma demanda por tela menor, assim como pouco se importa com as demanda do usuário, com modelos de 16 GB ainda no mercado, ausência de capacidade de expansão e baterias cada vez menores.

iPhone SE

Que bom que há a opção Rose Gold no iPhone SE. Assim é mais fácil provar que o modelo é de 2016, não 2012.

Muitos consideram que o iPhone 7 será um dos mais importantes da empresa, mas não para mostrar que a Apple continua inovando, mas sim demonstrar que a empresa não "perdeu a mão". Com os detalhes que temos visto até então, parece que pouquíssima coisa será diferente este ano, com a mesma receita de sempre. Anunciar um recurso novo (quando muito), dizer que trabalhou "muito, mas muito mesmo", nas palavras de Tim Cook, se apoiar no interesse do usuário pelo iOS, e não no iPhone, e torcer para os usuários continuarem comprando modelos novos.

Por que acreditamos que a Apple esgotou a sua capacidade de inovação? Exatamente por uma das características que fazia a "Apple ser a Apple": o design.

Sete gerações de iPhone e 3 designs

Abaixo, um vídeo vazado mostrando o design do iPhone 7:

Considerando que seja verdade, já que algo só é completamente certo quando lançado ou confirmado pela empresa, algo que a Apple não fez, qual é a diferença dele para o iPhone 6s? Ou mesmo o iPhone 6? As antenas curvadas para as bordas superior e inferior? Essa é a mudança que a Apple demorou 2 anos para conseguir? 2 anos de pesquisa desenvolvimento de uma das maiores empresas do mundo e esse é o resultado?

Steve Jobs passou alguns minutos explicando que as linhas de antena do iPhone 4 não são uma falha de design, e sim um "recurso". Toda o carisma e retórica utilizado para convencer o usuário, porém, não impediu o "Antennagate" na época. A culpa não foi da Apple ou de um design ruim, é claro, mas sim do usuário, que "segurava do smartphone do jeito errado". Se tivéssemos que precisar uma data onde as decisões da Apple começaram a ser questionadas, certamente seria esse momento. Fim da era da "infalibilidade da Apple", por assim dizer.

Cheque indenização Antennagate

Lembram do Antennagate? Alguns usuários foram até indenizados pela Apple, mas a forma como as antenas são posicionadas pouco mudou desde 2010.

Isso no iPhone 4, anunciado em 2010, e desde então a Apple não encontrou uma solução para posicionar suas antenas. A ASUS, em compensação, encontrou uma solução muito mais elegante para isso, posicionando as antenas de uma forma muito mais discreta e não prejudicando o visual do Zenfone 3. Detalhe: a ASUS está presente no mercado de smarphone há poucos anos, praticamente desde de 2014, quando começou a adotar um posicionamento mais agressivo. A Apple, que praticamente inaugurou o smartphone como conhecemos hoje, está aí desde 2007.

O problema não é somente a antena. Se ela for removida tanto do iPhone 6s quanto do iPhone 7, os aparelhos são virtualmente idênticos. Quer dizer, quem tiver os dois e colocá-los lado a lado, pode ver que a câmera em alto relevo tem um chanfro (ligeiramente) diferente. Mas há um jeito mais fácil: basta olhar na parte de baixo e ver que o conector P3 sumiu. Baita mudança, hein? Os controle de volume, carcaça de metal, posicionamento dos componentes, o logo da Apple, e praticamente todo o resto: exatamente a mesma coisa.

Iphone 7

Esse chanfro extra da câmera, presente sob a desculpa de que o sensor é muito grande (e não o aparelho, que é muito fino) faz com que usar um iPhone recente sem case de proteção seja impossível.

O que a Apple fez em relação ao design foi simples: modificou o chanfro de câmera – algo que os usuários "adoram", já que os obriga a comprar uma capa de proteção para não danificá-lo – eliminou o conector P3 e espelhou a grelha na parte de baixo de forma simétrica a partir do conector Lightning e... e... o que mesmo? É bastante capaz de as empresas terceiras que fabricarão os novos modelos reaproveitarem exatamente as mesmas formas.

Enquanto isso, o design do Galaxy S5 da Samsung (péssimo, diga-se de passagem) recebeu os feedbacks necessários e fez com que a Samsung mudasse radicalmente no Galaxy S6. Recebeu críticas dos usuários pelo "Galaxy iPhone S6" e pela falta de suporte a cartões microSD e refinou um pouco o primeiro enquanto habilitou o segundo. No caso dos Edge, fez com que um recurso que era mais uma curiosidade passasse a ter funções realmente úteis e uma identidade própria entre o S6 Edge e o S7 Edge.

Asus Zenfone 3

Empresas como a ASUS, junta com diversas outras, inovaram, sozinhas, muito mais do que a Apple nos últimos anos.

A LG arriscou mudar o posicionamento dos botões no G2, tela Quad-HD no G3 e um design em couro no G4, que trazia uma das melhores telas IPS do mercado. Deu um passo maior do que a perna no G5 com sua proposta modular (opinião do autor), tanto pela forma quanto foi implementado quanto pelo preço dos Friends, além de ter errado feio em criar uma versão com chip intermediário e menos memória RAM. Mas tentou, arriscou e se propôs a fazer algo de diferente.

Enquanto isso, a Apple apenas anunciou uma versão dourada no iPhone 5s e o "Rose Gold" no iPhone 6s. De tão parecidos com os seus respectivos antecessores (iPhone 5 e iPhone 6), a forma de mostrar que eram de fato diferentes era exibir que comprou uma cor diferente, indisponível em modelos mais antigos. Disponibilizar uma nova cor é inovação, na política recente da Apple, a forma mais fácil de "provar" que o seu iPhone 6s é de fato um iPhone 6s, e não o iPhone 6.

Até entendemos que usuários apreciem novas cores em smartphones, mas ser o único quesito diferente de design mais parece preguiça. Imaginem a conversa entre Tim Cook e Jony Ive:

  • Tim Cook: "Mas Jony Ive, como vamos convencer o usuário que o aparelho é realmente novo? Eles são idênticos!"
  • Jony Ive: "Ah! Coloca uma cor nova e ponto final! Funcionou com o iPhone 5s."
  • TIm Cook: "Mas vamos fazer algo de diferente no iPhone 7, não? O público já está ficando cansado do mesmo design."
  • Jony Ive: "Mas é claro! Ou não."

Essa falta de criatividade não é de hoje, assim como não se restringe somente ao iPhone, algo que vamos explorar na segunda parte deste artigo. Veremos que os MacBooks estão com o mesmo problema, assim como a Apple ainda colhe frutos do iOS, atribuindo as vendas atuais aos iPhones, ainda que os usuários estejam mais interessados no sistema do que no aparelho. Veremos também como a insistência da Apple em fechar seus padrões pode estar com os dias contados.

Com informações do The Verge