Opinião: ainda vale a pena comprar um smartphone com Windows Phone? (parte 2)

Por Pedro Cipoli | 02.02.2016 às 17:50

Estamos discutindo o "rise and fall" do Windows Phone e dos Lumias em uma manobra quase bem feita da Microsoft. Basta observar o mercado e entender que o consumidor deve levar esses sinais a sério antes de escolher seu próximo smartphone.

Vamos à segunda parte do artigo.

(Para quem não leu a parte 1: Opinião: O Windows Phone não morreu, mas está em estágio terminal)

Preços, licenciamento e disponibilidade

Quando a Nokia anunciou seus novos aparelhos em 2014, uma frase resumiu muito bem a mensagem que a empresa quis passar para o consumidor: “hardware de 2013, preço de 2015”. Com exceção das promoções ininterruptas dos aparelhos mais básicos, os modelos com Windows Phone não eram baratos em qualquer segmento, em especial os "tops" de linha. Foi a época em que começou a história do “o concorrente cobra X por seus aparelhos, então temos que posicioná-los como iguais com o mesmo preço X”. Foi uma estratégia que deu muito errado (e muito mais rápido) para a Blackberry, mas que certamente espantou muitos usuários potenciais do Windows Phone.

Mais do que isso, a disponibilidade dos aparelhos nunca foi tão grande quanto a dos aparelhos com Android ou dos iPhones. Talvez pelo fato de que poucos aparelhos foram produzidos, ou talvez pela tentativa de criar a ilusão de uma falsa demanda. Ou talvez os dois, o que resultaria em tentativa de criar um “clube dos poucos” que correram para comprar os aparelhos novos. Em relação aos preços altos, algo tão comum no Brasil, era um fenômeno mundial, com Lumias posicionados em patamares próximos a iPhones novos e Androids tops de linha. Com uma plataforma inferior, porém.

Nokia Lumia 830

O fenômeno de ver aparelhos caros como sinônimo de avançados funcionou durante algum tempo, mas teve vida curta. Cada vez mais, usuário passam a ver o que realmente um produto vale, e se o preço não corresponder ao que o aparelho oferece, ele o encosta nas prateleiras. No caso do Windows Phone, ainda há a questão do licenciamento, já as licenças são, sim, pagas. No mercado de PCs, essa é uma estratégia que até funciona para a Microsoft (ainda que a empresa esteja mudando nesse ponto), mas não é o modus operandi de smartphones e tablets. O lucro está nos apps, desde que estes mostrem seu valor, e já pré-taxar o usuário logo de cara dificulta essa estratégia, tão comum nos iPhones e no Android.

E o Windows 10?

A Microsoft realmente nos surpreendeu com os recursos do Windows 10, em especial o Continuum, que não tinha concorrentes durante o lançamento (pelo menos da forma como é implementada). Um novo sistema, novos aparelhos (Lumias 950 e 950 XL), novas câmeras... e mesmos apps e problemas. Pior ainda, disponibilizou somente esses dois aparelhos, inicialmente difíceis de achar (comparativamente ao iPhone e aos Androids), já que, assim como aconteceu com a Cortana, as atualizações para aparelhos antigos foram adiadas várias vezes. A Microsoft até garantiu que boa quantidade deles receberá a atualização, mas quando?

Windows 10

O risco que a Microsoft corre com isso é demorar demais e, quando essa atualização chegar, é que ele já seja um sistema velho. Enquanto isso, o Android avança em quinta marcha, ainda que a capilaridade de atualização dependa bastante dos fabricantes. Mesmo se não for o caso, quando ela chegar, as expectativas dos usuários, considerando a demora, esteja tão alta que ele acabe decepcionando. Outro ponto é que tanto Apple quanto Google trabalham com uma agenda fixa de atualizações, rigidamente cumpridas até então, uma demonstração de comprometimento com o usuário que a Microsoft não está conseguindo manter.

Saturação de mercado

Para atrapalhar ainda mais o Windows Phone, o mercado de smartphones está saturando lentamente há algum tempo. Até mesmo a Apple está com problemas para continuar batendo recordes de vendas em seu público mais fiel (Estados Unidos), já que grande parte do sucesso da nova geração (6S e 6S Plus) se deveu a novos usuários na China. O motivo: usuários estão trocando cada vez menos de aparelhos, e muitos o fazem somente quando os novos recursos realmente compensam. Ou quando o aparelho quebra.

Desde o lançamento do iPhone original, em 2007, havia um público gigantesco de pessoas que queriam um smartphone mas não tinham condições de comprar um iPhone, ou mesmo estavam em busca de concorrentes. A Samsung conseguiu explorar muito bem esse público, popularmente conhecido como exército de reserva, oferecendo uma opção (ou cinquenta) de aparelho para cada usuário específico. Foram os “anos de ouro” para fabricantes de smartphones, já que todos estavam ansiosos para comprar seu primeiro smartphone, e quem aproveitou se de muito bem.

Venda de celulares

Quem apareceu depois, por melhor que o sistema seja inovador ou superior, não começava a competir do mesmo ponto de partida, já que já havia uma base instalada considerável que precisa ser convencida a mudar de plataforma. Nesse cenário, não basta ser tão bom quanto o concorrente: é necessário mostrar que o seu produto é realmente superior, uma dificuldade que tanto a Microsoft quanto qualquer outro novo concorrente (como Firefox OS e Tizen) tem que enfrentar. Basta considerar que, segundo o IDC de 2015, quase 95% dos smartphones do mundo rodando iOS ou Android (este com quase 85% de penetração de 2014).

Para piorar, o ciclo de troca está cada vez maior. As famosas filas que se formam a cada novo "top" de linha se tornaram cada vez mais raras, quando não inexistentes (se bem que alguns fabricantes maquiam bem esse ponto, a ilusão da falsa demanda). Mesmo que um Lumia imbatível apareça no mercado, o usuário só prestará atenção quando realmente precisar comprar outro modelo, não quando o produto for lançado.

Conclusão

Voltando à pergunta inicial: vale a pena comprar um aparelho com Windows Phone ainda hoje, em pleno 2016? Por mais que a Microsoft tenha constantes prejuízos com o esse departamento, é difícil ver a empresa abandonar o sistema em um futuro próximo, já que se trata de uma das maiores empresas do mundo. De qualquer forma, ainda fica aquela noção de risco de comprar um modelo que, eventualmente, deixará de ser suportado, se tornando um sistema (ainda mais) estático que oferece o básico: WhatsApp, Facebook, um navegador qualquer, Spotify e mais meia dúzia de apps, longe da eferverscência de novos apps e recursos dos concorrentes Android e iOS.

Junte uma plataforma fechada, proporcionalmente mais cara, com menos apps (e sem perspectivas de melhora), poucos aparelhos difíceis de encontrar e uma postura conservadora em relação a esses fatos para entender como o Windows Phone é o “sistema do futuro” há anos (com o perdão das comparações). Aquele sistema que mantém um permanente estado de “tem potencial, pode incomodar os concorrentes no futuro e contará com novidades imbatíveis em breve...” há 5 anos.

Cortana

Respondendo à pergunta, o Windows Phone ainda vale a pena, mas em casos bem específicos. Por exemplo, não adianta investir alto em um hardware potente para poder utilizá-lo em meia dúzia de apps, valendo a pena investir menos (bem menos) em modelos que sejam realmente baratos, mais do que concorrentes com Android. Não raro, algumas operadoras oferecem Lumias de graça mesmo nos planos mais básicos (e alguns ainda consideram muito caro), e não chega a ser uma opção ruim para quem busca economizar ao máximo. Porém, a batalha pelo terceiro lugar com uma fatia de mercado expressiva já mostra sinais de se tratar de uma batalha perdida, e é difícil acreditar que a Microsoft vá reverter esse cenário, mais um ponto negativo para quem tem Android ou iOS e uma vez considerou mudar de plataforma.

Nossa inspiração para escrever esse artigo foi utilizar um aparelho com Windows Phone, provisoriamente, até que o Android atual fosse consertado. Usar o smartphone no dia a dia é diferente de apenas testá-lo, já que passamos a depender somente dele para nossas tarefas diárias, e, mesmo se tratando de um aparelho até muito bom (Lumia 930), as limitações dele se tornam patentes quando saímos de um modelo Android anunciado por um preço menor (Zenfone 2). Não é o aparelho, o hardware ou mesmo a câmera, e sim o sistema, que, independentemente da familiaridade, se mostrou limitado, pelo menos uns 3 degraus abaixo da experiência de uso que praticamente qualquer Android oferece atualmente.