Opinião: a Sony e o seu Xperia Z5 Premium com tela 4K

Por Pedro Cipoli | 03.09.2015 às 15:27 - atualizado em 03.09.2015 às 15:38

Iria acontecer em algum momento: mais dia menos dia uma empresa iria anunciar um smartphone com tela 4K, jogando a densidade de pixels para as alturas (806 pontos por polegada quadrada, no caso do Xperia Z5 Premium da Sony) com a promessa de oferecer imagens mais reais do que a própria realidade. É interessante analisar o que isso significa, já que o mercado de smartphones anda a pleno vapor, ainda que fabricantes se recusem a reconhecer que é um segmento cada vez mais saturado. Conforme o tempo passa, novas tecnologias aparecem, e enquanto algumas delas são até bacanas, outras mostram o desespero de empresas de tentar se destacar a qualquer custo, nem que seja oferecendo "benefícios" que não fazem o menor sentido.

Hora de analisar o que a tela 4K do Xperia Z5 Premium realmente significa, não apenas para a Sony, mas para o mercado de smartphones de uma forma geral.

Vamos começar de uma forma diferente. Abaixo temos uma foto do Xperia Z2 da Sony, anunciado no começo de 2014:

Sony 4K

Agora temos o Xperia Z5 Premium, flagship recentemente anunciado na IFA 2015 com tela 4K.:

Sony 4K

Consegue ver alguma grande diferença entre os dois? O desespero da Sony é tão grande que a empresa anunciou nada menos do que 4 tops de linha em um intervalo inferior a 2 anos. São menos de 6 meses entre um lançamento e outro, com pouquíssimas mudanças entre os modelos. Já imaginou ter que explicar para o seu amigo que o seu novo smartphone é o Z5 Premium e não o Z2? Tira a aura de "Premium", não tira? Ah, reparou também que as imagens foram propositalmente trocadas? Que a primeira imagem é o Z5 Premium e a segunda é o Xperia Z2?

Afinal, qual é a vantagem de uma tela 4K em smartphone?

Nenhuma. A prova disso é o próprio hands-on que a imprensa fez na feira. Elogios gratuitos de "é uma tela fantástica" e "deixou os concorrentes no chinelo" para um aparelho que, na verdade, era o Xperia Z5 convencional. Não havia um Z5 Premium sequer para hands-on, que estava protegido dos curiosos por uma parede de vidro. O motivo? Manter o hype. Já imaginou a imprensa internacional falando que não conseguia ver a diferença entre o Z5 Premium e o Z5 comum horas depois de a Sony falar que isso iria revolucionar o mercado? Iria pegar mal.

Isso dá espaço para a Sony maquiar as qualidades da tela 4K. Como é comum em lançamentos, uma empresa coloca um smartphone do lado do outro mostrando a superioridade de uma dada tecnologia de forma comparativa. Mas proteger essa comparação com uma parede de vidro permite que a empresa faça alguns... ajustes, como aumentar o brilho de tela do modelo que quer destacar, usar diferentes arquivos de vídeo com qualidades diferentes e convencer quem passa e olha (mas não pode tocar) de que se trata de uma realmente superior.

A quantidade de testes cegos publicados na internet (e que deram errado) para mostrar a vantagem de resoluções maiores é enorme. A mudança do 720p para o 1080p foi recebida até com alguma naturalidade, chegando aos 400 PPI. A mudança do 1080p para o 2K já foi difícil de engolir, já que é quase impossível dizer a diferença entre um e outro. Aumentar ainda mais para o 4K... bom, já sabe né?

É um upgrade ou um retrocesso?

Tem os problemas inerentes de aumentar a resolução também. Renderizar 60 frames por segundo em uma resolução de 3840x2160 já é exigente para uma máquina gamer, então, claro, parece uma boa ideia tentar em um smartphone. Em primeiro lugar, conteúdos em 4K ainda são raros (e serão por um bom tempo). Mas a Sony promete upscaling, aumentando a resolução em tempo real para 4K. Ainda não é 4K, é upscaling. E outra: o Snapdragon 810 mal esquenta, não é mesmo?

É bom que o Xperia Z5 Premium seja à prova d'água por isso, já que a empresa pode oferecer versões com watercooler. O Snapdragon 810 mal consegue ficar frio com a tela desligada, imagine fazendo upscaling para 4K a 60 frames por segundo em um jogo. Boa sorte para a coitada da bateria (que, por sinal, ficou ainda menor no Xperia Z5), que dificilmente aguentará 2 dias de uso como a Sony promete. Quer dizer, pode até aguentar dois dias, desde que você não ligue a tela.

O que isso representa para a Sony?

A Sony não anda bem. Os próprios números da empresa mostram que a divisão de smartphones sangra dinheiro diariamente, e "testes de transporte público" mostram que poucos são os usuários que usam algum modelo Xperia. O motivo? Provavelmente porque a Sony acha normal cobrar um preço bem acima dos seus concorrentes sem oferecer quase nada em troca, apelando para um benefício de marca que poucos usuários enxergam.

Para ajudar, essa estratégia de lançar smartphones avançados a cada 6 meses é um tiro no pé. O intervalo de tempo somado entre as vendas oficiais do Z5 Premium, você comprá-lo e esperar chegar em casa é o suficiente para aparecer rumores do Xperia Z6, enquanto um Xperia Z7 apareceu perdido em um Starbucks em algum lugar do mundo. Mal lançado, já dá a impressão de ser desatualizado, algo de que usuários avançados costumam não gostar.

Menos hype e mais inovação

Usuários trocam de smartphones com cada vez menos frequência, mostrando uma saturação do mercado. Hypes não vendem mais como vendiam alguns anos atrás, com cada vez mais pessoas trocando de smartphones somente quando o atual sofre algum acidente, e dos graves. E, mesmo assim, o custo-benefício pesa muito mais do que pagar por um recurso que uma empresa tenta convencer que se trata de uma mudança de paradigma. Algumas empresas perceberam isso, criando modelos que realmente atendem a esse público, enquanto outras ligam mais para o hype do que para qualquer outra coisa.