Entenda por que a Intel desistiu do mercado de smartphones e tablets (Parte 2)

Por Pedro Cipoli | 13 de Junho de 2016 às 23h06
photo_camera PC World

Na primeira parte deste artigo fizemos uma pequena introdução sobre a proposta original do Atom, que chegou ao mundo focado nos ultraportáteis, e falamos um pouco sobre a sua chegada (atrasada) no mercado de smartphones. Com essas informações, começamos a entender o motivo de ele não ter feito sucesso no mercado móvel, o que acabou resultado na sua extinção pela Intel, que por sua vez parou de alocar recursos a ele. A partir de agora, a linha mais básica da empresa passa a ser o Celeron, enquanto o Core M passará a ser o carro chefe dos ultraportáteis.

Agora vamos focar em uma segunda caraterística dos Atoms que acabou atrapalhando a sua adoção, considerando a concorrência, e veremos como o próprio posicionamento de mercado da Intel também não contribuiu para que ele fizesse mais sucesso.

A GPU (ou a falta dela) e o gerenciamento de energia

GPU é um assunto delicado em praticamente todos os chips utilizados no Android, algo que exploramos aqui no Canaltech em uma série dividida em 3 partes sobre o que diferencia um chip avançado de outro intermediário. Com raras exceções, muitos fabricantes de chips focam excessivamente no poder de fogo das CPUs em detrimento à GPU, já que é uma mensagem mais facilmente assimilada pelo consumidor. É mais simples passar a mensagem "X núcleos rodando a Y GHz" do que "ARM Mali T880 MP8", que não dá pistas do que isso significa na prática.

Pois bem, com o Atom não é diferente, e demorou muito tempo para ele ter gráficos integrados considerados "ok". O processador é desproporcionalmente mais poderoso do que os gráficos integrados, uma herança que a Intel puxou da sua linha de CPUs para desktops e notebooks. O chip Atom Z3580 presente no Zenfone 2, por exemplo, trazia quatro núcleos x86 rodando a 2,3 GHz e 4 GB de memória RAM, mas tem o calcanhar de Aquiles nos gráficos. No caso, é a PowerVR G6430 Rogue, mesma GPU que equipava o iPhone anunciado 2 anos antes. Isso tendo que trabalhar com uma resolução quase 3 vezes maior (1920x1080 contra 1136x640).

Intel Atom 2

Acima, o estágio mínimo de energia do Atom Z3580, bastante alto se comparado com diversos concorrentes da ARM

O resultado é um smartphone rápido em praticamente qualquer tarefa, mas que não é capaz de rodar os jogos mais avançados do Android em resolução máxima, ou com todos os filtros e efeitos ativos (alguns games, como o Sniper 3D Assassin, engasgam quando configurados no máximo). Esse é um dos pontos que a Intel não "trabalhou" no Atom, que não passou por um processo de adaptação para smartphones, mantendo a mesma estratégia dos PCs. Quem busca o máximo de performance nos PCs usa sim CPUs Intel, mas deixa os gráficos a cargo de placas de vídeo AMD ou Intel, opção indisponível nos smartphones.

Essa falta de GPU é sentida também em alguns poucos detalhes, como a incapacidade do Zenfone 2 de gravar vídeos com resolução 4K e de tirar fotos em RAW, ainda que não seja propriamente uma limitação do sensor de câmera. Outro ponto é a própria velocidade do pós-processamento das fotos. O Zenfone Selfie tem um chip tecnicamente inferior ao do Zenfone 2 (no caso, o Snapdragon 615), mas processa as fotos muito mais rapidamente. Pode ser tanto um problema de compatibilidade (algo que exploramos na primeira parte) quando uma GPU menos capaz de lidar com o processamento e tratamento posterior das fotos.

Outro ponto é o consumo de energia. Ainda falando no Zenfone 2, o processador é sim extremamente poderoso, mas se o usuário não habilitar o gerenciamento de energia, que corta consideravelmente o clock, a bateria vai de 100% a 0 em uma velocidade assustadora. Quando o Atom para smarphones passou a usar mais de dois núcleos, ele não trouxe a habilidade de desligar núcleos individualmente, o que certamente pouparia muita bateria. O Atom Z3560, por exemplo, tem como estágio mínimo os quatro núcleos rodando a 500 MHz, isso para um chip que já possui mais transistores por natureza.

Intel Atom 2

Já o MediaTek MT 6753, mesmo sendo tecnicamente inferior em relação ao desempenho, é muito melhor adaptado a consumir menos energia quanto possível

Como comparação, o MT6753 tem oito núcleos rodando a 1,3 GHz e é capaz de deixar apenas um deles ligado a 300 MHz, isso para a arquitetura ARM, que usa menos transistores por núcleo (pelo menos para o Cortex-A53). O resultado prático é que o Lenovo Vibe A7010 tem apenas 300 mAh a mais de bateria, mas aguenta muito mais tempo na mão do usuário que o Zenfone 2, isso com ambos trazendo uma tela de mesmo tamanho e resolução.

Posicionamento de mercado

Desde a introdução do Atom no mercado de smartphones em 2012 até o encerramento de sua produção, a Intel não criou um chip verdadeiramente competitivo no segmento avançado. Ao contrário do que acontece nos PCs, a Intel não tem o pódio, posição que a empresa está acostumada há vários anos. Isso acaba resultando em uma espécie de "falta de projeção", com a falta de um modelo avançado que estimule o interesse do usuário em modelos mais básicos.

AZUS ZENFONE 2

A ASUS foi uma das poucas empresas a anunciar o Atom em produtos um pouco mais avançados, mas boa parte das marcas que trazem esse chip estão em segmentos de entrada e de baixo custo

Por exemplo, as linhas avançadas da Samsung (Galaxy S e Galaxy Note) têm uma função dupla. Ao mesmo tempo em que miram nos usuários mais exigentes e garante margens de lucro maior para a empresa, garantem que os usuários que estão em busca de um modelo básico ou intermediário tenham a mesma qualidade dos modelos top de linha, trazendo visibilidade para as linhas mais básicas, que passam a contar com um argumento de venda extras, além do preço. Ou mesmo podem ter um preço um pouco maior.

Não é o que aconteceu com os chips Atom. Enquanto a linha atual da Qualcomm tem o Snapdragon 820 como ápice, o "grosso" das vendas está nas linhas mais básicas, nas séries Snapdragon 400 e Snapdragon 600. Quando anunciado, o Atom Z3580 era o chip mais avançado da Intel, mas não era capaz de competir com os concorrentes no segmento top de linha. É sim um chip poderoso, mas consome mais energia, tem lá seus bugs e conta com uma GPU que não acompanha a CPU, características que dificultam a identificação do Atom como melhor opção disponível.

Intel Atom 2

Processador Intel Atom quad-core de 1,8 GHz...com 8 GB de memória interna, Android 4.2 sem atualização, 1 GB de memíria RAM e tela de baixa resolução

Outro ponto, esse mais delicado, é que a Intel sacrificou a fama do Atom colocando em produtos sem o poder de marca da Samsung, LG ou Sony com um foco muito maior do que marcas menos conhecidas. Modelos como o Positivo Mini Quad, Qbex TX 322i e o DL X-Pro, por exemplo, usam chips da Intel de arquiteturas mais antigas. Não são produtos ruins, mas transitam entre os segmentos de baixo custo e de entrada, um portfólio ruim para provar do que o Atom é capaz.

Pior, são produtos que deixam a desejar em diversos sentidos. Trazem pouca memória interna (geralmente 8 GB), que também são mais lentas, pouca memória RAM (1 GB, quando muito), telas de baixa resolução e versões desatualizadas do Android sem a menor possibilidade de atualização. Ou seja, o usuário compra um modelo por ter um chip Intel e acaba tendo uma experiência abaixo do esperado devido ao conjunto de componentes, o que acaba resultando em uma identificação inconsciente entre chips Intel e experiência de uso abaixo do esperado, ainda que não seja culpa inteiramente do Atom.

Na terceira e última parte desse artigo, vamos focar em aspectos de mercado da Intel, que tentou emular o seu posicionamento de mercado de PCs nos smartphones e tablets sem sucesso, algo que a concorrência muito maior também não ajudou.