Entenda por que a Intel desistiu do mercado de smartphones e tablets (Parte 1)

Por Pedro Cipoli | 09.06.2016 às 00:21 - atualizado em 14.06.2016 às 01:09

Foi acontecendo aos poucos. Em março deste ano, a Intel anunciou que iria reduzir o ritmo de lançamento de novos processadores, saindo do ciclo de diminuição da litografia ("tick") e nova arquitetura ("tock") par um ciclo de três fases: processo de fabricação, nova arquitetura e otimização ("tick, tock... tack"?). Algumas semanas depois, começaram a aparecer especulações sobre um possível corte drástico no quadro de funcionários da empresa, em especial pelo fato de empresas e consumidores trocarem de máquinas com cada vez menos frequência, machucando as margens de lucro da empresa.

As previsões iniciais projetavam um corte de cerca de 1000 funcionários, mas o número acabou sendo 12 vezes maior, representando cerca de 11% da força de trabalho total da empresa. No relatório do primeiro trimestre deste ano, a companhia teve um crescimento de apenas 1%, bastante pequeno, e afirmou que a "reformulação" do quadro de funcionários aconteceu para que a Intel focasse sua produção em chips para data centers, internet das coisas (IoT) e dispositivos móveis. Apenas 10 dias depois, porém, a empresa anunciou que havia cancelado a produção do Atom.

Considerando o timing das notícias, muitos não entenderam essa decisão. Afinal, mesmo que o mercado de smartphones esteja em um processo de maturação, não tendo o mesmo fôlego de antes, ainda é um dos segmentos mais quentes do momento. Por que isso aconteceu? Por que a Intel gastou quase US$ 10 bilhões ao longo dos anos para tentar posicionar o Atom como concorrente viável dos chips ARM e acabou pendurando as chuteiras? É um valor considerável mesmo para uma empresa do tamanho da Intel, o que incluiu tanto a fabricação dos chips quanto o processo de adaptação da arquitetura x86 para dispositivos móveis.

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É isso que vamos entender neste artigo. Considerando a história do Atom, não chega a ser algo completamente inesperado. Como veremos, isso aconteceu devido a dois motivos em especial: a evolução do Atom contra os concorrentes e ao próprio posicionamento da Intel em relação a ele, dois fatores que fizeram o Atom ficar para trás na corrida pelo pódio no segmento mobile.

Proposta original do Atom

A linha Atom é descendente direta dos chips A100 e A110 de 90 nanômetros, que por sua vez era uma versão de baixíssimo consumo energético do Pentium M. Sua proposta era equipar ultraportáteis, já que contava com TDPs, assim como consumo energético, bem reduzidas. Para a época (2007), era um triunfo e tanto, já que a linha de alto desempenho da empresa, a Core 2 Duo, trabalhava com TDPs de 35 watts, enquanto a do A110 era de apenas 3 watts, limitada a apenas um núcleo rodando a 800 MHz.

Com metade da litografia e TDPs ainda menores (2 watts), a geração Silvethorne chegou ao mercado em 2008 derivada do A110 com basicamente as mesmas características, ainda restrita a um núcleo rodando a 800 MHz. Era, basicamente, uma resposta da Intel à linha Geode da AMD, contando com componentes de baixo custo para equipar ultraportáteis extremamente acessíveis, como o projeto One Laptop Per Child. Era sim um chip bastante limitado, assim como o Geode, mas o foco não era desempenho e sim o custo mais baixo quanto possível.

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Os chips A100 e A110 não foram tão populares, mas deram origem ao Atom já com a proposta de ser o mais barato quanto possível.

Poucos meses depois, a Intel anunciou a arquitetura Diamond View, com o Atom N270 sendo o seu representante mais famoso, voltado especialmente para netbooks – que, então, eram parte de um segmento novo no mercado para o consumidor final. Os anos de 2008 e 2009 popularizaram os netbooks, máquinas pequenas, baratas e com desempenho bastante limitado criadas especialmente para se comportarem como "segunda máquina". A ideia era que os usuários tivessem uma máquina poderosa em casa, geralmente um PC, e usassem o netbook quando estivessem fora de casa para tarefas mais básicas.

Deste então o Atom foi evoluindo anualmente, oferecendo mais desempenho e mantendo os custos baixos, assim como o seu foco em máquinas baratas de baixo desempenho. As TDPs das gerações seguintes foram aumentando também, já que o seu foco original era laptops, não smartphones, e o seu desenvolvimento foi mais lento do que as linhas de alto desempenho da Intel. Era uma espécie de "segunda linha" da empresa, já que a Intel direcionava a maior parte de seus recursos para suas linhas de alto desempenho, onde estavam as maiores margens de lucro.

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A "febre" dos netbooks se deveu exatamente às suas características: computadores com telas pequenas, autonomia de bateria até razoável e preço acessível, mas já chegaram com a proposta de ser o "segundo computador".

Foco da linha Atom era ser usado em PCs desde o início e não smartphones. Seus primeiros modelos chegaram ao mercado quase ao mesmo tempo em que o primeiro iPhone foi anunciado, assim como o HTC Dream. A Intel não deu atenção ao crescimento exponencial dos smartphones por praticamente 4 anos, criando versões sucessivas do Atom para PCs. Quando ficou mais ou menos claro que os smartphones não poderiam ser ignorados, a Intel finalmente começou o processo de adaptação para smartphones, e o primeiro modelo anunciado foi o Lava Xolo X900 em 2012.

Podemos depreender até aqui que a empresa já entrou no mercado atrasada, já sendo obrigada a competir com concorrentes estabelecidos logo de início. Ou seja, já chegou em uma posição de desvantagem. E, como se isso já não tornasse a situação difícil por si só, esse não era o único problema da Intel.

A difícil migração para dispositivos móveis

Ainda em 2008 muitos diziam que a Intel não tinha chance de concorrer no mercado de smartphones. Apesar disso, a empresa fez uma parceria com a Lava para anunciar o Xolo X900 em 2012 para provar o contrário. Era um smartphone completo, não apenas um conceito, e chegou ao mercado somente na Índia, terra natal da Lava. O Xolo era um smartphone, digamos, "ok", compartilhando muitas características com o Razr i da Motorola, modelo que chegou no Brasil.

Ele trazia o Atom Z2460 (Medfield) com 1 GB de memória RAM e GPU PowerVR SGX 540, tela de 4 polegadas com resolução de 1024x600 e câmera traseira de 8 megapixels, não deixando nada a desejar, mas também longe de se destacar. Como referência, a Samsung anunciou o Galaxy S3 poucos meses depois. Ou seja, a Intel mostrou sim que poderia concorrer no mercado de smartphones, mas começou sem concorrer com tops de linha e em um aparelho que não foi visto em boa parte do mundo, não sendo anunciado nem nos Estados Unidos.

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Lançado para a Intel "provar que podia", o X900 ficou restrito à Índia e sofria problemas de compatibilidade. Seu desempenho, porém, agradava.

Mesmo não concorrendo no segmento de alto desempenho, o Atom Z2460 não deixou de chamar a atenção. Com apenas um núcleo rodando a 1,6 GHz, ele era capaz de concorrer com diversos modelos dual-core baseados no Cortex-A9, graças ao Hyperthreading. Isso com um preço bastante competitivo, chegando ao mercado com um valor até bastante acessível de 19000 IND, o que representava pouco mais de R$ 500 na época, já que o dólar estava abaixo de R$ 2 (bons tempos).

Isso em benchmarks, já que as primeiras gerações de smartphones com chips Atom contavam com problemas de compatibilidade com diversos apps. Não chegava a ser uma regra, mas era comum alguns apps e jogos fecharem sozinhos. Ou nem mesmo abrirem, caso do HERE Maps, que começou a ser suportado somente no segundo semestre de 2015... mas a lista inicial era considerável.

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Mesmo contando com apenas um núcleo, o Atom Z2460 conseguia competir com diversos chips de dois, muitas vezes ganhando, isso graças ao Hyperthreading, tecnologia da Intel que faz com que cada núcleo "emule" dois.

Isso acontecia pelo fato de o Atom ser desenvolvido originalmente para PCs, usando a arquitetura x86 ao invés da ARM, onipresente em todos os aparelhos de todos os fabricantes até a chegada da Intel. Enquanto alguns apps não funcionavam corretamente, ou nem mesmo abriam, outros sofriam uma considerável queda de desempenho pela falta de otimizações, algo que foi resolvido de forma gradual pela Intel, mas não em uma velocidade rápida o suficiente para concorrer com a evolução veloz de diferentes chips ARM.

Na segunda parte deste artigo vamos continuar explorando as limitações dos chips Atom e a dificuldade da Intel de se apresentar como uma alternativa aos chips ARM, além de começarmos a entender como atitudes mercadológicas erradas também dificultaram a sua popularidade.

Fontes: Recode, ExtremeTech 1 e 2