ChipGate – entenda a diferença dos chips dos iPhones 6s e 6s Plus

Por Pedro Cipoli | 03 de Novembro de 2015 às 16h39

Boa parte dos designers de chips do mercado não fabrica seus modelos. Há algumas exceções, caso da Samsung e da Intel, em que todo o processo de fabricação é feito in-house, mas a regra geral, seguida por empresas como Apple, Qualcomm e AMD, é desenhar os modelos e terceirizar a fabricação para outras empresas. Do outro lado da moeda, algumas empresas são especializadas apenas em fabricar os chips, caso da GlobalFoundries e TSMC, e outras que não só fabricam seus chips, como também aceitam encomendas de terceiros, caso da Samsung.

Dependendo da demanda, algumas empresas adotam mais de uma terceirizada para fabricar seus chips, o que no melhor dos cenários não mudaria nada para consumidor, já que se trata do mesmo projeto. Porém, fabricantes diferentes podem chegar bem perto de um mesmo design, o que não necessariamente quer dizer que se tratam de chips idênticos. Este é o caso do Apple A9 dos iPhones 6s e 6s Plus, que apresentam resultados diferentes em situações cotidianas.

A diferença entre os modelos da TSMC e da Samsung

Ambas as fornecedoras foram as escolhidas para as versões atuais dos iPhones, o que resulta em um total de 4 chips diferentes, dependendo de quem fabrica e de qual o iPhone em questão:

  • iPhone 6s (Samsung): N71AP
  • iPhone 6s (TSMC): N71mAP
  • iPhone 6s Plus (Samsung: N66AP
  • iPhone 6s Plus (TSMC): N766mAP

Nota: para checar qual chip equipa o seu iPhone, basta utilizar o app Lirium, que pode ser baixado gratuitamente da App Store. Não é possível saber qual o modelo antes de tirá-lo da caixa, já que não há nenhuma identificação na embalagem externa.

O que muda entre um chip e outro? Duas coisas: litografia e tamanho do chip. Os modelos da Samsung são produzidos em um processo de 14 nanômetros enquanto os modelos da TSMC usam 16 nanômetros. Como as especificações se mantêm, o mesmo vale para a quantidade de transistores, o que faz com que o modelo da TSMC seja um pouco maior do que o da Samsung (104,5 mm² contra 96 mm²).

E o que isso significa?

Por contarem com tamanhos e nanometrias diferentes, esses chips se comportam de forma diferente, com uma vantagem para a TSMC. Não em desempenho, mas sim em autonomia de bateria. O caso mais extremo ocorre em benchmarks, em especial no GeekBench, onde os modelos da TSMC conseguem aguentar até 30% mais tempo fora da tomada.

iPhone 6S

Testes realizados pelo site Ars Technica com brilho de tela normalizado, com o resultado em minutos de autonomia de bateria. Dos 4 testes, o chip da TSMC se saiu melhor em três deles, enquanto a Samsung se sai melhor no WebGL.

Calma aí: mas um chip consegue uma autonomia 30% maior, sendo impossível saber antes de comprá-lo? Isso significa que a Apple faz uma roleta russa com os usuários? Não, já que o GeekBench coloca os iPhones em cenários extremos, com brilho no máximo e CPU e GPU funcionando a 100% o tempo todo, gerando a maior quantidade de calor possível (o que acontece com boa parte dos apps de benchmarks). Na prática, esse é um cenário praticamente impossível de ocorrer na prática, mesmo rodando os jogos mais pesados da AppStore.

Mas sim, eles se comportam de maneiras diferentes, algo reconhecido até mesmo pela Apple, que não vê uma diferença tão significativa entre os dois chips para adotar somente um fabricante.

Mas por que a Apple faz isso?

Demanda altíssima. Levando somente o Brasil como referência isso parece difícil de acreditar, já que é bastante raro ver uma quantidade expressiva de usuários usando modelos recém-lançados. Em mercados mais abertos, onde há uma público considerável que faz fila para trocar de modelo todos os anos (o que levou a Apple a criar um plano de atualização, inclusive), é necessário utilizar vários fornecedores.

iPhone 6S

A Apple não fiz isso somente com os chips, inclusive. Vários componentes dos iPhones dependem de 2, 3 fabricantes, como tela, memória RAM, memória interna, modem 4G e baterias. O que aconteceu de diferente dessa vez é que o resultado não foi idêntico, como geralmente ocorre, apresentando resultados diferentes em situações reais, de forma que essa situação passou a ser conhecida como ChipGate.

De qualquer forma, o que frustrou muitos usuários é que a Apple não “avisou” que isso iria ocorrer antes de começar a vender os novos iPhones, publicando uma nota sobre o assunto somente quando pressionada pelo público. E outra, se isso foi observado, digamos, espontaneamente pelo público, que observou resultados diferentes sem estar procurando, isso quer dizer que há sim uma diferença real, concorda?

Então temos um ChipGate de fato?

Os “gates” perseguem a Apple há um bom tempo. O primeiro deles foi o AntennaGate do iPhone 4, onde o desempenho da antena variava dependendo da posição que o usuário segurava o smartphone. O segundo deles foi o BendGate do iPhone 6 Plus, que entortava, segundo os usuários, quando colocado no bolso, ainda que testes reais tenham mostrado que isso realmente acontece somente em situações pouco naturais (para não dizer estúpidas).

Agora temos o ChipGate, amplificado por resultados em apps de benchmarks. Na prática, em situações reais, a diferença ficou em torno de 2 ou 3% (a favor da TSMC na maioria dos testes, mas não em todos). Essa diferença fica ainda menor se considerarmos que não há uso igual entre usuários diferentes, não sendo algo que possa ser objetivamente normalizado.

Por exemplo, quantos vídeos o usuário vê por dia? Quantos vídeos faz por dia? Costuma jogar com frequência ou boa parte do uso fica restrito a apps como Whatsapp e Facebook? São muitas variáveis para se considerar. E outra: como se isso fosse alterar o fato de que, independentemente do chip, usuários ainda precisam carregar o iPhone duas ou três vezes por dia na versão não-Plus.

Trata-se sim de uma falha por parte da Apple por vender dois produtos diferentes como se fossem idênticos, mesmo que por uma pequena margem, não informando o usuário a qual “versão” que ele está comprando. De qualquer forma, ainda está longe de ser um “Gate”, que coloca uma diferença até bastante pequena entre dois chips de smartphones no mesmo patamar escandaloso de um “Watergate”, que foi um escândalo político responsável pela renúncia de Richard Nixon em 1970 nos EUA (quase a mesma coisa, não?).

Fontes: Ars Technica, PCMag, Tech Times, PPLware

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