A Apple acertou ou errou ao remover o conector de áudio no iPhone 7? (Parte 2)

Por Pedro Cipoli | 13 de Setembro de 2016 às 23h02

O foco da primeira parte foi explorar um discurso de Steve Jobs sobre o abandono de diversas tecnologias com o passar do tempo. Isso ocorreu muitas vezes, e antes de todos os outros fabricantes – e por isso mesmo muitos estão dando um voto de confiança para a Apple para a remoção dos conectores P3 nos novos iPhones. De fato, a Apple acertou muito, assim como cometeu uma boa quantidade de erros nessa trajetória – erros esses que, naturalmente, Steve Jobs fez questão de lembrar. Afinal, quem faz questão de propagar os próprios erros?

Não é justo pegarmos no pé somente da Apple, porém, já que é difícil imaginar que os grandes players não tenham uma lista considerável de seus projetos fracassados. Isso para não mencionarmos a infinidade de produtos de sucesso com erros de projeto, como a falha do touchscreen dos iPhone 6 e 6 Plus (frutos de erros de projeto), ou da explosão de certos modelos do Galaxy Note7 que estão ocorrendo em todo o mundo, como o que explodiu nas mãos de uma criança de 6 anos.

O mito da "infalibilidade Apple" não é restrito somente a ela, mas sim a qualquer fabricante. Aliás, seria uma presunção e tanto acreditar que exista, de fato, uma empresa que não cometa erros. Registrado isso, qual é a probabilidade de a Apple ter acertado dessa vez?

Como uma tecnologia se torna obsoleta?

Qual é o critério utilizado para categorizar uma tecnologia como obsoleta? Quando uma tecnologia "perde a sua utilidade"? Questionamos isso de forma genérica, já que a Apple não é a única a abandonar certas tecnologias. Pensamos no VGA (D-SUB), por exemplo, que está desaparecendo não somente nos notebooks mais modernos, mas também também nas placas-mãe de desktops mais recentes, assim como nos monitores. Qual é o problema do VGA? Por que as empresas estão deixando de utilizá-lo?

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No caso do VGA sim: já é tempo de ele ser abandonado.

Vale lembrar que trata-se de um conector de 1987. E, como geralmente acontece com padrões, ele foi projetado para atender as demandas por anos a fio. Não quase 30 anos, porém, já que ele é incapaz de atender às demandas atuais tanto de qualidade quanto de resolução, e é por isso que ele está silenciosa e progressivamente desaparecendo. Em outras palavras, é uma conexão que chegou ao seu fim de vida, não "servindo" mais atualmente. Basta imaginar como eram os computadores nos anos 80.

O mesmo não acontece com qualquer tecnologia. Muitas delas são abandonadas antes de deixarem de ser "úteis", na falta de uma expressão melhor. Exemplos para isso não faltam, mas certamente os CDs são um dos maiores deles. Da coexistência com as vendas diretas de músicas MP3, hoje muitos de nós nem temos mais um tocador em casa. Isso para não voltar muito no tempo, já que os CDs fizeram o mesmo com os discos de vinil, que voltaram, mas não para recuperar a glória do passado.

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Dos discos de vinil aos serviços de streaming, as mudanças tecnológicas não ocorrem em prol da melhoria do áudio.

Não escolhemos esse exemplo à toa. Pensando exclusivamente em qualidade de som, essa sucessão representa, na verdade, uma piora na qualidade de áudio (vinil - CD - arquivos de MP3, em especial os que trazem bitrates menores). Um fato curioso, considerando que um dos principais argumentos para o abandono do conector de áudio é que a qualidade do som deve melhorar com um conector digital. Cada vez que o padrão de áudio mudou, foi para piorar a qualidade final.

E por que a qualidade de áudio piorou com o passar do tempo? Conspiração da indústria para lucrar mais com equipamentos de qualidade superior? Nada disso. A resposta certa é praticidade pura e simples. Imagine que todas as vezes que você fizesse questão de passar um tempo escutando música tivesse que ligar um tocador de vinil. Ou mesmo algo até bastante comum uma década atrás: ter que usar um discman e ter que levar todos os CDs favoritos na mochila? Nada prático atualmente, e é por isso que os padrões antigos – as mídias físicas, propriamente dito – desapareceram.

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Essa "revolução sem fios" torna o uso mais prático?

Mas não se tornaram obsoletas como os cabos VGA, as portas seriais e paralelas e os disquetes, que perderam espaço e relevância para novas soluções inquestionavelmente superiores. E em qual categoria o conector de áudio se encaixa? Afinal, devemos lembrar que a Apple não foi a primeira a fazer isso: diversas empresas chinesas se adiantaram, assim como o Moto Z da Motorola/Lenovo. Sim, não podemos deixar de considerar que estes podem ter feito isso por influência dos rumores do iPhone, mas isso é irrelevante, já que isso não altera o fato de que removeram.

Ainda que meia dúzia de modelos tenha abandonado o P3, isso está longe de indicar uma tendência. Pelo menos por enquanto, mas é errado acusar a Apple de estar se movendo nessa direção sozinha. Se fosse somente um "delírio", empresas não se adiantariam em tomar a mesma decisão, de forma que é difícil imaginar que não exista pelo menos algumas justificativas para tal.

Mas vamos lá: esse abandono não ocorreu pela praticidade, já que nada mais prático do que poder escolher entre usar um fone Bluetooth, Lightning ou P2/P3. A decisão ficaria a cargo do usuário. Aliás, essa opção já existida com o iPhone 6s e anteriores, de forma que a única mudança real é que o usuário pode escolher entre menos opções. Também não é pela qualidade de som, isso tanto pelo que dissemos neste mesmo parágrafo (já que o usuário escolheria um modelo Bluetooth ou Lightning, se essa realmente fosse a justificativa). E, mesmo porque, há fones "comuns" de excelente qualidade que custam mais caro do que o próprio iPhone 7.

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Áudio com o conector analógico se tornou um problema? Mesmo?

Segundo a Apple, a "coragem" de remover o conector de áudio em favor de uma "revolução sem fios" já estava para acontecer, já que se trata de um conector com mais de 100 anos. De fato, o P2 (ou P3, que é o P2 com suporte a microfone) deriva do P6 (do qual o P2 é adaptado), desenvolvido no século XIX. E o que isso tem a ver com a necessidade de removê-lo? Nada. Absolutamente nada.

Sua remoção não ocorreu porque ele não atende mais aos usuários, já que ele estava longe de ser um problema, ou mesmo um limitador. Como já explicamos diversas vezes, a qualidade de som tem pouco (ou nada) a ver com o conector. Também não é pela praticidade, já que o iPhone 7 tem, na verdade, menos opções do que os modelos anteriores. Praticidade é você poder escolher o modelo que bem desejar, ou seja, esse modelo novo é menos prático do que o anterior. Por que a Apple fez isso, mesmo? E o qual será o efeito em cascata no mercado?

Juntando o fato de que a Apple não acerta sempre (assim como nenhuma empresa) que exploramos na primeira parte com o fato de que não há necessidade nenhuma de remover o conector de áudio – sob um ponto de visto tecnológico – já temos informações suficientes para começarmos a responder isso na terceira parte.

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