Galaxy S4 e iPhone 5: mais evolução que revolução. Afinal, o que o mercado quer?

Por Luciana Zaramela

No ano passado, a Apple tentou surpreender seus clientes, analistas e jornalistas com o lançamento do iPhone 5, que causou, à primeira vista, uma reação morna no público em geral. Ontem (14), a Samsung apresentou ao mundo seu Galaxy S4, que apesar de contar com várias novas características, continuou muito parecido com o Galaxy S3. Fato é: as companhias têm encontrado cada vez mais dificuldades para superar as expectativas do mercado. Mas, afinal, o que o mercado quer? Existe uma linha tênue entre inovação e revolução? As empresas estão perdendo criatividade ou deixaram as pessoas mal acostumadas?

Depois de tanto suspense, teasers na mídia e um evento todo pomposo, o lançamento do Galaxy S4, tão esperado pelo público tech, revelou um smartphone moderno, bonito, leve, fino, com uma tela maior (5") e com grande resolução (441 ppi), suporte a tecnologias LTE do mundo todo, Wi-Fi, Bluetooth 4.0, uma câmera de 13 megapixels inovadora, duas versões de processadores, sistemas reconhecedores de gestos e olhares, tradutor instantâneo e um grande defeito: nenhuma alteração visual de causar impacto. Como dizem as más línguas, poderia ser um Galaxy 3S: o mesmo smartphone, com uns extras atraentes.

A Samsung apostou em um aparelho que chegasse ao topo de sua linha com estilo. E para estar no topo da linha de qualquer fabricante, o dispositivo tem a obrigação de arrancar suspiros dos usuários e causar inveja nos concorrentes. Essa é a ideia por trás do Galaxy S4, mas as pressões competitivas do mercado acabaram fazendo com que a empresa sul-coreana sucumbisse, assim como a Apple, sua principal concorrente, ao lançamento de um smartphone que mais parece ter sido a ligeira evolução de seu antecessor do que algo realmente revolucionário.

No entanto, se abrirmos um bom parâmetro de comparação, podemos entender o lado da Samsung: a Apple lançou seu iPhone 5 no ano passado e a recepção inicial não foi nada extraordinária. O aparelho trouxe praticamente o mesmo design de seu antecessor, com algumas alterações em termos de software e hardware, e mesmo assim conseguiu ultrapassar o concorrente (o então todo-poderoso Galaxy S3) em vendas e se tornou o best-seller do mundo dos smartphones no final do ano passado. Ponto para a Apple, que conseguiu lançar um smartphone (muito) pouco inovador e, mesmo assim, gerou buzz suficiente para conquistar a simpatia dos applemaníacos e demais usuários comuns. Apesar de tudo, a Maçã ainda continua sendo criticada pelo seu dispositivo, o que manchou, de certa forma, sua reputação de empresa mais inovadora do mundo.

Poderia o mesmo acontecer com a Samsung? Claro que sim, e nas mesmas proporções. Sendo o mercado imprevisível, mesmo com apostas de analistas, a empresa poderia virar mais uma vez o placar e ultrapassar sua principal rival até que iniciem as vendas do próximo iPhone. A Samsung não inseriu recursos revolucionários no Galaxy S4 (entenda por recursos revolucionários aqueles que realmente fariam a diferença na vida do usuário, e não certos "caprichos" relacionados a uma câmera fotográfica que tira 100 fotos em 4 segundos ou um leitor de gestos – afinal, muitos hão de concordar que gestos fazem muito sentido quando o aparelho em questão é uma Smart TV. Mas, um smartphone justificaria tal tecnologia? Qual a aplicabilidade? Qual o aspecto revolucionário, uma vez que é um dispositivo manual?).

O que o mercado quer não são impressionantes recursos de gestos ou câmeras poderosíssimas. O mercado quer ser surpreendido, não ludibriado. Por exemplo: o fator design sempre foi algo que fez brilhar os olhos do público – dos desavisados aos especialistas. Apple e Samsung parecem ter dormido no ponto e não entenderam a jogada do design: lançaram smartphones que mais parecem irmãos crescidos de seus antecessores. O fator status pesa para o consumidor. Tirar do bolso um smartphone de última geração para ser confundido com um aparelho que já está ultrapassado deixa muita gente com o pé atrás. A necessidade de mostrar status é, infelizmente (ou felizmente, se as empresas souberem explorar melhor esse aspecto), algo inerte ao Homo sapiens sapiens apaixonado por tecnologia. Para esse tipo de público, o pior balde de água fria é colocar um iPhone 5 ou um Galaxy S4 na mesa do bar e não ser questionado por ninguém, como se aquele dispositivo fosse um smartphone qualquer. Afinal, de longe, a diferença entre os modelos e seus antecessores é quase imperceptível.

Para todos os efeitos, uma impressão ficou no ar: parece que o sistema de inovação da Samsung começou a perder forças e pode ser o primeiro sinal de fracasso que envolve as gerações de sucessores da linha Galaxy S. Quem comprar o Galaxy S4 pode não se sentir atraído quando o Galaxy S5 for lançado no mercado, assim como ocorre com quem já comprou o iPhone 5. Será que, seguindo as tendências, o iPhone 5S irá justificar a troca? Uma coisa é certa: as pessoas tendem a comprar novos dispositivos pelo burburinho gerado a respeito do que há de mais novo no mercado. Mas até quando aquilo que existir de mais novo no mercado será mesmo inovador e justificará a troca?

Estamos mal acostumados? Está faltando criatividade? Somos exigentes demais? A culpa é das empresas? Neste caso, não há um culpado específico. A culpa não é do mercado, que quer sempre mais, visto que as empresas fizeram um papel revolucionário até aqui, trazendo facilidades e inovações em seus smartphones. As companhias se depararam com um ponto de saturação: o que inserir no dispositivo? Como chamar a atenção do público? Que tecnologia avassaladora poderia deixar qualquer concorrente de queixo caído? Como será o smartphone do futuro?

As empresas fizeram sua parte em incrementar sua linha de smartphones a ponto de conquistar fama e sucesso. Mas esqueceram-se de prever que, um dia, enfrentariam um período de estagnação criativa, natural de qualquer processo evolutivo. Telas flexíveis, evolução da tecnologia NFC, holografia, aparelhos ultrafinos e ultraleves, abuso do uso de vidro nos equipamentos podem ser as iscas geradoras de valor e interesse para a próxima geração, mas não farão com que os donos de aparelhos modernos sejam atraídos a ponto de realizar uma troca imediata.

No final do frigir dos ovos, a Samsung não precisa se preocupar tanto com a tendência do mercado de smartphones quanto a Apple. A sul-coreana possui um enorme catálogo de produtos, que vai de componentes eletrônicos a eletrodomésticos. Já a linha tão especializada da Apple se concentra apenas em computadores, periféricos e gadgets, sendo a divisão de smartphones o carro-chefe da empresa. Nesse aspecto, o desafio é maior para a Maçã: criar, inovar e surpreender, se quiser sobreviver e não perder de vez a liderança no mercado de ações e o posto de marca mais 'cool' do mercado.

Fica cômodo cobrarmos das empresas mais inovação, produtos extraordinários e questionarmos: "e agora, Samsung?" ou "e agora, Apple?". Queremos sempre mais, sem nem saber o quê. Talvez este seja o ponto que marca a inversão de papéis. Chegou a hora de as empresas avaliarem sua situação perante o desejo dos clientes.

E agora, mercado?