Série brasileira Chuteira Preta mostra o que está por trás do mundo da bola

Por Sihan Felix | 03 de Agosto de 2019 às 12h45

Um jogador de futebol habilidoso e premiado já não consegue mais ter o bom desempenho técnico que o consagrou e sua vida pessoal chama mais atenção do que a atividade em campo. Por mais que isso remeta a tantas atuais ou já interrompidas carreiras no esporte, a série Chuteira Preta (disponível no canal por assinatura Prime Box Brazil) faz questão de ressaltar, durante a abertura de cada episódio, que não é baseada em fatos reais.

É uma provocação curiosa, porque uma produção fundamentada em acontecimentos reais carrega o peso da urgência, uma espécie de déjà vu. Como algo que é visto e revisto no esporte mais popular de um povo pode ser uma ficção? Se a realidade permite que a obra chegue mais intensa aos espectadores, por que negá-la? A provocação, então, assume conscientemente um caráter não só provocativo, mas analítico mesmo, quando complementa: "Por mais evidentes que [os fatos] possam parecer."

Kadu (Márcio Kieling) e Jair (Nuno Leal Maia): uma dupla à la Daniel San e Sr. Miyagi

A série, que teve sua estreia no último dia 13 de julho (2019), abre discussão sobre os elementos obscuros que habitam o submundo do futebol. Os impactos vão desde declínio precoce de carreiras promissoras a prejuízos financeiros milionários ao esporte. A direção é de Paulo Nascimento, dos ótimos Valsa para Bruno Stein, Em Teu Nome e A Casa Verde (2007, 2009 e 2010 respectivamente), que gentilmente cedeu ao Canaltech uma entrevista sobre Chuteira Preta e, como não era possível separar, sobre a realidade do esporte no nosso país.

Durante os episódios, é possível perceber questionamentos de uma pessoa que dificilmente consegue separar o que normalmente se vê daquilo que de fato acontece: o futebol intermediado por questões políticas, religiosas, por corrupção e injustiças. Nascimento, que também é o criador da série, conversou com ex-jogadores, técnicos e empresários, e, em meio a essas, colheu revelações que, trabalhadas dentro da ficção, podem ser surpreendentes (tanto quanto a realidade).

Ele (Nascimento) revela que não pretende, com esse trabalho, compreender a paixão pelo futebol. "A paixão foi e deverá continuar existindo, porque (como toda paixão) ela é inexplicável. Até hoje não sei por que passo frio para ver um jogo ao vivo que está passando na TV, mas também não me preocupo em entender". De fato, como ainda ressalta o diretor, "há muito mais do que se imagina por trás do mundo da bola".

De qualquer forma, não são os bastidores que vão modificar o que o torcedor sente pelo futebol. Se há algo contaminado, é justamente isso que deve ser combatido e não o esporte em si. Chuteira Preta tem uma pegada de inovação de tema, como ressalta Nascimento, e não tem medo de mexer em qualquer vespeiro: "Não contamos uma história do lado B do futebol, mas do lado B da vida."

Em uma época de descrença na política, de crescente intolerância religiosa, de alguns extremismos, Nascimento traz um bocado de coragem em seu trabalho. Sempre muito sóbrio, comentando inclusive que, no nosso mundo, "há um domínio, seja pelo dinheiro, pela religião, pela pressão...", mas que, especialmente, "há um domínio do psicológico de jovens que têm que entreter multidões e não foram preparados pra isso". O criador da série nos revela que no set de filmagem a equipe se divertia ao perceber os seus pensamentos sendo falados pela personagem de Nuno Leal Maia, o Jair. Por mais que não tenha sido intencional – como ele nos disse –, é de se esperar que uma obra carregue muito do seu autor.

Nuno Leal Maia (o Jair) em cena

Sobre a proximidade com a obra, a arte imitando a vida, Nascimento traz alguns questionamentos que são quase retóricos:

"Quem se sente seguro em alguma coisa e algum lugar? Quem gostaria de retomar o rumo de alguma coisa? A angústia sempre fez parte da humanidade, mas os últimos tempos a trouxeram para o centro de nossas vidas."

São nessas perguntas que reside o psicológico do protagonista, o Kadu (interpretado por Márcio Kieling); as mesmas questões que podem causar uma grande identificação com o público. Há um momento na série, inclusive, que Kadu diz: "Só quem tá na pele desse universo sabe o que tá sentido de verdade".

Márcio Kieling (o Kadu) em cena

Isso é tão abrangente quanto possível e acaba por desaguar no já dito vespeiro: a intersecção entre futebol, política e religião. Se é fácil escutar por aí que esses três elementos não devem ser discutidos, Chuteira Preta mistura tudo de uma maneira bastante uniforme. Para o diretor, "política, religião e futebol andam de mãos dadas. Muito mais do que se pensa. Talvez por isso alguém inventou a frase [política futebol e religião não se discutem], pra se proteger."

Permanecendo em meio aos assuntos necessários, é possível que seja uma verdade incontestável (e inconveniente) que, no Brasil, o futebol ainda permaneça sendo visto como um esporte muito masculino. Mas é igualmente verdade que a recente Copa do Mundo de Futebol Feminino elevou o nível desse debate. Sobre esse tema, Nascimento concorda – com uma pitada do melhor otimismo – que "não é fácil para as mulheres nesse ambiente, mas elas estão mostrando uma garra e uma magia (ao jogar) que vai ter um espaço gigantesco em pouco tempo."

O diretor ainda diz que pretende tratar desse outro vespeiro durante a segunda temporada e afirma que as mulheres nessa temporada (a primeira) partem do princípio de uma necessidade de sobrevivência, uma força pra enfrentar uma realidade às vezes cruel: "Isso é a mulher de hoje que queremos retratar."

Sobre o batizado da produção, questionamos Paulo: No momento que tivemos conhecimento do título, apostamos que a questão das chuteiras coloridas dos jogadores estrelas contemporâneos iria ser posta em xeque. Até que ponto você acredita que a vaidade de um jogador e o patrocínio que ele carrega influenciam em seu desempenho dentro de campo? Isso toma forma dentro da série em algum momento?

Ele respondeu com o que talvez seja a deixa para que, de fato, Chuteira Preta mereça ser ao menos iniciada: "A chuteira preta é a raiz, a emoção em seu estado natural. As chuteiras com tecnologia, cores... de hoje podem ser confortáveis, mas não fazem alguém dar o sangue em uma partida. Isso está em cada um e talvez esteja faltando mais chuteiras pretas, sem patrocínio, sem charme, mas pisando no campo e correndo com a alma, como o torcedor espera."

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