HQ x TV: A caminhada de The Walking Dead entre adaptação e originalidade

Por Gustavo Rodrigues | 24 de Fevereiro de 2016 às 17h02

Desde o início da primeira temporada da série, The Walking Dead tem caminhado entre manter-se fiel aos quadrinhos de Robert Kirkman e introduzir personagens ou situações originais aos telespectadores. O sexto ano é um dos maiores exemplos disso, seja ao brincar com a expectativa da morte de alguém querido pelo público ou no enquadramento usado ao recriar com excelência uma cena das HQs.

CUIDADO - SPOILER ALERT: o texto abaixo pode contar spoilers caso você não esteja com leitura e episódios de The Walking Dead em dia.

Uma das principais características da obra original são as cenas de violência gráfica, algo que o canal AMC ainda não mostrou com o mesmo peso. Esta escolha é bastante compreensível se levarmos em consideração que estupro, tiros atingindo bebê e crianças decapitadas teriam que ir ao ar, o que poderia chocar e até afastar alguns telespectadores. Em compensação, é muito mais atrativo assistir aos ataques vorazes dos zumbis pela televisão do que nas páginas em preto e branco. Toda a tensão e o medo que são apáticos no papel ganham intensidade e repulsa nos efeitos visuais e maquiagem da produção.

Essa diferença entre narrativas permite à série televisiva momentos de adrenalina raros, mas muito mais explosivos do que o leitor está acostumado. Entretanto, as várias conversas que o elemento dramático precisa não agradam ao grande público. Além disso, limitar personagens requer mais gastos com efeitos especiais, como houve após o Hershel (Scott Wilson) perder a perna, algo que ainda é um problema pequeno para um personagem com poucas cenas de ação. Por exemplo, a perda da mão de Rick (Andrew Lincoln) nos quadrinhos seria um grande problema para TV, o que torna a decisão de mantê-la muito mais coerente do que ser fiel ao pé da letra.

Carol TWD

Entretanto, nada é tão gritante na adaptação do que alteração e criação de alguns personagens. Um dos maiores sucessos da série é o Daryl (Norman Reedus), algo totalmente original na produção da AMC. Este é um exemplo de acréscimo positivo, o oposto do que houve com o Governador (David Morrissey). O vilão teve tanto personalidade quanto momentos impactantes minimizados drasticamente, o que o tornou nada grandioso. Entretanto, nada mudou tanto quanto Carol (Melissa McBride). Enquanto nos quadrinhos ela prefere o suicídio ao sentir-se abandonada, na telinha é a melhor sobrevivente até o momento. Era vítima do próprio marido, viu a filha transformar-se em errante, tomou medidas drásticas para proteger o grupo e até teve que assassinar uma criança. Ninguém evoluiu tanto durante as seis temporadas.

O sexto ano tem sido o maior período repleto de fan service. A sequência de mortes de Jessie (Alexandra Breckenridge) e seus filhos, seguido da perda do olho do Carl (Chandler Riggs), é uma das adaptações mais fiéis, inclusive no massacre posterior aos zumbis. A troca de câmera entre os personagens atacando a horda torna tudo mais próximo à narrativa de 9 quadros de uma página de HQ. Entretanto, isso também pode se tornar um recurso negativo, como a expectativa gerada com o destino de Glenn durante vários episódios. Além do personagem ser querido, sabemos que ele morre nas HQs pelas mãos do Negan, vilão que será interpretado por Jeffrey Dean Morgan e aparecerá em breve, assim criando um suspense desnecessário e mal conduzido.

Negan

Especulando a chegada de Negan

O pouco que deu para ver dos comandados de Negan, conhecidos como Salvadores nas HQs, é que eles não estão para brincadeira. Nos quadrinhos, ele decide matar um personagem aleatório do grupo de Rick para compensar a morte de aliados dele. Glenn é o azarado escolhido. Se toda a situação se repetir, a cena mais pesada dos quadrinhos vai acontecer. Entretanto, apostaria na morte do predileto do público: Daryl.

Leve em conta que o personagem explodiu os salvadores no começo da midseason premiere, algo que poderia ter sido visto por alguém ou uma relação que qualquer um poderia fazer ao ver tal arma explosiva em posse de Daryl. Outro ponto a considerar é que o recentemente apresentado Jesus (Tom Payne) pode preencher a lacuna de cenas badass com facilidade. Entretanto, isto é apenas uma aposta que eu realmente considero coerente. O bastão Lucille vai ser mortal, só não sabemos a vítima.

Entre altos e baixos na trama, The Walking Dead consegue entregar bons episódios para quem gosta dos quadrinhos e aos fãs exclusivos da série televisiva, mesmo que precise mudar alguns pontos importantes na obra original. Para quem prefere deixar as HQs intocáveis, o spin off Fear The Walking Dead pode ser a melhor experiência.

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