Game of Thrones se aproxima do fim com temporada épica, mas narrativa apressada

Por Gustavo Rodrigues | 27.06.2016 às 21:38

Game of Thrones caminhou por terras desconhecidas em sua sexta temporada ao adentar em histórias supostamente ainda não contadas nos livros de As Crônicas de Gelo e Fogo, escritos por George R. R. Martin. Por isso, a produção precisava conduzir os episódios de uma forma que os leitores, que não acompanham o programa, mantivessem o interesse. Para isso, a volta da série serviu como um grande passeio por núcleos diferentes e direcionando o que ocorreria no sexto ano. Mesmo assim, não enrolou para resolver as grandes questões que estavam pendentes, principalmente ao dar enfoque em personagens específicos.

SPOILER ALERT: O texto abaixo contém spoilers da sexta temporada de Game of Thrones.

A temporada tinha um grande problema a resolver logo em seu início: o destino de Jon Snow (Kit Harington). Como o personagem havia sido assassinado pela Patrulha da Noite na season finale do ano 5, mas havia a certeza dos fãs que ele retornaria ao mundo dos vivos, nenhuma indagação chamaria tanta atenção, tanto que o final do episódio 1 foi pouco aproveitado no decorrer da trama. Com o jovem Stark ressuscitado por Melisandre (Clarice van Houten) rapidamente, a narrativa pode desenvolver ainda mais o futuro Rei do Norte e sua relação com os aliados, principalmente como um líder que une povos ao ter selvagens ao lado daqueles que outrora eram inimigos.

Outros Stark também tiveram mais destaque. Bran (Isaac Hempstead Wright) ganhou importância ao revelar segredos com suas visões, assim revelando trechos do passado de Ned Stark e assumindo o posto de Corvo de Três Olhos, rendendo um dos momentos mais dramáticos de toda a série ao descobrimos a origem do apelido de Hodor (Kristian Nairn).

Entretanto, é o lado feminino da família Stark que teve grande evolução nesta sexta temporada. Sansa (Sophie Turner) saiu definitivamente das garras de Ramsay Bolton (Iwan Rheon), perdeu parte da inocência, vingou-se e ainda mostrou-se uma excelente peça na Batalha dos Bastardos, mesmo que tenha escondido algo que poderia salvar parte dos homens que lutaram ao lado de seu irmão. Enquanto isso, Arya (Maisie Williams) teve um desenvolvimento lento na cidade de Braavos, mas que só melhorou ao passar dos episódios, apesar dos deslizes na transformação da personalidade da jovem assassina.

Jon Snow

Com esses enfoques, a série ainda trabalhou bem os outros núcleos de Game of Thrones, mesmo que com menos espaço do que os Stark receberam. Os problemas monárquicos em Porto Real cresceram em escala conforme o Alto Pardal (Jonathan Pryce) dominou a região com os dogmas da Fé dos Sete, entrando em confronto direto com a ambiciosa e vingativa Cersei Lannister (Lena Headey), gerando um confronto explosivo pelo controle do trono.

Daenerys (Emilia Clarke) mostrou mais do que nunca sua força como conquistadora. Quando se pensava que a Rainha dos Dragões estava em uma situação de inferioridade, ela elevou seu poder ao não deixar que nenhum homem a comandasse. Ao mesmo tempo os coadjuvantes próximos a ela cresciam em suas propostas. Tyrion (Peter Dinklage) articulava planos de paz para Meereen, Daario (Michiel Huismann) compreendeu quem é sua amada e Jorah (Ian Glen) obteve uma missão de vida ou morte.

Game of Thrones

Apesar de seus acertos, Game of Thrones peca em sua narrativa apressada. Ao tentar contar uma história que precisa de um desenvolvimento mais profundo para a evolução de seus personagens, as motivações acabam se perdendo, alguns núcleos não têm tempo de tela suficiente para as grandes consequências que são mostradas no desfecho do sexto ano. Davos (Liam Cunningham) tem uma mudança de perspectiva para Melisandre no início que não condiz com a dor da morte de Shireen, mas volta a considerá-la desprezível no desfecho; Arya tem alternâncias nas atitudes que não são coerentes com os ensinamentos que ela teve em Braavos; as matanças ou ausências incoerentes dos lobos apenas para diminuir os custos do orçamento; Varys (Conleth Hill) aparecendo em locais distantes no mesmo episódio e cliffhangers que não são desenvolvidos depois de apresentados, como o que foi visto em The Red Woman. Dez episódios não foram suficientes para contar a história com a profundidade que ela merecia, assim deixando alguns furos.

Mesmo com problemas narrativos, é inegável que grandes cenas da série estão nesta temporada. Todo o confronto épico na Batalha dos Bastardos é um dos maiores feitos da atualidade para uma produção televisiva, principalmente quando o próprio canal precisa diminuir os custos em CGI com outros recursos. Os atores mantiveram as ótimas performances, mas quem chama atenção, mesmo com poucas cenas, é a jovem Lyanna Mormont, interpretada por Bella Ramsey, convincente a cada palavra que usa para defender os ideais de sua casa.

Game of Thrones

Game of Thrones caminha para o final agora que o inverno definitivamente chegou e que o grande confronto entre os núcleos da série está mais próximo do que nunca. Entretanto, os produtores executivos David Benioff e D.B. Weiss precisam dar conta de uma narrativa que não perca a grandiosidade necessária para os últimos anos da adaptação televisiva e que não deixe a profundidade das obras de George R. R. Martin de lado.