Crítica | F1: Dirigir Para Viver mostra a tensão por trás do circo

Por Felipe Demartini | 15 de Março de 2019 às 10h02
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“O que será que está passando na cabeça dele neste momento?” A célebre e muitas vezes rechaçada pergunta feita pelo narrador Galvão Bueno em tantas corridas de Fórmula 1 ganhou, finalmente, uma resposta aproximada. Em F1: Dirigir Para Viver, série documental em 10 episódios que estreou recentemente na Netflix, a nossa viagem não é tanto a bordo dos carros, mas sim pelos corredores do padoque, por dentro das fábricas e, principalmente, na parte interna dos capacetes.

Não que a corrida não seja o foco aqui, afinal estamos falando de uma série baseada no universo da Fórmula 1. Mas, ao abordar o famoso circo da modalidade mais rápida do mundo, a escolha dos produtores foi de contar histórias pessoais dos pilotos e dos dirigentes das equipes. O resultado é o desenho de uma competição íntima e pessoal, bem diferente dos combates motorizados que vemos aos domingos na televisão.

As histórias se desenrolam ao longo da temporada 2018 da competição, mas não como um resumo do que aconteceu. Os resultados e campeões das corridas, aqui, importam menos do que os bastidores, as tensões e, principalmente, as pressões em cima dos envolvidos no esporte. E essas batalhas são tão interessantes, se não mais, do que aquelas que são travadas nos circuitos. E, com toda certeza, muito mais dramáticas.

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Gigantes pela própria natureza

Ao criar F1: Dirigir Para Viver, o produtor James Gay-Rees (o mesmo do incrível documentário Senna, que conta a história da vida e do legado de nosso campeão) teve uma parceria importante. Ele trabalhou lado a lado com a Liberty Media, dona da Fórmula 1, para ter acesso, contatos e imagens oficiais belíssimas. Entretanto, esse mesmo apoio não foi dado pelas duas maiores escuderias do certame, a Ferrari e a Mercedes.

As rivalidades mostradas em F1: Dirigir Para Viver vão muito além da busca pelo título mundial (Imagem: Divulgação/Formula 1)

A ausência das duas principais equipes, justamente aquelas que mais lutam diretamente pelo título, serve como uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que os torcedores das casas e os amantes do esporte sentirão a falta dos campeões e seus carros de ponta, o seriado se sustenta de maneira quase brilhante sem eles. Afinal de contas, por trás das locomotivas que puxam o trem de todos os domingos, há grandes competições acontecendo, mas elas também se mostram recheadas de incertezas, pressões e, principalmente, frustração.

Temos, por exemplo, a tensa saga de uma companhia consagrada como a Red Bull, que há alguns anos não está na disputa pelo título, ou a triste derrocada da McLaren, que, de uma das maiores escuderias do mundo, se tornou uma das últimas. Vemos Daniel Ricciardo lutando para se provar e conseguir um contrato, sem saber exatamente para onde vai, mas confiando nas próprias habilidades, e a mesma situação enfrentada por Romain Grosjean, que não apenas se vê na incerteza sobre sua continuidade nas pistas, mas também luta contra os demônios internos que insistem em fazê-lo pensar que, talvez, ele não seja digno do assento que ocupa.

Muitas das histórias são romanceadas, é claro, e um espectador mais cético pode notar que certas rivalidades ou discussões são exacerbadas. Há realidade em absolutamente tudo o que é mostrado no seriado, entretanto, uma vez que as batalhas pelo pódio e pelo título mundial não são as únicas ocorrendo. Muito pelo contrário, há coisa até demais acontecendo mesmo quando as equipes sabem não terem a menor condição de concorrerem com as flechas prateadas ou os cavalinhos vermelhos.

Conflitos de bastidores e o aspecto mercadológico também são temas de episódios de F1: Dirigir para Viver (Imagem: Divulgação/Netflix)

Por outro lado, esse aspecto narrativo contribui para uma sensação que é incrível quando falamos em um documentário sobre esporte. Quem acompanha a Fórmula 1 já sabe quem conseguiu contrato ou não e o estado em que as equipes estão após o fim da temporada passada e os testes de inverno. Ainda assim, é preciso ter um coração muito peludo para não se ver torcendo, por exemplo, pelo novato Esteban Ocon. Mesmo sabendo como essa história terminou de antemão, é difícil não ser impactado pela história do novato habilidoso que luta contra a mão implacável do dinheiro e de um patrocínio que, ele próprio, não possui.

O mesmo vale, por exemplo, para a saga da Force India e seu tortuoso processo de reestruturação. Sabemos das acusações que pesam sobre seu fundador e, novamente, como tudo terminou. As cenas na fábrica durante o anúncio da recuperação judicial, ainda assim, são de cortar o coração, assim como a história menor de um engenheiro novato que joga fora o possível bom desempenho de toda uma equipe após cometer o “simples” ato falho de não apertar direito um parafuso.

Ao mesmo tempo, existem certos exageros, como quando Ocon e seu companheiro, Sergio Pérez, são colocados quase como adversários e inimigos. Há uma construção de tensão esquisita nas relações entre Red Bull e Renault, que resulta na quebra do contrato de fornecimento de motores entre elas, assim como certos fatores acabam sendo deixados meio de lado em prol da dramaticidade. Grosjean passa por uma maré de azar e se questiona, sim, mas o carro da Haas que ele pilota também não ajuda muito.

A luta da McLaren para retornar à velha glória e não perder Fernando Alonso é tema de alguns episódios de F1: Dirigir para Viver (Imagem: Divulgação/Formula 1)

F1: Dirigir Para Viver acerta mais do que erra, entretanto, e chega a ser surpreendente que uma série com apoio oficial da Fórmula 1 acabe se focando tanto no aspecto mercadológico da coisa. Como dito, há mais de um episódio focado no dinheiro e diferentes avaliações sobre até que ponto a habilidade importa mais nesse esporte do que um bom financiamento. O tom narrativo e dramático evidencia essas questões, apesar de, como dito, fazer com que certos personagens dessa história acabem soando como os vilões.

Da mesma forma, falta também um olhar sobre o funcionamento da estrutura em si. A Fórmula 1 não é feita apenas de pilotos e escuderias, mas também do pessoal dos circuitos, juízes e diretores de prova, entre outros. Eles são os responsáveis por tudo e, com toda certeza, também sofrem pressão e cobrança. A beleza dos registros também poderia servir como um memorial de Charlie Whiting, o lendário dirigente que faleceu nesta semana e é uma das personalidades mais reconhecidas deste circo.

Foco nas histórias pessoais, e não um resumo da temporada, é marca de F1: Dirigir Para Viver (Imagem: Divulgação/Formula 1)

Sendo assim, é importante deixar claro que o seriado da Netflix não é um documento definitivo sobre o esporte ou nem mesmo sobre a temporada 2018 da Fórmula 1. Ele é um recorte incrivelmente interessante de situações e um mergulho em aspectos que normalmente não vemos sendo abordados nem mesmo em entrevistas com pilotos ou nas análises dos mais renomados comentarias da televisão mundial.

O maior acerto de F1: Dirigir Para Viver é mostrar que, por trás dos motores, fuselagens coloridas, acordos de publicidade e patrocínios, existem seres humanos de carne e osso. Eles sangram, choram e se dedicam pelo esporte, não apenas para fazerem valer sua presença entre os 20 melhores do mundo, mas também para provarem seu valor, seja a quem for. Muitas vezes, o maior rival não está na escuderia à frente ou atrás, mas dentro deles mesmos. E é essa a grande história contada aqui no final das contas.

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