Traficantes usam aplicativos de paquera para vender drogas em São Paulo

Por Redação | 15 de Fevereiro de 2017 às 10h10
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Os traficantes de drogas têm surpreendido a polícia civil com seus métodos cada vez mais criativos de vender entorpecentes. Atualmente, eles têm se aproveitado de aplicativos de paquera para comercializar drogas em áreas de São Paulo cercadas por bares e boates.

Por meio de perfis facilmente identificáveis nos apps, os traficantes oferecem drogas como cocaína, GHB (espécie de ecstasy líquido), metanfetamina e ecstasy. A negociação acontece de forma virtual, e a droga é entregue no local em que o cliente está ou até na residência do traficante.

O Grindr e o Hornet, ambos voltados para o público masculino homossexual, são os apps mais usados para a negociação das substâncias. As vantagens destes aplicativos são a geolocalização e a ausência do uso de qualquer filtro de pesquisa - eles mostram qualquer pessoa que esteja perto, sem delimitar idade ou preferências. O Grindr, por exemplo, ainda faz a seleção de acordo com a distância menor, o que facilita a negociação da droga - quanto mais perto está o cliente, mais fácil é a entrega.

Outra característica destes apps que facilita a vida do traficante é que, para fazer o registro neles, não são usadas formas de identificar a veracidade do usuário, como o login. Por isso qualquer pessoa, seja homossexual ou heterossexual, pode se registrar. Há relatos de que há traficantes heterossexuais usando a plataforma apenas para a venda de substâncias ilícitas.

O primeiro contato ocorre dentro do aplicativo, e muitos levam a conversa para o WhatsApp, onde há criptografia para a proteção de dados. "É tudo direto e muito rápido, sem papo. Você pergunta 'quanto?', combina de se encontrar e pronto", explicou ao UOL L., que compra drogas por meio do Grindr. "Recebi até foto da droga pelo app mesmo, para ver se era o que eu queria", relata.

Em nota, Sean Howell, presidente da empresa que administra o Hornet, disse não acreditar que o aplicativo seja usado por pessoas que tenham o interesse único de vender drogas. "Todas as fotos públicas de um perfil passam por moderação. Pessoas vendendo drogas (ou qualquer item) costumam fazer o upload das imagens do que vendem. Quando o moderador vê uma imagem de droga (ou de objetos usados para produção e consumo), o perfil é imediatamente suspenso", explica.

Procurada pelo UOL, a empresa responsável pelo Grindr não se pronunciou.

Punição

De acordo com o Marco Civil da Internet, as empresas proprietárias dos aplicativos não podem ser responsabilizadas pelas irregularidades promovidas por terceiros. E ainda que o crime seja executado em parte no meio virtual, o tratamento é o mesmo do mundo "offline", ou seja, quem vende a droga por um app será enquadrado na lei de tráfico de drogas. A lei 11.343, de 2006, que é conhecida como Lei Antidrogas, tem pena prevista de cinco a 15 anos de prisão.

"Existe uma dificuldade muito grande quando se fala de investigação em determinados aplicativos. A grande maioria deles está hospedada no exterior e pode levar anos para conseguir a liberação, por meio de autorização judicial, das conversas trocadas em aplicativos", ressalta o promotor de Justiça Frederico Meinberg Ceroy, presidente do Instituto Brasileiro de Direito Digital.

Segundo ele, o usuário de drogas também está cometendo um crime, mas que não é punido com a prisão. A pena prevista é a advertência sobre os efeitos das drogas, a prestação de serviços à comunidade e o comparecimento a programas ou cursos educativos.

Em nota, a Polícia Civil informou que monitora sites e aplicativos em investigações contra crimes como o tráfico de drogas e, nos casos em que as bases de dados das empresas ficam em outros países, a Interpol é envolvida. Consultada pela reportagem, a SSP (Secretária de Segurança Pública) informou que não tem informações sobre a abertura de investigações envolvendo o uso de apps para venda de drogas.

Fonte: UOL