Integração entre WhatsApp e Facebook desaponta, mas não surpreende

Por Douglas Ciriaco | 29.08.2016 às 19:19

O ano de 2016 foi um marco na luta do WhatsApp pela privacidade de seus usuários. No Brasil e nos Estados Unidos, a empresa foi convocada a colaborar com a Justiça em investigações criminais — basicamente, tanto aqui como lá a intenção das autoridades era que a empresa fornecesse acesso a mensagens trocadas entre suspeitos —, mas em ambos os casos alegou que isso era impossível graças ao seu sistema de criptografia.

Contudo, o que parecia ser um bastião de privacidade acabou se revelando apenas mais uma estratégia de negócio, o que era absolutamente óbvio. Na última semana, o WhatsApp anunciou a primeira atualização da sua política de uso e privacidade desde que foi vendido para o Facebook, em fevereiro de 2014, e afirmou que compartilhará algumas de suas informações com a rede social.

Apesar da reação negativa de muita gente, não dá para dizer que fomos surpreendidos com isso. A surpresa, para nós, foi a demora em isso ser publicamente anunciado, afinal a tônica geral do Facebook é justamente essa — e houve inúmeras suspeitas lá no começo de 2014 que a rede social estava fazendo um grande negócio ao investir US$ 19 bilhões no WhatsApp justamente pelo enorme potencial de mineração de dados do mensageiro.

O WhatsApp é o aplicativo mais popular do gênero em todo o mundo, ultrapassando a marca de 1 bilhão de usuários mensais em fevereiro deste ano. Em fevereiro de 2014, quando foi vendido para o Facebook, o app criado por Jan Koum e Brian Acton já tinha 465 milhões de usuários mensais, ou seja, um valor considerável e que demonstrava o quanto os dados trocados por meio dele poderiam ser úteis para uma plataforma com alta capacidade de capitalizar as informações pessoais de seus usuários como o Facebook.

Da independência à colaboração

Entre fevereiro e março de 2014, tanto Jan Koum, cofundador e presidente do WhatsApp, quanto Mark Zuckerberg, fundador e presidente do Facebook, foram a público ressaltar que a aquisição da plataforma de mensagens não colocaria em risco a privacidade de seus usuários. Em um texto carregado de drama postado no blog oficial do WhatsApp, Koum relembrava a sua infância na antiga União Soviética (ele nasceu na Ucrânia) sob constante vigilância por parte da KGB, a polícia secreta da URSS.

“O respeito pela sua privacidade está codificado no nosso DNA, e nós desenvolvemos o WhatsApp ao redor deste objetivo de saber o quanto menos possível sobre você”, escrevia o executivo naquela época. “Se uma parceria com o Facebook significasse que teríamos que mudar os nossos valores, nós não a teríamos feito”, prosseguia de forma assertiva. Alguns dias antes, na postagem em que anunciava a venda para Zuckerberg, Koum garantia que “o WhatsApp continuará autônomo e operando independentemente”.

Agora, todo este discurso em favor da independência e da privacidade começa a cair por terra. Segundo o próprio WhatsApp, as suas mensagens ainda serão criptografadas e não serão algo de interceptação por quem quer que seja, mas os seus dados já não estarão tão protegidos assim. A posição oficial da empresa é de que apenas informações como número de telefone e tempo gasto no app serão compartilhados, tudo a fim de aperfeiçoar sistemas de segurança e “coordenar melhor e também implementar melhorias nas experiências entre os serviços nos próximos meses”, mas isso deixa todo mundo com uma pulga atrás da orelha.

Suspeitas confirmadas

O passo mais recente do Facebook apenas confirma suspeitas levantadas por muita gente lá em 2014, como é o caso de John Deakins, presidente da Citizenme, empresa responsável por um app que permite a você monitorar a sua identidade online. À época, ele concordava que a aquisição significaria provavelmente uma apropriação de dados pessoais ainda maior por parte do Facebook.

“Atualmente, o WhatsApp pode mudar os termos e condições de uso a qualquer momento, sem notificar os usuários, fazendo com que muitas pessoas que usam este serviço sequer sejam alertadas. Enquanto isso, o Facebook, já possui uma ampla licença de direitos autorais sobre conteúdo pessoal e já compartilha os seus dados com vários outros serviços”, comentou o executivo em conversa com o site The Inquirer.

“Agora, com o Facebook comprando o WhatsApp, poderemos ver ainda mais informações privadas se tornando parte da base de dados do Facebook. De um ponto de vista pessoal, isso é extremamente preocupante”, previa Deakins há dois anos e meio.

Facebook e Whatsapp

Se está no WhatsApp, está no Facebook. (Foto: Portal GDA/Flickr)

O analista de telecomunicações Eden Zoller, da Ovum, via justamente esta montanha de números de telefone como um dos grandes potenciais do WhatsApp. “Com esta aquisição, o Facebook ganha acesso ao enorme repositório de números de telefones do WhatsApp, algo que faltava na informação do usuário do Facebook”, comentou. “O acesso aos números agora liga os mundos online e offline dos usuários do Facebook.”

Ou seja, vários indícios levantados por alguns especialistas lá em 2014 agora se tornam fatos. O Facebook agora anuncia legalmente que terá acesso a informações que até então (e supostamente) estavam apenas sob o domínio do WhatsApp. O mais curioso aqui é que o discurso de que o WhatsApp operava como uma subsidiária independente dentro do Facebook também se torna balela, deixando bem claro o quanto as duas empresas têm a ver uma com a outra.

Só agora?

A ação diferente dos discursos realizados na época em que o negócio entre as duas companhias foi feito parece algo que apenas esperou a poeira abaixar para acontecer. A compra do WhatsApp pelo Facebook foi cercada de polêmica justamente pelo pouco apreço pela privacidade das informações de seus usuários por parte da empresa de Zuckerberg, o que deve ter levado a um adiamento.

Ao menos legalmente, os dados do mensageiro não eram compartilhados com a rede social, apesar de não ser tão incomum ver pessoas comentando sobre o surgimento de publicidade no Facebook relacionada a temas que trataram com alguém apenas no WhatsApp. Se isso é tema conspiratório ou apenas confusão de usuários distraídos não é possível cravar, mas é fato que finalmente os planos de Zuckerberg para o mensageiro mais popular do mundo finalmente vieram à tona.

É lógico que muitos dirão “é só parar de usar” para quem se incomodar com algo do tipo, mas uma análise um pouco mais cuidadosa é capaz de concluir que isso não é tão simples. Alcançar mais de 1 bilhão de usuários é um feito e tanto e significa que o WhatsApp se tornou parte da vida de basicamente qualquer pessoa que usa um smartphone, sendo inclusive uma ferramenta profissional para um bom número de pessoas.

Desautorizar o compartilhamento de dados é a coisa mais óbvia a ser feita, mas nada garante que isso deixará de ocorrer de fato. Olhar para alternativas, como o Viber e o Telegram, entre tantos outros, também pode ser uma boa saída — e talvez o apelo à privacidade e a segurança dos dados dos usuários seja algo cada vez mais primordial na hora de criar um diferencial para um novo mensageiro.

Independente do tipo de proteção que você vai escolher, o fato é que a internet tem se tornado um espaço cada vez mais restrito para a liberdade. O sonho de uma rede horizontalizada e democrática encontra inúmeras catracas nos grandes conglomerados de informação que se fortalecem a cada dia. A impressão é de que vivemos à beira de uma grande distopia digital.