Vacina da Pfizer pode ser adaptada para nova mutação da COVID-19; entenda

Vacina da Pfizer pode ser adaptada para nova mutação da COVID-19; entenda

Por Fidel Forato | 23 de Dezembro de 2020 às 16h00
Thirdman / Pexels

No combate à COVID-19, cientistas estão investigando a nova variante do coronavírus SARS-CoV-2, descoberta no Reino Unido, que é 70% mais transmissível. Para conter a chegada dessa mutação em outras partes do mundo, vários países suspenderam as viagens para o país, por exemplo. Agora, os responsáveis pela vacina da Pfizer contra o agente infecioso afirmam que, caso necessário, podem adaptar o imunizante para a nova cepa.

Identificada pela primeira vez no final de setembro, a mutação se espalhou, de forma acelerada, por todo o país e já foi registrada em outros países, como a Dinamarca e a Austrália. Mesmo que mais contagiosa, não existem evidências de a cepa que seja mais letal. Além disso, a variação — conhecida como SARS-CoV-2 VUI 202012/01 — não deve interferir na eficácia das vacinas atuais contra a COVID-19.

Vacina da Pfizer e da BioNTech pode ser adaptada apara a nova variante do coronavírus do Reino Unido (Imagem: Thirdman/ Pexels)

No entanto, a empresa de biotecnologia alemã BioNTech, parceria da farmacêutica Pfizer na vacina contra a COVID-19, explicou que poderia usar a tecnologia já desenvolvida para produzir uma nova vacina contra as últimas mutações do coronavírus em até seis semanas. Em paralelo, testes para verificar a eficácia da atual vacina são feitos com a nova variação.

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Vacina contra a COVID-19 adaptada

O fundador da empresa BioNTech, Ugur Sahin, entende que a atual vacina contra a COVID-19 ainda possa ser eficaz contra a nova variante do coronavírus. “Como cientista, você não é otimista, pensa nas probabilidades, e a probabilidade de que funcione é relativamente alta”, comenta. Para verificar se o imunizante ainda é viável e tem a mesma eficácia de 95%, o laboratório deve levar até duas semanas para concluir isso através de pesquisas.

Mesmo que tenham ocorrido várias mutações na nova variante, as principais partes do coronavírus não sofreram mutação, incluindo os locais que desencadeiam a resposta imunológica do organismo contra a COVID-19. “[Esse fato] nos deixa confiantes de que a resposta das células T [parte do sistema de defesa do corpo] ainda funcionará, mas precisamos fazer experimentos para quantificar o quão bem ela funciona”, pondera o fundador da BioNTech.

No entanto, o laboratório já conta com estratégias para o caso da eficácia não se comprovar. Isso porque o imunizante que adota a tecnologia inédita de RNA mensageiro (mRNA) para desencadear a imunização pode ser, facilmente, adaptado para outras variantes do agente infecioso. “A beleza da tecnologia de mRNA é que podemos começar a desenvolver diretamente uma vacina que imite completamente essa nova mutação, e poderemos fabricar uma nova vacina em seis semanas”, explica o fundador.

Vacinas de RNA mensageiro podem ser adaptadas para eventuais mutações do coronavírus (Imagem: Thirdman/ Pexels)

Para o desenvolvimento e produção dessa eventual nova formulação, a BioNTech demoraria cerca de seis semanas. Entretanto, caso necessária, a velocidade de lançamento dessa nova versão dependeria muito mais de quanto tempo as agências reguladoras levariam para autorizar a nova formulação.

Perigo das mutações do coronavírus

Para entender quais tipos de mutações poderiam afetar o desenvolvimento de vacinas contra a COVID-19, mais especificamente o imunizante da Pfizer e da BioNTech, o Canaltech conversou com a infectologista e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Raquel Silveira Bello Stucchi. “Neste momento, essa variação do vírus, ao que parece, não compromete as vacinas mais próximas de serem liberadas [no Brasil]", concorda a infectologista com a opinião recorrente sobre o tema.

No entanto, algumas mutações podem afetar, sim, a eficácia dos imunizantes contra a COVID-19, principalmente quando apresentam um elevado grau de variações do vírus original. “Um número de mutações muito grande, mudando toda a configuração genética da espícula do vírus [a proteína spike, que é o foco da maioria das fórmulas e que permite a infecção das células saudáveis], que é a matéria principal para a produção de anticorpos", explica Stucchi sobre situações que podem desafiar a eficácia das vacinas.

Nesses casos, a professora exemplifica com a relação entre uma chave a sua fechadura. Às vezes, a chave pode enroscar, mas ela ainda entra na fechadura, mesmo com dificuldade. "Agora, se a minha chave alterar muito a formação dela, eu não vou conseguir mais abrir a porta e precisaria de uma nova chave", ilustra. Num cenário de muitas mutações do coronavírus, “as vacinas que são feitas com mRNA, como as da Moderna e da Pfizer, têm a vantagem de serem adaptadas facilmente”, comenta a professora da Unicamp, já que o mRNA pode ser adaptado de acordo com a mutação, se isso for necessário um dia.

Outro ponto forte desse processo, é que esses imunizantes de mRNA não dependem do cultivo de novos vírus em laboratório, por exemplo, o que reduz de forma significativa o tempo necessário de desenvolvimento. Nesse aspecto, outras vacinas, como a CoronaVac, levariam mais tempo em sua reformulação, já que utilizam fragmentos do coronavírus inativados (quando o vírus está "morto"). Dessa forma, seria necessário um novo cultivo dos vírus.

Fonte: Financial Times e OMS   

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