Tipo Pac-man | Conheça organismos que podem ter uma dieta à base de vírus

Por Fidel Forato | 12 de Outubro de 2020 às 17h00
Corrode2k/ Pixabay

Já podemos adiantar que, provavelmente, a palavra do ano será o nome de um vírus, mais especificamente o coronavírus, causador da COVID-19. Esse agente infeccioso fez o mundo entrar em lockdown e foi responsável por centenas de milhares de óbitos pelo mundo. Agora, imagine encontrar organismos que podem se alimentar desses vírus. Isso seria incrível, não? Pois é, mas ainda está longe da realidade. 

Por outro lado, pesquisadores da vida marinha nos Estados Unidos descobriram, curiosamente, dois organismos que se alimentam, muito provavelmente, de alguns tipos vírus. Segundo o estudo, essas são as primeiras evidências confiáveis que apontam para este tipo de dieta. Pelo menos, determinados vírus podem ser consumidos por uma espécie de Pac-man da natureza, algo que nós, humanos, não conseguimos fazer.  

Pesquisa descobre organismos que podem consumir vírus (Imagem: Reprodução/ United Nations COVID-19 Response/ Unsplash)

Publicada na revista Frontiers in Microbiology, a pesquisa identificou dois organismos unicelulares, ambos descobertos na costa do Maine, nos Estados Unidos. Os dois são protistas marinhos dos filos Choanozoa e Picozoa e a alimentação se dá através da fagocitose. Até onde os cientistas sabem, essa dieta "viral" é bastante rara em ecossistemas terrestres. 

Como vivem os organismos que comem vírus?

"Nossos dados mostram que muitas células protistas contêm DNA de uma ampla variedade de vírus não infecciosos, mas não bactérias, forte evidência de que se alimentam de vírus em vez de bactérias", explica um dos autores do estudo e pesquisador do Bigelow Laboratory for Ocean Sciences, Ramunas Stepanauskas. “Isso foi uma grande surpresa, já que essas descobertas vão contra as visões, atualmente, predominantes sobre o papel dos vírus e protistas nas cadeias alimentares marinhas”, comenta o cientista.

Para o estudo da vida marinha, os pesquisadores coletaram amostras de água do oceano e, em seguida, sequenciaram o material genético de mais de 1,6 mil organismos que encontraram. De forma inusitada, dois tipos de criaturas minúsculas (choanozoários e picozoários) continham amostras do código genético viral. Já que nenhum desses organismos é vulnerável à infecção viral, os cientistas julgam que eles estão, literalmente, se alimentando de alguns vírus.

Segundo Stepanauskas, os picozoários, por serem extremamente pequenos (têm menos de três micrômetros de diâmetro, o que equivale a um trigésimo da largura de um fio cabelo humano) podem se alimentar apenas de vírus. “Eles podem nem mesmo ser capazes de consumir partículas maiores”, defende o cientista.

Além disso, “os vírus são ricos em fósforo e nitrogênio e podem ser um bom suplemento para uma dieta rica em carbono que pode incluir presas celulares ou coloides [compostos com matéria orgânica] marinhos ricos em carbono”, comenta Julia Brown, co-autora do artigo e também pesquisadora do Bigelow Laboratory for Ocean Sciences

“Pesquisas futuras podem avaliar se protistas que consomem vírus acumulam sequências de DNA de suas presas virais dentro de seus próprios genomas, ou considerar como eles podem se proteger da infecção", completa a pesquisadora Brown. O que poderia levar a novas técnicas de combate de vírus e, potencialmente, novas terapias.

Para ler o artigo completo, publicado na revista Frontiers in Microbiology, clique aqui.

Fonte: Frontiers Science News, The New York Times e Futurism    

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