Tecnologia a serviço da saúde mental

Por Carla Tieppo | 01 de Outubro de 2020 às 10h00
Anthony Tran/Unsplash

Se você fizer uma busca na internet com as palavras do título que acaba de ler, não achará uma relação positiva entre tecnologia e saúde mental. Na verdade, você vai encontrar muitos artigos falando justamente o contrário. O uso de tecnologias tem sido considerado abusivo e a principal ênfase está no uso que crianças e adolescentes fazem das redes sociais, dos games digitais e das maratonas de filmes e séries garantidas pelas plataformas de streaming.

Também estão disponíveis documentários que expõem o aumento do risco de depressão, ansiedade e ideações suicidas. Mais recentemente, o documentário Social Dilemma (O Dilema das Redes Sociais, no título em português) expôs a face mais preocupante, que é influência que os algoritmos desenvolvidos para prender a atenção e influenciar comportamentos — e que estão por trás do gerenciamento das redes sociais — podem ter na tomada de decisão e posicionamento dos usuários. Inclusive, há neste documentário uma comparação bastante provocativa sobre a aplicação da denominação "usuários de redes sociais" com o mesmo termo aplicado apenas para usuários de drogas ilícitas (esta referência não é absolutamente verdadeira já que o termo usuário aplica-se a variados serviços). 

Estas preocupações não são exageradas ou irrelevantes. Os números obtidos em pesquisas no Brasil, e em vários países mundo afora, mostram importante correlação entre sofrimento mental e uso de tecnologias. Mas é justamente por serem capazes de produzir grande influência no comportamento e na mente das pessoas que o uso de tecnologias deveria ser equalizado. Já conhecemos o poder da imersão nas redes sociais como fenômeno poderoso para atrair a atenção das pessoas, mas não são comuns as iniciativas de reverter este grande poder de atração em dinâmicas de favorecimento de aprendizado, por exemplo. 

De posse deste dado sobre a alta suscetibilidade que apresentamos às redes sociais, justamente por atuarem de forma bastante pragmática para atender as demandas de pertencimento e validação social, podemos reverter este conhecimento para construir ambientes tecnológicos com grande potência para gerar novos aprendizados. Esta potência da tecnologia pode ser empregada especialmente para o desenvolvimento das chamadas soft skills, que representam um conjunto de habilidades comportamentais que favorecem a atuação de profissionais nos sistemas organizacionais que buscam sustentar uma cultura colaborativa, diversa, inclusiva e focada em alta performance. É consenso que o desenvolvimento destas habilidades socioemocionais pode ser um diferencial desde os anos escolares, mas passa a ser crucial e fundamental para o profissional que quer atuar nas organizações que buscam crescimento e agregação de valor exponenciais.

Para além deste ganho em resultados organizacionais, o desenvolvimento de soft skills tem um papel crucial na promoção de saúde mental. As habilidades comportamentais são recursos poderosos para que os ambientes de trabalho sejam menos tóxicos uma vez que favorecem, entre outros ganhos, comunicação de qualidade, empatia e resiliência e podem ser a saída que estamos buscando para a promoção de saúde mental nas organizações cuja fragilidade é tão preocupante quanto a de adolescentes mergulhados em redes sociais.

A pressão por produtividade, provocada pela alta competitividade imposta pela concorrência externa e pela disputa interna, pode provocar intenso prejuízo à saúde mental, e os números de diagnósticos e afastamentos provocados direta ou indiretamente por ruptura na homeostasia mental aumentam assustadoramente, ainda que em tempos de pandemia seja difícil separar o efeito do isolamento social e das mudanças no cotidiano do trabalho destes dados que já estavam sofrendo crescimento importante nos últimos anos.

A mesma lógica usada para fazer da tecnologia um elemento de vício pode e deve ser usada para levar para dentro das organizações ambientes imersivos que atuem no sentido de simular situações cotidianas em que indivíduos testam suas capacidades comportamentais e recebem avaliações de suas performances de interação com estes ambientes simulados. Cada um dos comportamentos que precisam ser estimulados e desenvolvidos nos indivíduos pode ser trabalhado de forma individualizada através de experiências que vão formando as redes neurais responsáveis pelas expressões destes comportamentos, a partir de avaliações individuais feitas no início e ao longo do processo. Tudo guiado por algoritmos que investigam as características dos indivíduos e que possuam como objetivo algo bem mais nobre do que roubar a atenção para ampliar os canais de divulgação de produtos. 

As estratégias de mudança comportamental  testadas e validadas nas redes sociais podem ser aplicadas para ampliar a performance das pessoas e negócios através dos ajustes comportamentais que são capazes de promover, e também poderão fornecer recursos para que as pessoas sejam capazes de atingir resultados  melhores sem precisar do esgotamento mental que hoje vivenciamos. Nenhuma tecnologia é ruim na sua essência; é seu uso quem define seu valor.

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