Saúde mental: como a tecnologia tem ajudado quem tem depressão?

Por Nathan Vieira | 11 de Outubro de 2019 às 15h08
Pixabay

Na última quinta-feira (10), aconteceu o Dia Internacional da Saúde Mental. Considerando esta data e o fato de que recentemente teve o setembro amarelo, período inteiramente voltado à prevenção ao suicídio, é possível perceber uma preocupação cada vez mais crescente em torno do bem-estar emocional. De acordo com uma pes quisa realizada pela Vittude, uma plataforma que conecta psicólogos a pacientes, dentre 492.790 respondentes, 86% vive com algum transtorno mental, como depressão, ansiedade e estresse. Além disso, os números indicam que 59% dos avaliados estão em estado extremamente severo de depressão e 63% apresentam quadro de ansiedade. Embora a tecnologia seja palco de discussões envolvendo a saúde mental dos usuários, também pode se mostrar um braço amigo para pessoas que estão sofrendo transtornos como a depressão, com opções pagas ou gratuitas.

A depressão é um assunto muito sério, que está conquistando espaço na tecnologia, mas merece ser abordada de maneira ainda mais ampla, com cada vez mais ferramentas para ajudar.

Plataformas de consulta on-line

Uma das maneiras que a tecnologia tem de ajudar pessoas com depressão é com aplicativos ou plataformas on-line que atuam como pontes entre profissionais e pacientes. É o caso, por exemplo, da própria Vittude, a plataforma responsável pela pesquisa em torno da saúde mental dos internautas. “Há muitas pessoas sérias, profissionais competentes nas redes, trazendo esclarecimento sobre saúde mental, sobre depressão, suicídio, ansiedade, entre outros temas. A tecnologia também nos trouxe a possibilidade de realizarmos atendimentos psicológicos online e possibilita assim que pessoas que antes não tinham acesso a profissionais da saúde mental, passem a ter”, afirma Ana Paula Dias, psicóloga da plataforma. “Vejo novos aplicativos surgindo e empresas de tecnologia interessadas em identificar pessoas em sofrimento emocional, para poder se antecipar e oferecer ajuda, então tem muitos movimentos das empresas de tecnologia em prol da saúde mental acontecendo”, acrescenta a profissional.

Na Vittude, os usuários se conectam com profissionais da psicologia e podem agendar tanto consultas presenciais quanto on-line. Outro exemplo de plataforma que segue esse mesmo esquema é a FalaFreud, que liga pacientes a profissionais. “A tecnologia veio para nos ajudar, facilitar a vida das pessoas, com ela hoje é possível nosso paciente se conectar ao seu psicólogo de qualquer lugar que ele estiver”, aponta Sabrina Ferrer, uma das psicólogas da FalaFreud. “Com os aplicativos de terapia online, o paciente não precisa ir até meu consultório para ser sua sessão. Ele pode fazer de sua própria casa, trabalho, viagem”, completa.

A Telavita, descrita como marketplace de saúde, também segue essa linha de fazer uma ponte entre psicólogos e pacientes, tornando mais fácil o acesso a esses profissionais. Basicamente, o paciente faz um cadastro na plataforma, escolhe a especialidade que deseja ser atendido (depressão, família ou relacionamento, por exemplo) e um sistema inteligente indicará quais são os profissionais cadastrados que estão aptos para atendê-lo. Depois disso, basta escolher o psicólogo e agendar a sessão, que tem duração média de 50 minutos. No dia e horário do agendamento, o paciente e psicólogo realizam o login no site e acessam uma sala de atendimento virtual interna. Para os psicólogos, a plataforma aplica uma série de procedimentos antes de proporcionar acesso ao sistema. Todos passam por uma análise curricular, entrevista e participação em uma videoconferência com a psicóloga responsável pelo projeto, Milene Rosenthal.

Redes sociais

Além das plataformas on-line, muitos psicólogos também buscam outras maneiras de se conectar com mais facilidade com seus pacientes, possibilitando acesso prático para ajudar pessoas com depressão ou outras doenças. É o caso, por exemplo, da psicóloga Ellen Moraes Senra, que atende por Skype, Zoom, Hangout e até WhatsApp. “Segundo o regulamento do Conselho Regional de Psicologia (CRP), o atendimento também pode ser por e-mail, ou seja, o texto também é uma possibilidade. Todavia, a maioria dos profissionais prefere vídeo-chamada”, conta a profissional.

Ellen explica que a consulta online é indicada quando o paciente está em fase aguda da doença ou impossibilitado de se locomover por alguma razão. “Particularmente, no caso de pacientes depressivos é sempre bom que se possa fazer em algum momento as consultas presenciais. Prefiro que após a melhora inicial, o paciente possa fazer presencialmente, visto que a falta de contato social assim como o deslocamento podem contribuir para intensificar os sintomas depressivos”, enfatiza. A psicóloga lembra também que as sessões devem ocorrer em local privado, preferencialmente com fone de ouvido e o sigilo deve ser mantido normalmente tal como as sessões presenciais. “Antes, o número de atendimentos era restrito, mas entrou em vigor uma nova resolução no conselho onde essa condição é retirada”.

Grupos on-line

Outra possibilidade fornecida pela tecnologia é o grupo on-line. “É uma ótima ferramenta para a pessoa tomar consciência de sua condição e iniciar uma proposta de modificação de comportamento, e até mesmo designar formas de enfrentamento”, aponta a psicóloga Elaine Alves, que administra o #SECUIDANEGA, que surgiu a partir da necessidade das mulheres que passam por muitas transições e conflitos e que, muitas das vezes, não podem custear um processo de psicoterapia. A ideia é que as participantes tenham acesso ao cuidado com a saúde mental e também a informações que contribuam para a regulação emocional e para o equilíbrio da autoestima. Atualmente participam cerca de dez mulheres, e é um grupo privado com dicas e reflexões no WhatsApp, além de encontros presenciais.

“A terapia em grupo visa buscar um bem-estar e a melhora na qualidade de vida do indivíduo e os benefícios desta modalidade são: a aquisição de novas habilidades sociais, diminuição da timidez, melhora na relação interpessoal,pois ajuda na aquisição de limites básicos em relação a hora de falar e a hora de escutar, além de ser um lugar que favorece a troca experiências, o compartilhar das dores, e tudo isto leva a pessoa a desenvolver novas formas de enfrento perante o problema”, explica a psicóloga. “É importante entendermos que embora a depressão seja multifatorial, e pode provocar a perda de autoestima, o contrário também pode acontecer e a pessoa com um nível baixo de autoestima pode desenvolver a depressão”, ressalta.

O grupo on-line funciona durante o período de inscrições para o grupo presencial e fica aberto para a interação entre as participantes, através de texto e reflexões e videoconferência na plataforma zoom. “Além disso, o grupo on-line serve para manter o vínculo e trabalhar a autoestima das pacientes entre uma sessão e outra. Essa ferramenta tanto complementa a terapia como também potencializa seus efeitos positivos”, Elaine explica. No entanto, a psicóloga enfatiza: “O grupo on-line não se compara nem substitui a psicoterapia em função das ferramentas e transformações possíveis”.

Aplicativos

Outra forma que a tecnologia tem de ajudar a pessoa com depressão é o aplicativo. Há inúmeros deles, destinados a cuidar da saúde mental dos usuários. Um exemplo é o Kor-e, criado para conectar pessoas em estado emocional de solidão a voluntários. Esse app que treina voluntários e os conecta a pessoas em estado de solidão. Atualmente, está em fase de financiamento coletivo. Apesar de ser um projeto sem fins lucrativos, o app possui um plano autossustentável que a permite gerar seus próprios recursos financeiros, que envolve a abertura de sua rede a profissionais habilitados a praticar orientação psicológica online por um valor acessível à comunidade.

O Kor-e surgiu depois que a terapeuta Juliana Infurna passou por momentos turbulentos e solitários. Ao procurar pessoas próximas para conversar, sentiu que não houve empatia suficiente. Ela estava em isolamento emocional, apesar de estar conectada a milhares de pessoas em suas redes sociais. Juliana explica que a plataforma treina voluntários que queiram ajudar outras pessoas que se sintam isoladas ou estejam passando por momentos desafiadores emocionais. “Kor-e tem o poder de atuar como um suporte de ajuda empática e emocional, de forma gratuita ao alcance do celular. Nosso objetivo é diminuir os índices de solidão e sensação de isolamento que acomete quase ⅓ da população e aumenta em até 3x as chances de cair em depressão”, afirma a responsável pelo projeto.

Sendo assim, as pessoas poderão se conectar a voluntários treinados, por meio de uma ligação no aplicativo de forma gratuita, ou optar por serem atendidas por profissionais dentro num atendimento mais personalizado. “A missão do Kor-e é diminuir a sensação de isolamento e os índices de solidão que vem levando pessoas, cada vez mais jovens a estados depressivos, através da educação e suporte emocional gratuitos a comunidade. Se você sente que ninguém ao seu redor consegue te ouvir e acolher a sua dor, busque lugares e pessoas que consigam. Normalmente são pessoas que não estão no seu ciclo social e que não possuem vínculo emocional com você, mas que já estiveram no seu lugar e tocados por esta compaixão, hoje se nutrem de servir e ajudar ao próximo”, conclui a terapeuta.

Outra opção de aplicativo é o Apoio ao Diagnóstico de Depressão e Avaliação do Risco de Suicídio (ADDS), disponível na PlayStore. O ADDS foi desenvolvido pelo núcleo de Telessaúde do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio (TelessaúdeRS/UFRGS), sob a premissa de auxiliar no diagnóstico de depressão e na definição de Risco de Suicídio. No entanto, os responsáveis enfatizam que ele não substitui o julgamento clínico.

Centro de Valorização da Vida

Uma forma de ajuda mais emergencial oferecida é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que possui atendimento gratuito por telefone no número 188 e pelo chat do site. Entretanto, como o CVV é uma iniciativa sem fins lucrativos que depende de prestadores de serviços voluntários para atender à demanda, nem sempre é possível conseguir atendimento rápido por lá. Para se tornar um voluntário, é preciso ter mais de 18 anos de idade e tempo disponível para participar do processo seletivo e receber treinamento. Em algumas modalidades é possível prestar o serviço sem sair de casa.

"Já há alguns anos o CVV começou a atender por chat, o que abriu novas formas de pessoas, especialmente as mais jovens, procurarem ajuda. Há dois anos implantamos um PABX Virtual, que é um sistema que recebe as ligações (transformadas em dados) e as distribui para o ramal do CVV disponível, independentemente da região de origem da ligação ou do voluntário do CVV. Isso fez com que conseguíssemos atender 50% mais com um aumento de 20% do quadro de voluntários", explica Leila Herédia, porta-voz do CVV. "Nosso modelo de atendimento é baseado no acolhimento, não julgamento, não aconselhamento, de forma que a pessoa se sinta segura e à vontade para falar sobre qualquer assunto, especialmente aqueles sobre os quais não consegue falar com mais ninguém. É como se fossemos um pronto socorro emocional", Leila esclarece.

A porta-voz do CVV ainda afirma que ele é feito para qualquer pessoa que sinta a necessidade de conversar com alguém e não encontre espaço entre seus conhecidos, ou se sinta solitário, excluído. "Tem gente, por exemplo, que nos liga para dar e ouvir um 'boa noite', porque teve a casa cheia a vida inteira e agora está com o 'ninho vazio'. Isso não quer dizer que essa pessoa pode querer se matar, mas precisa ouvir a voz de alguém", mas também enfatiza: "CVV é apoio emocional e não dispensa o acompanhamento médico e psicológico. Muitas vezes somos complementares, até porque atendemos 24 horas por dia, disponível mesmo quando o terapeuta da pessoa não está. E há ainda situações em que a pessoa não se sente à vontade para falar tudo para esses profissionais até construírem uma confiança mais firme, enquanto é mais fácil falar para um desconhecido de maneira anônima".

É válido lembrar que uma alternativa para situações de emergência é recorrer aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), presentes em todos os municípios e com atendimento público associado ao Sistema Único de Saúde (SUS).

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