Giro da Saúde: vacina do Butantan; lavagem cerebral noturna; cannabis e COVID

Por Luciana Zaramela | 28 de Março de 2021 às 08h00

Chegamos ao início de mais uma semana! Nos últimos dias, várias notícias movimentaram o Brasil no assunto COVID-19, como novas vacinas e a triste marca de 300 mil mortes pela infecção no país. No Giro da Saúde de hoje, você acompanha, em suma, os principais destaques desde o último domingo — envolvendo a vacina do Butantan, exames para detecção de anticorpos vacinais e até mesmo uma fake news que viralizou recentemente.

Soro e vacina anti-COVID do Butantan

Vacina nova, soro novo: Butantan mostra as novas armas contra a COVID (Imagem: Divulgação/Instituto Butantan)

A semana passada foi de avanços em relação a duas apostas do Instituto Butantan para frear a epidemia da COVID-19 no Brasil: na quarta (24), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) concedeu autorização para o início dos testes de segurança e eficácia do soro desenvolvido pelo Instituto, que visa combater a evolução da COVID-19 em humanos.

Produzido em cavalos com base no coronavírus inativo inoculado nestes animais, o soro é o resultado da reação do organismo equino ao antígeno. Ele é obtido após a separação dos anticorpos do sangue dos animais que tiveram contato com o vírus editado, e funcionou quando testado em roedores. Agora, o próximo passo é a testagem desse soro no corpo humano. O Butantan, com isso, não pretende desenvolver uma vacina, mas sim um remédio.

Já em relação à vacina, na sexta-feira (26) foi anunciada a Butanvac, de fabricação totalmente nacional, cujo pedido de autorização para testes também já foi encaminhado à Anvisa. Se tudo der certo, os testes pode começar em abril, e a fabricação em maio. Assim, o instituto pretende entregar 40 milhões de doses a partir de julho. Segundo a instituição, a fabricação do imunizante é mais barata e rápida, já que utiliza o mesmo processo que a vacina contra a gripe, que já é aplicada há anos em grandes campanhas ao redor do Brasil. Aliás, vale comentar que ela conta com proteção à variante brasileira, conhecida com o P1.

A Butanvac não vai interferir no cronograma de fabricação da Coronavac, segundo Dimas Covas, diretor do Butantan. No segundo semestre, os trabalhos com o imunizante serão realizados em uma fábrica própria, que está na reta final de construção.

No Canaltech você encontra detalhes sobre o soro e a Butanvac

Marcos Pontes também anuncia candidata a vacina brasileira

A "vacina de Marcos Pontes" é a mais nova candidata no país (Imagem: Reprodução/EBC)

Logo após o anúncio do Butantan, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, também anunciou que uma nova vacina contra a COVID-19 feita no Brasil está prestes a entrar no jogo. Com solicitação já enviada à Anvisa para obter a aprovação de testes em humanos, a chamada Versamune®️-CoV-2FC foi desenvolvida pela brasileira Farmacore, em parceria com a PDS Biotechnology, dos Estados Unidos. Além das empresas, prestou colaboração no desenvolvimento da fórmula a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

A tecnologia empregada nessa vacina é bem próxima à utilizada na vacina Novavax, que utiliza réplicas da proteína spike do coronavírus. Essas proteínas são extraídas do patógeno, editadas e revestidas em nanopartículas do tamanho do vírus. "A vacina demonstrou capacidade de ativar todo o sistema imunológico — imunidade humoral, celular e inata, induzir a memória imunológica e proteção a longo prazo", diz o governo federal.

Conheça melhor a vacina anunciada por Marcos Pontes

Aspirina pode reduzir forma grave e até óbitos por COVID-19

Uma velha conhecida, a Aspirina, pode ajudar a evitar complicações por COVID-19 (Imagem (ilustrativa): MegiasD/Envato Elements)

Toda semana você lê avanços em relação a pesquisas para barrar a propagação da COVID-19 aqui no Canaltech. E um dos mais recentes envolve um estudo preliminar realizado nos EUA, que revelou que a Aspirina (ácido acetilsalisílico), em doses baixas, pode ser ajudar a combater a COVID-19, reduzindo a necessidade internação e até mesmo o número de óbitos pela doença.

De acordo pesquisadores da George Washington University (GWU), a Aspirina entrou em cena quando eles observaram que, devido a complicações tromboembólicas no organismo de doentes graves, o medicamento ajudava a surtir efeito, já que é comumente usado na medicina para afinar o sangue, em baixas doses. Assim, eles apontam que o remédio pode ajudar na redução das reações do corpo à infecção, evitando que se formem coágulos sanguíneos e que esses se transformem em casos mais graves de trombose.

Se a eficácia do medicamento for comprovada no tratamento de formas graves da COVID-19 e até mesmo para evitar óbitos, teremos um grande aliado na luta contra a infecção. Além do mais, é um remédio de fácil acesso e barato, que tem, relativamente, poucas interações medicamentosas e efeitos colaterais bem conhecidos.

O estudo contou com registros de 412 pacientes internados em vários hospitais dos EUA. O uso de Aspirina foi associado a uma redução de 44% na necessidade de ventilação mecânica, uma redução de 43% na admissão em UTI e uma redução de 47% na mortalidade hospitalar. No entanto, vale pontuar que os resultados ainda não são definitivos.

Leia o preprint e saiba mais detalhes sobre o uso de Aspirina contra COVID-19

Cannabis pode ajudar no tratamento da COVID

Óleo de CBD é uma das apostas da ciência contra COVID (Imagem: Twenty20photos/Envato Elements)

Na luta contra o coronavírus, outra alternativa que vem sendo estudada é o emprego da cannabis medicinal para impedir a evolução da COVID-19. Derivados da planta, conhecidos como canabinoides (como THC e CBD) já são utilizados para aliviar dores crônicas e agudas, além de inflamações — o que poderia beneficiar os infectados.

O canabidiol (CBD) está em foco nas últimas pesquisas envolvendo COVID-19. Nos EUA, cientistas da Universidade de Chicago apontaram que o composto pode inibir a evolução de infecções pelo coronavírus in vitro, ou seja, em testes de laboratório. Os resultados obtidos no estudo apontam que o extrato foi capaz de bloquear a replicação do coronavírus no interior das células epiteliais do pulmão humano. O próximo passo é começar os testes com voluntários humanos, já que a técnica é relativamente simples, não invasiva e com pouco risco de efeitos colaterais.

Apesar de promissora, a técnica ainda precisa ser testada com rigor. "Defendemos ensaios clínicos controlados por placebo, cuidadosamente projetados com concentrações conhecidas e formulações altamente caracterizadas para definir o papel do CBD na prevenção e tratamento da infecção precoce por SARS-CoV-2", afirmam os cientistas.

Outra pesquisa, realizada no Canadá e publicada na revista científica Ageing, simulou a inflamação de um tecido artificial humano e, em seguida, o tratou com sete diferentes tipos de extratos de cannabis. Os pesquisadores observaram que os extratos conseguiram brecar a tempestade de citocinas, que acontece quando o sistema imune passa a atacar tudo o que vê pela frente, incluindo as partes saudáveis do corpo do indivíduo, o que gera agravamento do estado de saúde do paciente. Se uma substância pudesse interromper a tempestade de citocinas, ela seria capaz de suprimir a inflamação e prevenir a fibrose pulmonar — e é nisso que acreditam os pesquisadores, quando o assunto são os derivados da cannabis.

Vale ressaltar que, diferentemente do uso de extratos, a inalação da fumaça resultante da queima da erva não é recomendada contra COVID-19. e temos uma infecção que afeta os pulmões, evidentemente deveríamos evitar estímulos nocivos adicionais. Quando pensamos exclusivamente nos canabinoides, eles até poderiam ser benéficos, mas 'fumar maconha' não é o mesmo que simplesmente 'administrar canabinoides'", comenta Fabrício Pamplona, doutor em farmacologia de canabinoides, em entrevista ao Canaltech.

Leia mais sobre os avanços da cannabis medicinal contra a COVID

Aparelho de ultrassom pode ler a mente e "prever" ações

Técnica de ultrassonografia pode prever movimentos em primatas — e, quem sabe, em humanos (Imagem: Mart Production/Pexels)

Já no campo da inovação na área da saúde, pesquisadores do instituito Caltech, nos EUA, conseguiram desenvolver uma técnica para ler e interpretar a atividade cerebral e depois transmitir os resultados para o computador, com base no vai e vem do fluxo sanguíneo e capaz de "prever" ações de quem está em análise. Com a ajuda de um aparelho de ultrassom, os cientistas conseguiram mapear uma região do cérebro com 100 micrômetros — o equivalente, em média, ao diâmetro de um fio de cabelo.

O papel do ultrassom, aqui, é emitir pulsos de alta frequência e, por meio de vibrações sonoras altíssimas, conseguir produzir imagens detalhadas de uma determinada área. Isso significa que é possível mapear a dinâmica dos sinais neurais da região, abrindo caminho para que próteses robóticas sejam comandadas por sinais cerebrais, por exemplo, mas com a vantagem de se conhecer, com antecedência, o comportamento cerebral através do fluxo sanguíneo, já que quando uma área está desempenhando uma determinada atividade, o fluxo se torna mais intenso, ali.

Em experimentos usando aparelhos de ultrassom em macacos, os cientistas conseguiram prever os movimentos que os animais fariam antes de executarem uma ação. O objetivo, agora, é ampliar os estudos para aplicação em seres humanos com lesões cerebrais graves para descobrir como o ultrassom se comporta ao medir e decodificar a atividade cerebral nestas pessoas.

Bacana, não? Saiba mais na notícia completa

É FAKE: inalar água sanitária NÃO ajuda a combater COVID — e ainda pode colocar sua vida em risco

Afaste a ideia de inalar qualquer coisa à base de alvejante! (Imagem: Formatoriginal/Envato Elements) 

Ultimamente, um vídeo que tem circulado nas redes sociais mostra um suposto médico ensinando a fazer (e inalar) uma substância composta por água, bicarbonato de sódio e água sanitária. Segundo o vídeo, o tal "tratamento" ajudaria a prevenir e curar COVID-19, sendo inclusive recomendado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Quem desmente o vídeo é o Sistema CFQ/CRQs — composto pelo Conselho Federal de Química e outros 21 Conselhos Regionais — e a Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (Abipla). O procedimento pode acarretar inúmeros riscos, inclusive de vida. Além disso, não tem eficácia comprovada e não foi aprovado pela Fiocruz.

"A inalação proposta é possível através da aquisição de produtos simples e acessíveis a maior parte da população, o que aumenta a possibilidade de sua utilização em massa e potencializa seus riscos", alerta o grupo. A solução jamais deve ser inalada, já que o hipoclorito de sódio (água sanitária) não deve interagir com a pele, muito menos com as mucosas.

O grupo ainda conclui a nota afirmando que "medidas de distanciamento social, higiene pessoal e vacinação em massa são as principais iniciativas respaldadas na ciência e, por enquanto, as que devem ser consideradas para o controle da pandemia".

Saiba mais sobre a fake news

Sputnik-V: Anvisa inicia análise de pedido para uso emergencial

Seria a Sputnik-V a quarta vacina aprovada pela Anvisa? (Imagem: erika8213/Envato Elements)

Na última sexta-feira (27), o processo para aprovação da vacina russa Sputnik-V avançou: a solicitação foi protocolada pelo laboratório União Química, que representa o Fundo Soberano da Rússia (RDIF), desenvolvedor da fórmula contra a COVID-19. "A solicitação de análise do uso emergencial, protocolada na madrugada de sexta-feira, é um novo pedido. O anterior, protocolado pelo laboratório União Química no dia 15 de janeiro, será cancelado a pedido da empresa", esclareceu a Anvisa, em nota.

Se a Anvisa aprovar, este será o quarto imunizante com aval da agência no Brasil. Por enquanto, as fórmulas da Sinovac (CoronaVac), da AstraZeneca/Oxford (Covishield) e da Pfizer/BioNTech já receberam aprovação por aqui. Segundo a agência, o prazo previsto para a análise é de sete dias úteis, mas sem considerar o tempo do processo em status de exigência técnica — que, de acordo com nota da Anvisa, é quando o laboratório precisa responder questões técnicas feitas pela agência.

A Sputnik-V atua de forma dupla na proteção contra o coronavírus, a partir da plataforma de vetor viral não replicante, em duas doses, e segundo testes realizados na Rússia, tem taxa de eficácia de 91,6%.

Confira a notícia na íntegra

Estudo: recebemos uma lavagem cerebral todas as noites — literalmente!

Lavou, tá novo? Quase isso, quase! (Imagem: iLexx/Envato Elements)

Você sabia que nosso cérebro está constantemente flutuando dentro de nossas cabeças, em um líquido chamado cefalorraquidiano? Pois é, essa fisiologia existe para proteger o órgão e amortecer impactos, além de realizar um tipo de filtragem, eliminando toxinas. Ciente disso, uma equipe de cientistas da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, descobriu como transformar o líquido cefalorraquidiano em imagem, para ser analisado.

Com a ajuda de 13 voluntários, eles conseguiram observar o fluido durante o sono, e descobriram que, quando estamos dormindo, a pulsação do líquido forma ondas relativamente gigantes, em intervalos regulares de 20 segundos, em média. É como se o nosso organismo desse conta de dar uma boa ducha no cérebro para que, na manhã seguinte, ele acorde revigorado.

Para os estudiosos, o fluxo sanguíneo é o principal responsável pela formação dessas ondas. Como as oscilações cerebrais ficam mais lentas durante o sono, o aporte sanguíneo para os neurônios é menor enquanto estamos dormindo. A lavagem tem como objetivo remover as impurezas do órgão e descartá-las — como se, no banho, estivessem escoando pelo ralo.

Ficou curioso? Leia mais sobre a tal "lavagem" no CT!

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