Epidemiologista que “previu” pandemia em 2006 diz que caminho é testar pessoas

Por Wagner Wakka | 25 de Março de 2020 às 15h58
Captura/TED

Em 2006, o epidemiologista Larry Brilliant fez uma apresentação no TED em que projetava um cenário de impacto mundial. Seu vídeo, chamado “Meu pedido: ajude-me a parar pandemias”, tem mais de um milhão de visualizações. Mas não foi suficiente para ser atendido.

Ha 14 anos, Brilliant descreveu um cenário de uma doença que poderia contaminar um bilhão de pessoas. “Umas 165 milhões poderiam morrer. Haveria uma recessão global e uma depressão, e o custo para a nossa economia, entre US$ 1 e US$ 3 trilhões, seria de longe pior do que uma centena de milhares de mortos. Isso porque tanta gente perderia seus trabalhos e seus benefícios de saúde que as consequências seriam praticamente impensáveis”, previu o epidemiologista.

Não que ele seja um vidente ou algo do tipo. Brilliant apresenta seu modelo, o qual gostaria que tivesse sido usado antes. Na verdade, um grupo se utilizou das ideias do epidemiologista: o diretor Steven Soderberbergh se inspirou no modelo criado por ele para produzir Contágio, filme que está em alta nos serviços de streaming.

O especialista previu a pandemia da COVID-19 com base em sua experiência. E tem um currículo interessante: ele ajudou erradicar a varíola, trabalhando ao lado da Organização Mundial da Saúde. Além disso, já colaborou em esforços contra gripe, pólio e até cegueira. Quando gravou a apresentação, seu argumento não era exatamente focado na pandemia que estamos vivenciando hoje — ele tentava alertar sobre as consequências de não se ter um sistema de saúde pública nos Estados Unidos, como se tem no Brasil.

Brilliant em apresentação TED em 2006 (Foto: Reprodução/TED)

Em entrevista para a revista Wired, ele falou sobre o que havia descrito em 2006, e que está acontecendo agora. “É a pandemia mais perigosa da nossa existência”, relatou.

O epidemiologista criticou a demora do governo do presidente Donald Trump em reconhecer a doença, chamando o problema de “rumor Democrata” e “dizendo que era notícia falsa”. “Como uma pessoa da saúde pública, esta é uma das ações mais irresponsáveis de alguém eleito que eu já presenciei em toda minha vida”, criticou

Contudo, ele se mostra otimista e acredita que vamos chegar ao que ele chama de era de ouro da epidemiologia. Para isso, são necessários dois fatores: primeiro, a imunidade: ele prevê que uma boa fatia da população contraia a doença e se torne imune. Segundo, é preciso haver uma vacina. A combinação dos dois, segundo ele, é o que vai trazer o sistema de voltar ao normal.

“Agora, estamos vendo boas notícias da Coreia do Sul: eles tiveram menos de 100 casos hoje. A China tem mais casos importados que de transmissão comunitária. [...] Mas o modelo sul-coreano é um que podemos seguir. Infelizmente, isso necessita um número proporcional de testes, tal como eles fizeram: quase 250 mil kits”, aponta Brilliant.

Apesar da crítica ao presidente, ele acha que ainda há tempo para fazer os testes com as pessoas. O ponto, segundo ele, é saber por onde o vírus está circulando. “Talvez o Missisipi esteja reportando zero casos por que não tem capacidade de testes”, apontou. Em uma analogia, ele diz que agora é importante saber se estamos olhando para a ponta do iceberg, ou seja, apenas parcela dos casos, ou para a pirâmide inteira.

Mesmo se mostrando preocupado com o cenário que se apresenta, Brilliant ainda se mantém positivo sobre isso. “Tenho visto jovens, millennials, que estão se voluntariando para fazer mercado para quem está enclausurado, os mais velhos. Tenho visto um fluxo de enfermeiros que trabalham mais do que sempre trabalharam, médicos que vão sem medo para os hospitais. Eu nunca vi este voluntarismo que estou vendo agora”, concluiu.

Fonte: Wired

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