Cientistas suspeitam que coronavirus causou gripe russa de 1889

Cientistas suspeitam que coronavirus causou gripe russa de 1889

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 17 de Fevereiro de 2022 às 12h04
Romankosolapov/Envato Elements

Para um grupo de pesquisadores, a atual pandemia da covid-19 e a da "gripe russa" possuem inúmeras semelhanças. Por exemplo, alguns infectados relatavam perda de paladar e de olfato após a infecção, além de outros sintomas atípicos da gripe. Por conta dessas inúmeras "coincidências", cientistas investigam se a mortal gripe de 1889 teria sido, na verdade, causada por um coronavírus e não pelo vírus influenza.

A ideia do coronavírus ser a causa da "gripe russa" é "uma especulação muito interessante”, segundo explica o professor da Universidade de Michigan, Arnold Monto, em conversa com The New York Times. Além disso, o especialista lembra que há anos a ciência se pergunta sobre a origem dos coronavírus e se outras pandemias teriam sido causadas por essa família de patógenos.

Pandemia da gripe russa pode ter como causa um coronavírus desconhecido (Imagem: Reprodução/Yakov_Oskanov/Envato Elements)

Na mesma linha de raciocínio, Scott Podolsky, professor da Harvard Medical School, considera a hipótese “plausível”, mas ainda faltam evidências que comprovem a suposta relação dos coronavírus com a "gripe russa".

Existem mais coronavírus?

Quando se pensa em coronavírus (CoV), os nomes de doenças mais associados são a covid-19, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS). No entanto, os CoV formam uma grande família viral e são descritos desde meados dos anos 1960. Em comum, causam infecções respiratórias, de diferentes graus, em humanos e animais.

Inclusive, pessoas costumam ser infectadas por coronavírus comuns ao longo da vida. "Os tipos mais regulares que infectam humanos são o Alpha coronavírus 229E e NL63, o Beta coronavírus OC43 e o HKU1", explica a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), em nota.

Caso a hipótese sobre a origem da "gripe russa" seja verdadeira, provavelmente, o coronavírus responsável pela pandemia deve viver, até hoje, entre os humanos, mas sem causar os estragos que fez na época.

Semelhanças entre a gripe e a covid

Em maio de 1889, os habitantes de Bukhara — uma cidade que integrava o Império Russo — começaram a adoecer e morrer misteriosamente. Conhecida como a "gripe russa", a doença se espalhou por outras partes do globo — como Europa, América do Norte e Brasil — e foi associada com a alta letalidade em idosos. Estudiosos da época presumiram que a causa era o vírus influenza.

Pesquisadores apontam semelhanças entre a pandemia da gripe russa e a da covid-19 (Imagem: Reprodução/RW Footage/Envato)

Relatos do período afirmam que escolas e fábricas foram fechadas por causa do alto número de infectados, algo considerado bastante anormal para lidar com uma infecção. Além disso, alguns doentes alegavam perder a capacidade de sentir o paladar e o olfato. Por fim, alguns relatavam casos de fadiga e cansaço persistentes. Pelo menos três ondas da doença afetaram o mundo.

Se o nome da "gripe russa" fosse trocado por covid-19, o relato pareceria muito com o que o mundo vive desde o final de 2019, quando o coronavírus SARS-CoV-2 foi descoberto na cidade de Wuhan, na China. Inclusive, alguns sintomas são extremamente parecidos e pouco se parecem com os quadros típicos de gripe. Só que, no momento, essa relação é apenas especulativa.

Pesquisas sobre a origem da gripe russa

A questão é que falta qualquer evidência científica de que a "gripe russa" tenha como causa um coronavírus, já que foram analisados, por enquanto, apenas relatos da época e comparados com a atual situação pandêmica da covid-19. Agora, pesquisadores buscam identificar as pistas mais consistentes que podem comprovar essa suposição.

Uma dupla de pesquisadores britânicos, Jeffery Taubenberger e John Oxford, investiga amostras de tecido pulmonar preservados que antecedem a pandemia de gripe de 1918 — a famosa "gripe espanhola". A ideia é verificar se ainda restam fragmentos de vírus da influenza ou de outros coronavírus nessas amostras.

Além deles, dois norte-americanos, Scott Podolsky e Dominic W. Hall, também analisam tecidos de pulmões preservados da mesma época. Dessa forma, é possível que, nos próximos meses ou anos, a sociedade descubra que outras pandemias causadas por coronavírus já foram enfrentadas pela espécie humana (ou não).

Fonte: The New York TimesScience Alert e SBMT    

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.