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China usa tecnologia norte-americana para perseguir pessoas através de DNA

Por Rafael Rodrigues da Silva | 21 de Fevereiro de 2019 às 22h30

Algo extremamente preocupante está acontecendo na China: segundo uma reportagem publicada nesta quinta-feira (21) pelo The New York Times, o governo chinês está coletando amostras de DNA de um grupo minoritário de sua população e usando essas informações para perseguir essas pessoas.

De acordo com a reportagem, entre 2016 e 2017 o governo chinês coletou dados genéticos de 36 milhões de pessoas, a maioria de etnia Uighur, um grupo étnico de origem muçulmana que tem sido duramente perseguido pelo Partido Comunista na última década.

Segundo diversos relatos, o governo chinês chamou essa coleta de um “check up geral” da população mas, ao contrário do que costuma ser qualquer iniciativa de prevenção de doenças, as pessoas do grupo Uighur eram obrigadas a comparecer aos hospitais e clínicas especializadas para esses exames, recebendo até mesmo mensagens e ligações das forças policiais locais que “alertavam” sobre os perigos para quem não participava desses exames — um claro caso de coerção.

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Tahir Imin, um rapaz de 38 anos que participou desses exames, conta que os “médicos” do local escanearam seu rosto, gravaram sua voz, recolheram suas digitais e pegaram uma amostra de seu sangue, mas em nenhum momento foram feitos procedimentos médicos padrões, como medir a pressão arterial ou testar o nível de glicemia no sangue, e se negaram a responder as perguntas que fez sobre para que serviriam esses exames — chegando até mesmo a escutar que, se quisesse saber mais sobre o procedimento, ele teria que ir perguntar à polícia.

Perseguição às claras

Homem da etnia Uighur que, hoje, vive nos EUA (Foto: Kate Warren for The New York Times)

De origem turca, hoje 80% de toda a população mundial do povo Uighur vive na China, na província de Xinjiang. Há décadas essa minoria étnica tem sofrido perseguição do Partido Comunista da China, que vem detendo essas pessoas em “campos de reeducação” como forma de forçá-las a abandonar as suas crenças no islamismo e tudo aquilo que os torna uma cultura única.

Além da criação desses campos, nas últimas décadas o governo chinês tem culpado os Uighur pelo crescente aumento da criminalidade e de ataques terroristas no país, atribuindo a eles até mesmo a autoria de um acidente em Pequim (que fica a mais de 3300 km da província de Xinjiang).

Por isso, grupos de direitos humanos acreditam que os “exames” feitos pelas autoridades chinesas há cerca de três anos serviram para que o governo criasse um “banco de dados” de DNA da etnia Uighur, que permitiria a identificação de qualquer indivíduo que se recusasse a participar dos programas de “reeducação” do governo.

Histórico problemático

Uma banco de dados desses seria possível não só de ser criado, como de já existir e estar sendo utilizado. Isso porque, em 2014, o Ministério de Segurança Pública do país publicou um estudo em que descrevia um procedimento que poderia ser usado por cientistas para identificar diferentes grupos étnicos a partir do DNA. O estudo revelou ainda que o método foi desenvolvido ao comparar o DNA de 40 indivíduos de etnia Uighur com outros de diversas etnias de vários lugares do mundo pertencentes à base de DNA do Dr. Kenneth Kidd, um professor de 77 anos da Universidade de Yale que é o responsável por ajudar os tribunais americanos a aceitar evidências de DNA como provas em um processo criminal.

Além de utilizar a base de dados de Kidd em suas pesquisas, os cientistas chineses, liderados por Li Caixia, contribuíram com dados de 2143 amostras de DNA de pessoas de etnia Uighur para o banco — algo que está sendo investigado pelas autoridades científicas que o gerenciam, já que caso essas análises tenham sido coletadas usando de métodos de coerção e sem o consentimento do dono delas, elas precisarão ser removidas por não seguir os princípios éticos das pesquisas com DNA.

Quando perguntado sobre o caso, Kidd confirmou que trabalhou durante onze meses com Li Caixia para ajudá-la a desenvolver o método detecção de etnia pelo DNA, mas que durante todo o processo foi levado a acreditar que se tratava de uma pesquisa científica séria e que seguia todas as diretrizes éticas da comunidade acadêmica, e que, se tivesse descoberto na época que as amostras usadas pelos chineses tinham sido coletados sem consentimento, ele no mesmo momento se recusaria a continuar cooperando com a pesquisa.

Ajuda corporativa

Mas o Dr. Kidd não foi o única “ajuda” dos Estados Unidos que a China teve. Para aumentar a eficácia das amostras e conseguir resultados mais precisos, a China tem usado máquinas de mapeamento da DNA da Thermo Fisher, uma empresa que fica situada no estado de Massachusetts. Cinco patentes arquivadas pelo Ministério de Segurança Pública da China utilizam os equipamentos da empresa estadunidense para mapear as peculiaridades genéticas dos cidadãos chineses.

Ao descobrir que seus equipamentos poderiam estar sendo utilizados para promover uma perseguição étnica no país, a Thermo Fisher emitiu um comunicado afirmando que não iria mais vender mais nenhum equipamento para a região de Xinjiang, ainda que não corte de vez sua relação com a China. E, de um ponto de vista econômico, é fácil entender essa decisão de manter os laços: em 2017, a país já gastava mais de U$ 1 bilhão em equipamentos de pesquisas genéticas, e esse número tem a tendência de aumentar ainda mais nas próximas décadas. E é possível ver a importância do país ao olhar os relatórios fiscais da Thermo Fisher, onde cerca de 10% de todo o faturamento da empresa provém de vendas para a China.

Sanções mundiais

É bom deixar claro que o problema aqui não é a criação de bancos de dados de DNA e nem de tecnologias que permitem a diferenciação de etnias a partir das informações genéticas — diversos países (entre eles os próprios Estados Unidos) utilizam o mesmo tipo de tecnologia em seus laboratórios forenses, e têm contribuído muito na identificação de criminosos. O problema existente na China é a criação de uma banco de dados desses onde pessoas de uma etnia são forçadas a fornecer seus genes, e onde essas informações são usadas para perseguir dissidentes e promover uma verdadeira “limpeza étnica” no país.

Por isso, diversos órgãos de direitos humanos defendem que se monitore com mais afinco as pesquisas chinesas sobre genética, principalmente as que podem ser usadas para a detecção de grupos étnicos minoritários.

Enquanto isso, os congressistas dos Estados Unidos estão estudando com afinco todas as denúncias que surgem sobre o país, e mais de uma vez o presidente Donald Trump ameaçou criar sanções econômicas caso a China esteja utilizando essa tencologia para perseguir a minoria Uighur — o que é bastante irônico, considerando que a posição da administração Trump para com os imigrantes mexicanos não é assim tão diferente da perseguição que a China promove contra os Uighur.

Fonte: The New York Times

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