Venda de visualizações no YouTube se torna negócio milionário

Por Felipe Demartini | 14 de Agosto de 2018 às 12h00
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A oferta de serviços irregulares na internet é como uma hidra, o monstro mitológico que, quando tinha uma cabeça cortada, se regenerava com duas em seu lugar. Essa é uma boa analogia para definir os serviços de vendas de visualizações e curtidas no YouTube, que se tornou um negócio milionário na mesma medida em que a plataforma se tornou um celeiro de celebridades, que pagam para manipular não apenas as contagens, mas também paradas musicais e sistemas de pagamento a criadores de conteúdo.

E, no pior de tudo, o YouTube parece incapaz de deter o mercado das “fake views”, como demonstrou uma reportagem do jornal americano The New York Times. A empresa não revela os dados exatos relacionados a situações desse tipo, nem o número de visualizações, curtidas ou contas bloqueadas, mas afirma que esse tipo de tráfego representa cerca de 1% do volume total da plataforma. As contas bancárias, a proliferação de opções e, principalmente, o volume dos clientes de serviços dessa categoria, entretanto, contam outra história.

Em mais uma prova de que a Google pode estar diante de uma questão irrefreável, os responsáveis por fornecer fake views nem mesmo hesitam em mostrar a cara. Martin Vassilev, de 32 anos, é um dos personagens da reportagem do New York Times, afirmando já ter vendido mais de 15 milhões de visualizações somente em 2018 e ter ganhado mais de US$ 200 mil com isso. Ele é o responsável pelo 500Views, uma das principais plataformas dessa categoria em funcionamento no mundo, e afirma que o problema só chegará ao fim quando o YouTube remover os contadores – algo que, como todos sabemos, jamais acontecerá.

Vassilev atua como uma espécie de agenciador. Ele é o responsável por coletar os pedidos dos clientes e repassá-los para as plataformas que, efetivamente, inflam as visualizações. Segundo ele, é possível entregar a quantidade que as pessoas quiserem, mas, claro, quanto maior o total, mais tempo a entrega levará para acontecer. Além disso, crescem também os riscos de uma detecção pelo YouTube, que considera a prática uma infração grave de seus termos de uso, passível de bloqueio permanente do canal.

Nas fornecedoras efetivas desse tipo de serviço, os números são ainda mais hiperbólicos. A Devumi, por exemplo, é uma das maiores nesse segmento e afirma ter lucrado mais de US$ 1,2 milhão com a venda de 196 milhões visualizações no YouTube ao longo dos últimos três anos. Ela também afirma que a maioria de seus clientes permanece com as views em seus canais, sem terem sido detectadas pelo YouTube.

Entre eles, ainda, nada de criadores de conteúdo em ascensão ou usuários em busca de dinheiro fácil. De acordo com a Devumi, views falsas já foram vendidas para organizações como a RT, uma organização de mídia ligada ao governo russo, e a Americans for Prosperity, grupo ativista conservador americano. Os jornalísticos New York Post e Al Jazeera também já estiveram entre os clientes, apesar de, oficialmente, terem afirmado que as compras de visualizações não foram autorizadas e que os responsáveis já foram demitidos.

Músicos também são clientes contumazes e, novamente, não são apenas os iniciantes que pagam para inflar suas visualizações. Essa possibilidade, muitas vezes, também é vendida como uma ferramenta de marketing para aumentar vendas ou o alcance de publicações. Na maioria das vezes, porém, após o crescimento artificial, a produção retorna a seu ritmo lento de crescimento original, deixando usuários frustrados e, agora, alguns milhares de dólares mais pobres.

Os valores variam. Mil visualizações, por exemplo, custam US$ 1 na mão de fornecedoras e são revendidos por US$ 14 por agenciadores, com direito a curtidas grátis no pacote. Uma professora americana, por exemplo, pagou US$ 4,2 mil por 40 mil visualizações em dois vídeos. A própria reportagem do New York Times também realizou compras do tipo, não revelando os valores pagos, mas informando que todos os pedidos foram cumpridos em cerca de suas semanas – quanto maior o total final, mais tempo demora a entrega.

Em declarações, o YouTube afirma que seus algoritmos de detecção de tráfego falso são eficazes já que, como dito, esse total seria de apenas 1% da movimentação geral na plataforma. Em 2013, o fluxo automatizado chegaria a quase metade, algo que é usado como comprovação da evolução da companhia.

Ainda assim, 1% de um total de bilhões de views diárias pode representar alguns milhões de visualizações falsas, um número a ser levado em conta e que demonstra que fornecedores desse tipo de serviço estão nadando de braçada. E sem medo de continuarem lucrando e inflando pelos próximos meses e anos.

Fonte: The New York Times

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