Twitter está removendo posts com prints de TV sob alegação de copyright

Por Felipe Demartini | 22 de Junho de 2018 às 13h09
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Você com certeza já se deparou por aí com a imagem de Evaristo Costa assoprando uma vuvuzela ou o já clássico GIF da Nazaré Confusa. São memes que só foram possíveis com capturas de tela das imagens da televisão, algo que já é uma tradição no Twitter. Mas alguns dos responsáveis por esse tipo de trabalho no Brasil estão vendo seu conteúdo retirado do ar por solicitação de direitos autorais supostamente dos detentores originais. Porém, há algo bem estranho em toda essa história.

A “caça aos prints”, como foi chamada por alguns usuários, começou a ganhar evidência na tarde da quarta-feira (19), quando uma série de solicitações de direitos autorais começaram a ser cumpridas pelo Twitter contra os perfis, tirando conteúdos do ar. Pelo menos três contas receberam suspensões temporárias da rede social, ficando inacessíveis por algumas horas, enquanto dezenas de outras tiveram material retirado do ar de forma arbitrária.

Vinicius Sacramento foi um dos principais afetados pelo problema. De acordo com ele, seu perfil teve dez publicações removidas. Foram retiradas do ar, por exemplo, capturas do programa MasterChef Profissionais de 2017 e do jornalístico Agora é Com Datena, ambos da Rede Bandeirantes. Além disso, uma solicitação teria vindo diretamente da FIFA, referente a um print da partida entre Brasil e Suíça. Ele, entretanto, não teve seu perfil suspenso.

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O mesmo, porém, não pode ser dito por Alef de Lima, que viu sua conta no Twitter ficando inacessível depois de apenas duas solicitações de copyright. O caso, que já ganhava tons de estranheza por si só, se torna mais esquisito aqui pelo fato de que as imagens retiradas do ar são de jornais locais da Rede Globo, transmitidos somente na região de São Paulo (SP).

Brincadeira com a "caça aos prints" também acabou sendo alvo de pedido de remoção por direitos autorais (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A primeira mostrava o apresentador César Tralli cumprimentando o professor Sammy Dana. A segunda (acima) era dos jornalistas Carlos Tramontina e Maria Júlia Coutinho, mas já trazendo uma referência às retiradas de conteúdo do ar. “Meus amigos estavam todos brincando e debochando disso. Acho que, por isso, [a imagem] foi uma das atingidas”, conta Lima.

O Reality Social, outro perfil atingido com força pela "caça aos prints", publicou algumas das solicitações recebidas. Os pedidos, em sua maioria, teriam sido feitos pela Rede Globo, com menções a noticiários nacionais como o Jornal Hoje, locais como o SP2 e o RJ2, além de novelas como Belíssima, Segundo Sol e Orgulho e Paixão.

O Canaltech também teve acesso a outros registros do tipo que, inclusive, chegam a citar executivos de alto escalão das emissoras de televisão. Uma solicitação feita pela Bandeirantes, por exemplo, é atribuída a André Aguera, vice-presidente da rede, enquanto Antonio Sabadine, analista de segurança sênior da Rede Globo, aparece como autor de algumas das solicitações supostamente feitas pelo canal.

A equipe do Reality Social lamentou a retirada de conteúdo, que acaba servindo também como divulgação para as próprias emissoras. “Elas têm todo o direito de reivindicar suas obras, mas acredito que cabe o bom senso nessas situações. [Os canais] acabam perdendo popularidade na rede e ganhando a antipatia dos usuários”, completou, esperando que o caso se resolva de forma a manter o bom relacionamento entre ambos os lados.

O problema é que, falando ao Canaltech, a Rede Globo negou ter sido a autora dos pedidos de remoção de conteúdo. Em comunicado também postado nas redes sociais, a empresa afirma ter um profundo respeito por seus fãs e também pela maneira como se relacionam com a programação. “[A emissora] trabalha todos os dias para que essa saudável dinâmica conviva com seus compromisso de defesa dos direitos autorais e de combate à pirataria”, completou.

Falha sistêmica

Antes mesmo da negativa do canal, entretanto, alguns dos atingidos pelos pedidos já desconfiavam de que havia algo de errado. Sabadine, por exemplo, seria do Rio de Janeiro, mas o endereço usado para solicitação é de São Paulo. No caso da RedeTV!, os conteúdos removidos são do programa Denúncia Urgente, cujo apresentador, Edie Polo, teria incentivado a produção de prints e memes com as imagens.

Sacramento também falou de suas suspeitas relacionadas principalmente ao pedido de remoção supostamente feito pela FIFA. “Não citei hashtags, não mencionei a Copa nem falei nome de país, jogador ou emissora. Não havia nada que pudesse identificar [a postagem], era só meme”, explicou

A suspeita de que havia algo esquisito acontecendo se provou verdade ainda na tarde desta quinta-feira (21), quando o caso começou a tomar proporções maiores e sair na imprensa. O sistema de solicitações de remoção de conteúdo no Twitter se mostrou suscetível a pedidos falsos que podem, literalmente, serem feitos por qualquer um, sem nenhum tipo de autenticação de que o responsável realmente é quem afirma ser.

O Canaltech alertou a existência dessa brecha para a assessoria de imprensa do Twitter, mas foi Sacramento quem colocou o sistema à prova, solicitando a retirada de conteúdo de duas contas conhecidas. Ambas as solicitações foram atendidas pela rede social em menos de uma hora, mesmo com a utilização de nomes e endereços falsos e até contendo piadas, com o usuário, obviamente, não possuindo qualquer tipo de direito autoral sobre o material removido.

A suspeita é de que alguém mal-intencionado estaria usando a ferramenta para atacar perfis específicos ou, quem sabe, tentar obter acesso a dados pessoais dos usuários, uma vez que contranotificações exigem o envio de informações como nome completo, endereço, e-mail e telefone. Os recursos são compartilhados com os autores originais dos pedidos para que possam ser analisados.

Porém, como estamos falando de memes e capturas de cenas engraçadas ou constrangedoras da televisão, é claro que a rede de microblogs não perdeu seu peculiar bom humor. Mesmo enquanto os autores de capturas temiam por uma suspensão e viam perfis de amigos saindo do ar, a produção de piadas continuava a pleno vapor.

Emissoras da concorrência também aproveitaram a onda para dar uma cutucada nas rivais. A Record, por exemplo, pediu que os usuários não apenas tirassem prints da programação, mas também marcassem o canal nas redes sociais. Já a VTV, afiliada do SBT em Campinas e na Baixada Santista, usou a imagem de Silvio Santos para mostrar aos tuiteiros que as capturas de tela estavam liberadas.

Em contato com o Canaltech, o Twitter apenas enviou links da política de direitos autorais e do formulário de registro de solicitações para retirada de conteúdo, ambos disponíveis publicamente na internet. A empresa foi informada pela reportagem sobre a possível brecha em seu sistema de pedidos desse tipo e também sobre os perfis suspensos por conta da remoção de prints, mas não fez comentários adicionais sobre o assunto.

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