Facebook é acusado de interferência na política e inércia contra fake news

Facebook é acusado de interferência na política e inércia contra fake news

Por Felipe Demartini | 17 de Setembro de 2020 às 11h03
Slashgear

“Nos três anos em que trabalhei no Facebook, presenciei diversas tentativas claras de governos internacionais para abusarem da plataforma e desinformar sua própria população”. As palavras fortes fazem parte de um documento extenso escrito por Sophie Zhang, ex-cientista de dados da rede social, que expôs as mecânicas internas de moderação contra campanhas de fake news na plataforma, bem como a inação da companhia diante de operações flagrantes dessa categoria em diferentes países.

O texto foi publicado em uma ferramenta interna da companhia, mas acabou sendo obtido e postado pelo site Buzzfeed News. Na publicação, Zhang acusa o Facebook de trabalhar com foco na própria imagem pública, de forma a evitar eventuais problemas ainda que isso signifique não agir diante de flagrantes violações dos direitos civis ou manipulação política. Isso aconteceria em escala internacional, afirmou, com direito a atitudes (ou não) sendo tomadas em diferentes países de acordo com os interesses dos EUA ou de países ocidentais nos quais a plataforma está presente.

O documento traz diversos exemplos desse tipo e também faz um mea culpa, com a cientista de dados afirmando que, quando a decisão de tomar uma atitude ou manter a neutralidade não vinha de um superior ou membro de alto escalão do Facebook, cabia a ela escolher o que fazer. Zhang afirma que sente como se tivesse sangue nas mãos e que essa pressão causou danos psicológicos severos, que não foram atendidos pela rede social. Pelo contrário, ela afirma ter recebido a orientação para que parasse de focar em “trabalhos civis”, senão seria demitida da empresa, algo que efetivamente aconteceu há algumas semanas.

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Zhang cita diferentes exemplos em que ações foram tomadas ou não pela rede social ou não, todos envolvendo interferência política ou relacionados a eleições vindouras. Em um dos casos mais marcantes para a ex-funcionária, o Facebook teria levado nove meses para agir contra uma campanha de fake news criada para aumentar a popularidade do presidente de Honduras, Juan Orlando Hernandez. Após as atitudes, que envolveram banimentos, os fakes voltaram a agir, mas nada foi feito em relação a essa segunda onda. A campanha foi considerada parte integrante de uma eleição que, em 2018, o elegeu para um segundo mandato, e foi considerada fraudulenta por organizações internacionais.

Outros exemplos envolvem uma campanha coordenada para ameaçar e hostilizar a oposição ao governo do Azerbaijão, cujas atitudes vieram apenas um ano após a identificação do esquema, e a descoberta de uma rede de milhares de perfis e grupos no Facebook para manipular as eleições de Nova Deli, capital da Índia. Em um dos casos onde nenhuma atitude foi tomada, movimentações online tentavam minar o presidente boliviano Evo Morales em prol do candidato da oposição, Carlos Mesa. Zhang associa a situação aos posteriores protestos que tomaram o país, resultando em dezenas de mortos e na renúncia do político — este é uma das ocorrências em que a decisão ficou a cargo de Zhang, que disse não ter feito nada a respeito.

Por outro lado, a cientista de dados também cita atitudes robustas do Facebook diante de casos desse tipo, como a remoção de mais de 10,5 milhões de usuários, grupos de disseminação de fake news e até reações falsas relacionadas às campanhas políticas de 2018 nos Estados Unidos e no Brasil. Em ocorrências mais recentes, 672 mil contas teriam sido banidas por fazerem parte de um esquema para disseminar desinformação sobre a pandemia do coronavírus entre cidadãos americanos e espanhóis, envolvendo até mesmo postagens nas páginas de órgãos oficiais que motivaram pedidos para que a plataforma tomasse uma atitude.

Zhang afirmou publicar frequentemente sobre as descobertas em uma rede interna dos colaboradores do Facebook, já que contatos diretos com a gerência, muitas vezes, não geravam resultados. A cientista de dados disse ter se recusado a assinar um acordo de confidencialidade ao ser demitida, o que também fez com que ela deixasse de receber US$ 64 mil em acordos pela dispensa, para que a carta fosse liberada ao público e, principalmente, aos antigos colegas de trabalho que ainda estão envolvidos na moderação e análise do fluxo de postagens da rede social.

Em resposta, a diretora de comunicação do Facebook, Liz Bourgeois, afirmou que agir contra o que chamou de “comportamentos inautênticos coordenados” é a prioridade da rede social, bem como questões envolvendo spam e engajamento falso. A executiva citou que, desde a criação de times especializados para lidar com operações desse tipo, mais de 100 redes do tipo foram desbaratinadas e deixaram de operar.

Sobre as declarações específicas de Zhang, Bourgeois afirmou que todas as questões levantadas pelos funcionários destas áreas são analisadas cuidadosamente antes que qualquer atitude seja tomada ou o Facebook se pronuncie publicamente. A diretora de comunicações disse, ainda, que o time de moderação conta com especialistas no assunto, que se dedicam em tempo real a um trabalho que exige muito deles.

Fonte: BuzzFeed News  

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