Especialistas em dados analisam o poder dos algoritmos do Facebook

Por Redação | 31.05.2017 às 12:39

Não é nenhuma novidade que o Facebook armazena uma quantidade gigantesca de informações dos usuários (mesmo aquelas que ele não forneceu intencionalmente, como hábitos online, por exemplo). Com tanto poder em suas mãos, a companhia hoje é uma das mais influentes do mundo. Então a Share Lab, empresa que realiza pesquisas e mapeamento de dados, decidiu analisar os algoritmos e conexões da rede social para compreender melhor como tudo isso funciona.

O grupo de especialistas em análises forenses cibernéticas, baseado na Sérvia, acredita que “se o Facebook fosse um país, seria maior do que a China”. Vladan Joler, membro da equipe e professor da Universidade Novi Sad, declarou que a empresa de Mark Zuckerberg armazena 300 petabytes de dados, possuindo quase dois bilhões de usuários e arrecadando quase US$ 28 bilhões somente em 2016.

No entanto, mesmo que o Facebook hoje seja uma das companhias mais poderosas do globo, conhecemos muito pouco sobre o que acontece lá dentro, ainda que sejamos nós (usuários do serviço) os principais fornecedores das informações que mantêm a empresa funcionando. “Todos nós, quando fazemos algum upload, quando marcamos as pessoas em nossas postagens, quando comentamos, estamos basicamente trabalhando para o Facebook”, disse.

Para Joler, as informações geradas a partir de nossas interações são as que alimentam os algoritmos que fazem a rede social funcionar; portanto, nosso comportamento acaba sendo transformado em seu principal produto.

Desvendando o processo

O pessoal da Share Lab começou a tentar desvendar esse processo todo, o que acabou sendo uma tarefa bastante árdua. “Nós tentamos mapear todos os campos e ferramentas que nos fazem interagir e alimentar o Facebook, e o que resulta disso”, explicou o especialista, que, em conjunto com sua equipe, mapeou “curtidas, compartilhamentos, atualizações de status, adição de fotos, amigos, nomes, tudo o que as ferramentas dizem sobre nós, todas as permissões que damos ao Facebook via aplicativos, como status do telefone, conexão Wi-Fi e habilidades de gravar áudio”.

Apesar de ter se tratado de uma pesquisa extremamente intensa, os resultados obtidos representaram apenas uma fração do todo. Então o grupo decidiu pesquisar as aquisições feitas pelo Facebook e vasculhar todas as suas patentes registradas. A equipe descobriu, então, como os dados que muitas vezes fornecemos à rede social de maneira ingênua são usados para calcular a nossa afinidade étnica, orientação sexual, afiliação política, classe social, agendamento de viagens e muitos outros fatores da nossa vida pessoal.

Trecho do mapeamento de fluxo do Facebook (Reprodução: Share Lab)

Um dos mapas gerados pelos experts mostrou como absolutamente tudo o que fazemos enquanto estamos conectados ao Facebook pode estar alimentando um processo algorítmico sem precedentes. E esse “tudo” inclui não somente o que fazemos lá dentro da rede social, como também o uso de apps de propriedade da empresa, como Instagram e WhatsApp, e sites e serviços online que usam o Facebook como login. Dessa forma, a empresa consegue saber, com precisão, nossos gostos alimentares, quanto tempo levamos para percorrer o trecho de casa ao trabalho, a idade de nossos filhos, e muitas outras informações que deveriam ser privadas.

E por falar em privacidade…

Os especialistas sérvios também analisaram as permissões que nós acabamos fornecendo ao Facebook por meio de aplicativos de terceiros, incluindo muitos que podem acessar nossas mensagens de texto, fazer o download de arquivos sem permissão e identificar nossa localização. “Se você pensa somente nos cookies, somente nas permissões do celular, ou só na retenção de metadata, cada uma dessas coisas é muito intrusiva”, declarou Joler.

Ainda assim, a rede social afirma que a privacidade desses dados e a segurança dos usuários é um de seus pilares, sendo que essas informações não podem ser usadas por desenvolvedores para criar ferramentas. A empresa ressalta que obedece às leis de proteção de privacidade vigentes em todos os países onde funciona, contratando milhares de novos funcionários justamente para que trabalhem em prol da privacidade de seus usuários.

No entanto, Joler alerta para os riscos dessa exposição a longo prazo. Apesar de não divulgá-los, esses dados seguirão sob o poder do Facebook. Ou seja: como assegurar que nossas informações seguirão protegidas dentro de algumas décadas?

Mas e o que fazer?

Já que, a partir do momento em que aceitamos os termos de serviço da rede social, estamos fornecendo tantos dados para a empresa, o que fazer? A solução seria abandonar o uso da ferramenta, que, atualmente, já se tornou indispensável para muitas pessoas (inclusive profissionalmente)?

Para Julia Powles, especialista em leis e políticas de tecnologia da Cornell Tech, o Facebook “brinca com nossos impulsos psicológicos básicos” a partir do momento em que valoriza a popularidade acima de qualquer outra coisa. Mas Powles não espera que pesquisas como essa do Share Lab sejam o suficiente para causar um êxodo massivo do Facebook.

“O que é mais impressionante é o senso de resignação, a importância da regulação, a falta de opção, a apatia do público”, acredita. Talvez a melhor saída, aqui, seja se preocupar cada vez mais com a proteção de suas informações, não fornecer acesso a seu perfil na rede social para todo e qualquer serviço de quiz e joguinhos por aí, e pensar duas vezes antes de compartilhar uma foto com a geolocalização ativada, entre outras medidas que podem ajudar o usuário a preservar um pouquinho mais a sua vida, não fazendo com que ela seja um livro tão aberto para os algoritmos da maior rede social do mundo.

Fonte: BBC