Campanha de Trump usou dados de 50 milhões de usuários do Facebook

Por Felipe Demartini | 19 de Março de 2018 às 10h45
photo_camera Bloomberg

O Facebook, mais uma vez, se vê em meio a uma polêmica relacionada à manipulação de opinião pública durante a eleição presidencial americana de 2016. No final de semana, a rede social anunciou a suspensão de contas relacionadas a uma firma de análise de dados chamada Cambridge Analytica, que teria usado, sem autorização, os dados de 50 milhões de usuários em campanhas de publicidade.

No centro da questão está Christopher Wylie, marqueteiro americano que criou o que chamou de uma verdadeira ferramenta de “guerra psicológica”, voltada para o uso de dados e da força das redes sociais para manipular a opinião pública. Seus dois maiores cases de sucesso foram a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos e a campanha para que o Reino Unido deixasse a União Europeia, decidida por referendo realizado no mesmo ano.

Wylie vazou documentos e deu entrevistas que foram publicadas na imprensa internacional no último final de semana, revelando os bastidores de um sistema criado especificamente para fins políticos. Da mesma forma, seus objetivos eram bem específicos: criar uma série de perfis de personalidade para os usuários da rede social, de forma que os anúncios exibidos a eles fossem certeiros e mexessem com características bem específicas.

Foi assim que nasceu o ThisisYourDigitalLife, um quiz como tantos outros que vemos na rede social. Ele fazia perguntas e gerava pontos com base em critérios de personalidade, entregando um total de pontos que podia ser postado no Facebook, junto com um convite para que outros fizessem o mesmo. Em troca, claro, as informações de perfis precisavam ser acessadas, o que incluía a lista de amigos e contatos adicionados.

E é aqui que entra o motivo que levou a plataforma a banir a Cambrydge Analytica e sua empresa-mãe, a SCL Strategic Communication. De acordo com o Facebook, as companhias romperam os termos de uso da plataforma ao utilizarem informações de seus usuários contra o consentimento deles e, por isso, não mais poderiam ter qualquer presença na rede social, seja para compra de anúncios ou gerenciamento de páginas.

Christopher Wylie foi um dos responsáveis pela criação da Cambridge Analytica e, agora, por revelar seus métodos para o mundo (Foto: The Guardian)

Wylie se defende afirmando não ter feito nada de ilegal, mas sim se aproveitado de uma brecha nos próprios sistemas do Facebook. Antes de mudanças realizadas em 2015, ao dar autorização para que um aplicativo utilizasse suas informações, o usuário também permitia que o mesmo fosse feito com seus amigos. Foi assim que as 270 mil pessoas que utilizaram o ThisisYourDigitalLife se transformaram em 50 milhões, com mesmo aqueles que não realizaram o quiz tendo perfis criados a partir de históricos de uso, interesses e outros critérios.

O Facebook teria descoberto a questão em 2015 e pedido que as empresas deletassem os dados, sem verificar se isso realmente aconteceu quando a resposta foi positiva. Apenas agora, por meio dos relatos publicados na imprensa internacional, soube que os dados de seus usuários continuavam sendo usados de forma irregular, o que levou à suspensão das contas relacionadas à manipulação, mas também à abertura de novas investigações sobre a rede social por parte de autoridade americanas e europeias.

Reflexo no Brasil

Os mesmos métodos usados pela campanha de Trump seriam aplicados também no Brasil para as eleições presidenciais de 2018. André Torreta, marqueteiro político e sócio de uma empresa chamada Ponte CA, que serve como sócia da Cambrydge Analytica no Brasil, revelou o fim da parceria neste final de semana, também após as revelações feitas na Europa e Estados Unidos.

Originalmente, ao anunciar que os métodos seriam aplicados por aqui, ele não revelou a serviço de qual candidato trabalharia, com essa informação permanecendo em sigilo. Agora, por meio de assessoria de imprensa, afirma que o uso dos métodos será suspenso até que a situação seja esclarecida, não descartando o retorno de uma parceria no futuro.

Velhos conhecidos

Perfis psicológicos criados a partir do Facebook teriam sido fundamentais na eleição de Trump (Foto: Divulgação)

A existência da Cambrydge Analytica, de Wylie e de outros envolvidos na questão não é necessariamente uma novidade. Eles já participaram de inquéritos nos EUA sobre a influência das fake news sobre a opinião pública americana e o uso de dados de redes sociais no que chamam de “guerra psicológica”. Outros nomes de peso também estão envolvidos, como Steve Bannon, responsável pelo site de extrema-direita Breitbart, e Robert Mercer, bilionário americano com fortes ligações ao partido republicano.

As pesquisas que levaram à coleta de dados também não são recentes — pelo contrário, sua história começa em 2007, quando dois psicólogos, Michal Kosinski e David Stillwell, começaram a estudar como grandes volumes de dados obtidos a partir de redes online poderiam ser usados para criar perfis de personalidade. O ThisisYourDigitalLife, inclusive, não foi o primeiro quiz criado com essa finalidade, apenas o mais bem-sucedido e responsável pela criação do maior número de perfis.

O trabalho deu origem a Global Science Research (GSR), cujas ferramentas chegaram a ser apresentadas também para setores militares e da comunidade de inteligência dos EUA, como o Pentágono e a CIA. Alguns contratos governamentais desse tipo foram obtidos e eram cumpridos em paralelo ao trabalho da empresa nos setores de marketing, que levaram à parceria com a Cambrydge Analytica e ao escândalo, agora, detonado.

Enquanto inquéritos e investigações ainda começam a entender o que aconteceu, os primeiros reflexos da polêmica já estão sendo sentidos no mercado. Nesta segunda-feira (19), as ações do Facebook apresentam queda de 3% antes mesmo do início das negociações, um reflexo do tapa na confiabilidade que a companhia sofreu.

Entretanto, em suas declarações, a empresa foi rápida em afirmar que nenhum tipo de dado dos usuários foi roubado e que todos os perfis usados na campanha política foram obtidos a partir de informações públicas de seus utilizadores. A rede social também negou a acusação de que não havia consentimento por parte dos perfilados, mais uma vez citando que os dados estavam disponíveis de forma aberta, pelas mãos dos próprios, na plataforma.

A Cambrydge Analytica também negou ter violado os termos de uso da plataforma. A empresa afirma ter utilizado a rede social para fins de publicidade e que não armazena informações de perfis nem as obteve de maneira ilícita. A empresa também transferiu um pouco da responsabilidade para a GSR, afirmando ter trabalhado com ela em projetos de pesquisa, sob o pretexto de que todos os dados seriam conseguidos de maneira ética e regular.

Fonte: The Guardian, The New York Times, El Pais

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