Brasileiro ganhava salário mínimo para moderar posts denunciados no Facebook

Por Redação | 08 de Novembro de 2017 às 16h16
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O Facebook conta com algoritmos inteligentes para tentar barrar determinados conteúdos considerados violentos ou incabíveis em sua plataforma, mas somente a tecnologia não é capaz de fazer uma análise profunda e válida desse tipo de conteúdo indevido. Muita gente não sabe, mas existem pessoas que são contratadas pela rede social justamente com essa função: a de moderar denúncias de publicações abusivas. E um brasileiro contou tudo à BBC sobre como foi infernal o ano em que, recebendo um salário mínimo, precisava lidar com situações para lá de chocantes.

Chamado de Sérgio, pois não quis ser identificado pela reportagem, ele contou que trabalhava de segunda a sexta-feira em um período de oito horas lidando com cenas fortes como animais sendo incendiados enquanto vivos, abusos sexuais com adolescentes, bebês sofrendo violência e suicídios. Depois que decidiu abandonar a função de revisor de denúncias no Facebook, Sérgio contou que acabou se tornando uma pessoa mais fria e insensível na vida offline.

Entre suas atividades, estavam, ainda, assistir a transmissões de vídeo ao vivo para checar se alguém estaria prestes a se matar, e precisava tomar decisões rápidas para evitar qualquer tragédia. De acordo com Sérgio, a meta para cada revisor era de avaliar 3.500 publicações denunciadas por dia, o que significa mais de 7 por minuto, ou uma a cada 8,5 segundos. Por isso, há tantas denúncias que acabam não sendo validadas em tempo, pois, segundo o ex-moderador, é "impossível não ter erro humano nesse ritmo".

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Condições de trabalho dignas de um call center

O brasileiro revelou, ainda, detalhes de como a rotina de seu trabalho no escritório do Facebook era similar à de um call center terceirizado. Além de ser exigida uma frieza psicológica quase que robótica, a empresa de Mark Zuckerberg proíbe que seus quase 500 moderadores usem aparelhos de celular durante o trabalho, e as pausas para alimentação e uso de banheiros são monitoradas, sendo que os contratos de trabalho preveem multas e processos judiciais no caso de vazamento de informações.

Sérgio contou, ainda, que em seu trabalho era possível visualizar o nome do autor das publicações denunciadas, não tendo acesso a seus perfis completos. Sua missão era, basicamente, apagar, ignorar ou encaminhar a publicação às autoridades, como acontece em casos onde há crimes de pedofilia, por exemplo, ou suicídios. Essas decisões tomadas por humanos serviam para "educar" os algoritmos e, segundo o ex-revisor, "quanto mais ensinávamos o algoritmo, menos nos tornávamos necessários. Nosso trabalho era tornar o nosso trabalho obsoleto".

Ainda, para conseguir bater a meta de aproximadamente 1 revisão a cada 10 segundos, havia uma pressão extrema por parte dos supervisores. Segundo Sérgio, os chefes "diziam sempre que a continuidade de nossos empregos dependia do batimento das metas diárias, e citavam outros lugares com resultados melhores do que os nossos".

Consequências psicológicas

Sérgio também falou sobre as consequências psicológicas de se trabalhar com imagens tão sensíveis, com tanta pressão ao mesmo tempo. Distúrbios de ansiedade e pânico, além de problemas sexuais foram relatados em outros moderadores de conteúdos denunciados no Facebook, mas o brasileiro revelou que, "porque nasci no Brasil, e nossas referências sobre violência tendem a ser mais agressivas do que as de colegas europeus", acabou não se afetando tanto assim quanto outros colegas.

Ainda assim, os traumas ao longo de um ano de trabalho levaram o brasileiro a abandonar o trabalho, e, até mesmo, a apagar seu perfil no Facebook. Ele tomou essa decisão "para não ficar preso nas bolhas, nas câmaras de eco onde as pessoas só ouvem as próprias vozes e as de quem concorda com elas", preferindo se isolar. "Eu não queria me tornar uma daquelas pessoas que apareciam nas denúncias", completou.

A reportagem da BBC procurou o Facebook na terça-feira (7) para ouvir seu contraponto, mas a rede social respondeu que não comentaria os relatos do ex-funcionário.

Fonte: BBC

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