Publicidade online, bloqueadores e a batalha entre criadores e usuários

Por Felipe Demartini | 14 de Outubro de 2015 às 15h35

Uma guerra velada e pouco comentada acontece neste exato momento entre empresas e muitos de seus usuários. Por meio de vídeos no YouTube, textos ou simplesmente de forma silenciosa, publicadores de conteúdo e criadores de vídeos criticam a utilização de bloqueadores de anúncios, que se tornam cada vez mais populares entre os usuários como uma forma de tornar a navegação online mais rápida, segura e menos poluída.

Em seu cerne, a ideia é simples. Como nos velhos tempos dos pop-ups em sites, ninguém quer acessar veículos que, ao exibir o conteúdo, muitas vezes colocam uma propaganda intrusiva na frente. Esperar cinco segundos até o início daquele clipe engraçado no YouTube pode parecer um martírio, enquanto passar o mouse sobre o elemento errado na tela leva, sem querer, a uma outra página. São dificuldades que, para muitos, não deveriam existir, e é aí que entram as soluções como os bloqueadores de anúncios.

Por meio de extensões para navegadores e, mais recentemente, também aplicativos para celulares, os softwares desse tipo são capazes de impedir a exibição de propagandas. O resultado é uma página mais limpa, com menos elementos para serem carregados e nenhuma intromissão entre o usuário e o conteúdo que ele deseja ver.

Parece uma ótima solução, não fosse o outro lado dessa moeda. Sem a exibição de anúncios, os produtores de conteúdo não recebem. Muitos dependem disso para continuar fazendo o trabalho que você tanto gosta e é por isso que eles colocam propagandas lado a lado com o conteúdo. Os bloqueadores, então, cortam essa receita e acabam tornando a vida de todos mais difícil.

É aí que entra a Teads, uma empresa que gerencia uma plataforma de monetização para produtores de conteúdo, e sua campanha “A publicidade importa”. A ideia, aqui, é trabalhar com a informação para mostrar aos usuários o que significa aquele box de propaganda ao lado do texto ou o clipe no início de um vídeo e de que forma ele ajuda criadores a crescerem e receberem por seus trabalhos.

O fim do mundo, ou não

A iniciativa começa em um tom meio apocalíptico. Com um vídeo, a companhia exibe como seria um mundo sem publicidade, afirmando veementemente que, sem as propagandas, muitas das coisas que o usuário ama não existiriam. A fachada da famosa Times Square, por exemplo, mudaria muito sem os vídeos de anúncios que passam sempre por lá, enquanto as entradas de cinema também ficariam muito mais sem graça, pois não saberíamos exatamente o que está sendo exibido lá dentro.

Na visão da companhia, um mundo sem publicidade não apenas é um local sem escolha, mas também sem informação. O fim das propagandas poderia significar a extinção iminente da mídia em si, uma vez que muitas das empresas do ramo, desde as grandes corporações da televisão até os menores blogs de conteúdo, dependem delas para sobreviver.

Algumas iniciativas já tentaram mudar essa dinâmica, como é o caso do Patreon, por exemplo, que permite que criadores recorram diretamente aos fãs para monetização de seu conteúdo. Um valor determinado por eles é pago todos os meses, como um salário, daí o nome do serviço, “patrão”, em inglês. É uma boa proposta, mas que acaba não funcionando para todos e gerando o fogo cruzado entre criadores e usuários do qual estamos falando.

Para evitar o fim da falta de informação, a Teads aposta justamente no conteúdo. Segundo números obtidos pela própria companhia, 68% dos consumidores subestimam a importância das receitas de publicidade para os sites da mídia. Justamente mudar essa noção é o objetivo da campanha, que conta com um manifesto online e um site oficial – sem anúncios –, com informações e dicas sobre como trabalhar melhor toda essa questão.

Todos juntos, de mãos dadas

A companhia, porém, vai além. Para ela, os usuários não odeiam a publicidade em si, e sim os tipos invasivos e desrespeitosos. Propagandas que pulam na frente do texto que está sendo lido, redirecionamentos para outros sites e até mesmo propostas pouco direcionadas são o alvo e o principal motivo para a existência de bloqueadores e outras soluções do tipo.

Publicidade online

O uso de extensões desse tipo, então, acaba constituindo mais uma forma de acabar com a frustração do que de, efetivamente, minar as receitas dos criadores de conteúdo. A Teads entende que nenhum dos usuários quer, ativamente, acabar com os ganhos de seus produtores preferidos, mas sim melhorar a própria experiência online.

Números corroboram essa afirmação. De acordo com pesquisa da TubeMogul, 66% dos usuários de internet deixam uma página em dois segundos caso sejam submetidos a uma propaganda que bloqueia o conteúdo a ser visualizado. Outros 74% afirmam que isso arruína completamente a experiência online. Entretanto, 64% dos internautas afirmam que seriam mais simpáticos a anúncios, principalmente em vídeo, caso eles fossem menos invasivos e relevantes.

É justamente por isso que eles enxergam os bloqueadores de anúncios como um aliado, por bloquearem as propagandas invasivas e deixarem apenas o que interessa. A questão é que, muitas vezes, as propagandas também podem interessar e resolver esse imbróglio é o ideal da Teads.

Outra prova disso é que até mesmo soluções como o próprio Adblock, o maior serviço do tipo, também depende de propagandas para sobreviver. A empresa, recentemente vendida para um grupo desconhecido, criou uma iniciativa em que propagandas “confiáveis” podem ser exibidas mesmo que o usuário esteja utilizando a solução. Assim, empresas podem pagar para terem suas publicidades mostradas e parte da receita é dividida com a equipe do bloqueador, em uma iniciativa que soou um tanto quanto desonesta para muita gente.

O caminho a seguir

Estratégias mobile

Por mais que a campanha tenha os próprios usuários como um dos focos, o principal ponto dela são as maneiras de tornar todo o ambiente mais agradável. E aqui o grande foco recai sobre os criadores de conteúdo, que devem utilizar melhores práticas para garantir que a publicidade não entre no caminho de uma boa experiência online. As medidas para isso estão em plena vista, de forma que tanto os produtores possam ficar sabendo quanto os usuários consigam cobrar mudanças e observar exatamente como seria a forma ideal de exibição de propagandas.

Para atingir o que a Teads chama de “anúncios sustentáveis”, estes são os passos:

  • Evitar pop-ups e anúncios que bloqueiem conteúdo;
  • Preferir formatos opt-in, que são exibidos na íntegra caso o usuário se interesse por eles;
  • Limite o número de propagandas na página e saiba posicioná-las de maneira estratégica;
  • Trabalhe com anúncios contextuais de forma a melhorar sua relevância;
  • Adapte a extensão de vídeos de acordo com o dispositivo usado para visualização;
  • Tenha o uso de aparelhos mobile como o principal método de acesso;
  • Use áudio de maneira estratégica, sem ensurdecer usuários ou autoplays;
  • Colete dados de maneira responsável;
  • Utilize campanhas leves e de fácil carregamento, principalmente em páginas voltadas para acesso pelo celular;
  • Otimize a campanha de publicidade usando métodos de engajamento e que propiciem visualizações.

Resta, agora, esperar que tais práticas realmente sejam adotadas e que um cessar fogo comece o mais rápido possível. Senão, não chegaremos ao mundo visualizado pela Teads, mas a dificuldade de se obter receitas com publicidade pode sim significar o apocalipse para muitos criadores de conteúdo ou empresas menores.

Fique por dentro do mundo da tecnologia!

Inscreva-se em nossa newsletter e receba diariamente as notícias por e-mail.