Bloqueadores de anúncios e sua relação com o mundo da publicidade

Por Felipe Demartini | 03 de Março de 2016 às 09h19

Antes utilizados apenas por usuários de PCs, os bloqueadores de anúncios chegaram recentemente também ao iOS para desespero dos criadores de conteúdo e anunciantes, e alegria dos usuários que querem uma navegação mais rápida e limpa. Com isso, claro, aumentou a popularidade desse tipo de solução e também a polêmica, na medida em que softwares do tipo interferem nos negócios alheios, ao mesmo tempo em que se constituem como tal.

Já falamos aqui no Canaltech sobre esse tema e a relação de simbiose entre anunciantes e criadores de conteúdo. Um depende do outro para sobreviver – a publicidade que você vê ao lado do site que acessa é o que, na maioria das vezes, o mantém vivo. Na mesma medida, agências precisam dos veículos para passarem suas mensagens adiante por meio das propagandas. E os bloqueadores entram no meio dessa relação, agindo, muitas vezes, em prol do usuário.

Em muitos casos, isso é bem verdade. Dá para citar nesse quesito, por exemplo, o Privacy Badger, operado pela Electronic Frontier Foundation, uma organização sem fins lucrativos que trabalha em prol da privacidade na internet. O bloqueador trabalha impedindo a exibição do que chama de “anúncios não-consensuais”, aqueles que se escondem por trás de links, por exemplo, ou que saltam na tela durante o consumo do conteúdo. A EFF não cobra pelo download, mas aceita doações e ajuda de programadores para manter o projeto vivo.

Do outro lado, e no centro de toda a discussão, está o popular Adblock Plus, um dos bloqueadores mais utilizados da web. Ele trabalha removendo praticamente todos os anúncios de uma página, em prol de, também, acabar com a invasão deles enquanto o usuário está acessando um conteúdo. Propagandas pré-vídeos no YouTube também desaparecem, assim como banners e outras caixas que possam estar nos sites visitados.

Adblock

Ele também é gratuito para o usuário, funcionando a partir de extensões para navegadores. Entretanto, no outro lado dessa cadeia está, efetivamente, um negócio que vem arrecadando milhões de dólares com o que os desenvolvedores do Adblock Plus chamam de “lista branca”. Nem todos os anúncios são bloqueados pela ferramenta. Em teoria, ela impede a exibição apenas daqueles que são intrusivos. Na prática, entretanto, anunciantes precisam pagar para terem suas propagandas exibidas.

Empresas como Amazon, Microsoft e Google já participaram do que a empresa chama de “programa de anúncios aceitáveis”. Isso acontece de diversas maneiras, seja dividindo a receita de sua publicidade com os desenvolvedores do Adblock Plus ou efetivamente pagando valores em dinheiro para terem seus comerciais liberados.

Aqui está um dos tantos pontos de polêmica, já que, para muitos criadores, a prática está gerando um mercado predatório para os pequenos, que simplesmente não possuem ganhos suficientes para uma divisão interessante, nem recursos para pagarem valores fixos. Para uma boa parcela deles, trata-se de um brinquedo no qual apenas as grandes companhias podem andar, enquanto os menores observam cada vez mais de longe.

Questões de privacidade

A ética de toda a questão também entra em jogo aqui, e cada vez mais vem sendo questionada. Sistemas como o Ghostery, por exemplo, falam de si próprios como diferentes de seu principal concorrente por, efetivamente, bloquear todos os anúncios. A companhia, entretanto, é monetizada por meio do rastreamento de dados de navegação, que acabam vendidos, sim, para agências de publicidade.

Todas as informações, claro, são anônimas, e a companhia garante que não é possível identificar nenhum de seus usuários. Para ela, é um preço justo a se pagar pela gratuidade de uma solução tão abrangente, e os utilizadores ainda possuem a opção de desativar a maioria do rastreamento. Navegar de forma completamente oculta, entretanto, não é possível utilizando o Ghostery, no que, para muitos especialistas, se trata de uma opção ainda pior que a exibição de comerciais intrusivos.

Privacidade

Para o Interactive Advertising Bureau, organização norte-americana que analisa o mercado de publicidade do país, em muitos casos soluções como estas poderiam ser consideradas como “extorsão”. Basicamente, as empresas estão trocando a liberdade de acesso à web por dados dos usuários ou pagamentos em dinheiro, em práticas que podem, até mesmo, resultar em processos na justiça.

Em resposta, entretanto, representantes do Adblock Plus já afirmaram que sua solução faz um trabalho de “limpeza da internet”. A companhia diz realizar um trabalho de moderação dentro de seu programa de anúncios aceitáveis, negando a inclusão de quem tem práticas consideradas nocivas, ao mesmo tempo em que ajuda determinadas companhias a recuperarem a renda perdida a partir de suas próprias práticas abusivas que levaram o usuário a baixar bloqueadores em primeiro lugar.

Opções e mudanças

Em meio a toda a controvérsia, entretanto, já começam a surgir caminhos alternativos que passam longe da publicidade intrusiva ou de uma grande quantidade de anúncios, ao mesmo tempo em que tentam trazer os usuários para mais perto dos criadores. São soluções de financiamento como o Patreon, por exemplo, que permitem que os próprios leitores contribuam com o conteúdo que curtem.

Outra opção que já está sendo adotada por cada vez mais sites são as assinaturas premium. Longe dos “paywalls” que marcaram a transição de meios impressos para a internet, contando o número de artigos que podem ser visualizados ou entregando apenas parte do conteúdo, essa nova modalidade aposta em vantagens. Entre elas estão uma navegação sem anúncios “oficial”, meios de contato mais diretos com os criadores de conteúdo e acesso antecipado a especiais como podcasts e vídeos.

Adblock

Até mesmo os bloqueadores de anúncios estão adotando esse tipo de prática. Nomes mais recentes como o Disconnect ou o 1Blocker, por exemplo, apostam em um modelo “freemium”, dando mais funções aos usuários pagantes ou permitindo uma maior customização de quais propagandas são bloqueadas. Já o Purify, para iOS, é, simplesmente, um aplicativo pago, custando US$ 1,99 na App Store e garantindo que o usuário vai poder “navegar em paz”.

São sistemas que, para muita gente, representam o futuro desse segmento, por mais que especialistas afirmem que processos judiciais são cada vez mais inevitáveis. Aqui, manobras legais podem ser feitas para incluírem até mesmo leis de direitos autorais, uma vez que os bloqueadores de anúncios realizam mudanças não autorizadas nos sites acessados, e gerando receita com isso.

Por outro lado, o furor pode representar apenas um momento de transição. Não há como discutir muito o fato de que os bloqueadores de anúncios somente existem para atender a uma demanda de usuários insatisfeitos com o atual estado dos anúncios exibidos na web. Encontrar um equilíbrio entre os interesses das empresas e do público pode acabar sendo a alternativa mais complexa, mas não há como discordar, também, que ela é a mais sadia e interessante no longo prazo. Como chegar até isso? Aí é que a coisa fica complicada de verdade.

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