iOS ou Android: quem ganha na acessibilidade?

Por Rafael Romer | 08.02.2013 às 07:30

Na área da tecnologia, todo o dia é dia de novidade: novos produtos e serviços surgem em uma velocidade impressionante e sempre trazem novidades para os consumidores. Mas a velocidade nem sempre é garantia de acesso para todos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 285 milhões de pessoas no planeta possuem hoje algum tipo de deficiência visual. No Brasil, dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia apontam que mais de 1,15 milhão possuem atualmente algum tipo de cegueira. Para essas pessoas, os dispositivos eletrônicos, em especial os smartphones que usamos no dia-a-dia podem não servem de muita coisa se não trouxerem opções de acessibilidade.

Os primeiros celulares acessíveis chegaram ao mercado através da Nokia, ainda no auge do sistema operacional Symbian da marca. Determinados modelos da empresa podiam receber o software Talks, produzido por dois engenheiros alemães e comprado pela americana Nuance Communications, especializada em tecnologias de conversão de texto para som. O software adicionava algumas funções de acessibilidade ao celular, como a leitura do conteúdo da tela, mas acabou defasado com a queda nas vendas da Nokia e com o fim do Symbian. “Na época, a Nokia era a maior fabricante de celulares do mundo e tinha aparelhos excelentes, era uma escolha lógica”, contra Robert Mortimer, coordenador de projetos do Laratec, o centro de tecnologia assistiva da Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, Laramara.

Desde 2008, a Laramara disponibilizou licenças do software Talks no Brasil através de uma parceria com o Banco Bradesco, mas o custo alto do produto, que saía por R$ 720, e a virtual “morte” do Symbian no mercado levou a associação a suspender a venda do Talks no ano passado. Hoje, a recomendação dada pela Laramara para quem procura um dispositivo é direta: o iPhone.

A grande mudança para usuários de celular com alguma deficiência visual veio com o lançamento do iPhone 3GS, da Apple, que trazia o programa de leitura de tela VoiceOver no dispositivo. O programa, que também está disponível nos dispositivos com o Mac OS X, foi o primeiro a trazer as configurações de acessibilidade de forma nativa. É possível, por exemplo, deslizar o dedo sobre a tela para passar por cima de ícones e ouvir as opções do celular. O programa também substitui o toque simples por um duplo toque, como o duplo clique do mouse, para abrir apps ou selecionar opções.

Para Beto Pereira, consultor técnico do Laratec e usuário do iPhone, hoje o dispositivo é o que oferece a mais completa acessibilidade ao cego. “A grande vantagem do iPhone é o desenho universal do produto, todos os dispositivos são iguais. Quando uma pessoa cega pega um iPhone 4, 4S, 5 ou um iPad, ela já sabe como usar”, explica. Há três anos Beto utiliza o iPhone 3GS, o seu primeiro dispositivo Apple. Antes de adquirir o iGadget, Beto também era um usuário de um Nokia com o software Talks. “Claro que houve uma fase de estranhamento, mas isso é normal”, conta.

Para o consultor, a principal vantagem do smartphone Apple é a quantidade de aplicativos disponíveis que substituem ferramentas do dia-a-dia, que antes representavam dificuldades para cegos. “Se eu quisesse um relógio que me falasse a hora, precisava gastar cerca de R$ 300, ou uma calculadora falante, de R$ 100 a R$ 300. Agora está tudo no iPhone”, afirma. A empresa também leva a melhor por ser a primeira a exigir opções de acessibilidade aos desenvolvedores que quisessem utilizar sua plataforma. O resultado é que grande parte dos apps disponíveis para o celular, mesmo aqueles que não são voltados diretamente para deficientes visuais, são acessíveis. “Eles foram um dos primeiros a perceberem o nicho de mercado que existia. O cego quer rapidez, agilidade, desempenho, as mesmas coisas que pessoas sem deficiência”, afirma Beto.

Beto conta que já praticamente aposentou seu laptop e hoje já realiza quase todas suas atividades através do smartphone ou do iPad. Ele elogia também o sintetizador de voz fornecido pela Apple, completamente em português, mas admite que “sempre tem algo a melhorar”.

A Apple, entretanto, não consegue agradar a todos os consumidores e nem possui a única plataforma acessível no mercado. A resposta do Google para o VoiceOver veio pouco tempo depois, com o lançamento da API TalkBack, junto com Android 1.6, em 2009. O Talkback funciona de forma semelhante ao VoiceOver, lendo o conteúdo da tela e substituindo o toque simples por um duplo toque.

O usuário Kellerson Viana é uma das pessoas escolheu abandonar seu iPhone 3GS em prol de um Samsung Galaxy Y B5512, com Android 2.3, que traz uma junção de tela sensível ao toque com um teclado QWERTY. O motivo, entretanto, não envolveu diretamente a acessibilidade. “Eu estava cansado de ter que andar com dois celulares no bolso, e a Apple nunca ofereceu um celular de dois chips, por isso migrei para Samsung e para o Android”, conta. A troca de dois dispositivos – seu outro também era um Nokia E3 equipado com o Talks – aconteceu em junho do ano passado, mas o novo sistema já agrada Kellerson.

Motivado pela falta de informações sobre as opções de acessibilidade da plataforma Android na internet, Kellerson e dois amigos fundaram o Blog Talkdroid, onde postam dicas e tutoriais sobre a acessibilidade no sistema. Em pouco mais de três meses já foram mais de 90 postagens e um reforço de Portugal deve chegar à equipe em breve. “Ele vai ajudar com novidades que aparecerem na Europa, já que o mercado lá é muito mais avançado do que no Brasil”, conta.

Kellerson critica o iOS em alguns aspectos, como a impossibilidade de copiar contatos para a agenda, além de considerar o sistema menos intuitivo do que o Android. Outro dos pontos fracos da empresa, segundo ele, é o preço dos dispositivos. “Eu não queria ficar mais gastando dinheiro para ter um celular novo”, conta Kellerson.

Ele reconhece que o sintetizador de voz do TalkBack ainda deixa a desejar, a falta de suporte do assistente para o português também prejudica e a falta de listas e documentações em portguês na internet para se compreender o sistema é um problema. Além disso, o TalkBack só vem em versão nativa em produtos com Android 4.0 ou superior. Aparelhos mais antigos (com Android 3.2 ou menor) podem baixá-lo através do Google Play, em uma versão sem todas as funções disponíveis. Atualmente existem outros programas de voz disponíveis na loja de aplicativos do Google em português brasileiro, como o SVOX Br Luciana Voice, que custa R$ 6,16 e está disponível para dispositivos com Android 2.1 ou superior. “Nenhum sistema é 100%”, brinca.

Kellerson acredita no potencial de desenvolvimento das opções de acessibilidade no Android conforme o Google feche o sistema e passe a desempenhar maior controle sobre ele, como exigir opções de acessibilidade de seus desenvolvedores, como feito pela Apple. Segundo ele, muito dos problemas encontrados no Android vêm da fragmentação do OS, mas tendem a diminuir no futuro.

O Android deve ganhar mais um reforço em breve através de uma API desenvolvida no Reino Unido e apresentada em julho do ano passado. Apelidada de Georgie, em homenagem ao primeiro cão-guia da esposa do desenvolvedor, Roger Wilson-Hinds, a API transforma completamente a interface do sistema operacional do Google para uma versão otimizada para a pessoa com deficiência visual. O Georgie já traz opções como GPS e sistema de captação de texto através da câmera fotográfica, assim como a leitura de tela, mas ainda só está disponível em inglês e não tem previsão de chegada no Brasil. “A gente não sabe se ele vai além [do Android], se é melhor ou pior, precisamos testá-lo”, diz Robert Mortimer.

Independentemente das vantagens e desvantagens dos sistemas, Robert vê a competição entre Apple e Google de forma saudável e acredita que ela pode trazer ainda mais inovações para a área. “Não é bom que apenas uma empresa seja detentora da tecnologia. qualquer mudança na política da Apple poderia deixar as pessoas na mão”, afirma.