Apple tem ex-militares, policiais e agentes trabalhando para impedir vazamentos

Por Redação | 20 de Junho de 2017 às 13h27
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Quem acompanha o cotidiano da Apple sabe que vazamentos de informações, principalmente sobre novos aparelhos, são lugar comum. A ideia de que os eventos da Maçã são mais para confirmação de rumores do que efetivos anúncios permeia toda a imprensa, mas também é foco de grandes operações internas para a empresa de Cupertino. E ela leva isso muito a sério, chegando a contratar antigos militares ou oficiais de agências do Governo para tocar times internos de prevenção ao roubo de informações.

Ironicamente, o funcionamento dessas equipes foi revelado em uma série de documentos internos vazados na internet, fruto de uma apresentação feita a funcionários de alto escalão. Eles revelaram o esquema de prevenção de leaks em andamento tanto no próprio Campus de Cupertino – que a empresa cita como a principal fonte de informações não confirmadas no momento – quanto nos parceiros de fabricação na Ásia.

A ideia, afirmam os relatórios, é fazer com que o “one more thing”, o grandioso anúncio final feito no encerramento das conferências e uma tradição desde os tempos de Steve Jobs, seja efetivamente surpreendente. Mais do que proteger segredos da concorrência, a Apple deseja valorizar o trabalho de seus colaboradores, que se dedicam arduamente para a criação de novos produtos, um esforço que cai por terra sempre que uma notinha em um site revela uma das grandes surpresas da companhia.

O sistema de prevenção a vazamentos funciona como parte de um time de segurança global, que se divide em ramificações. A equipe de “segurança de novos produtos”, por exemplo, emprega ex-analistas de segurança da NSA, criptologistas da marinha norte-americana e advogados que já trabalharam para o procurador geral dos EUA. O foco deles está na linha de produção, de forma a impedir que componentes, chips, carcaças ou outros dispositivos físicos caiam nas mãos da imprensa ou da concorrência.

Eles sabem que, na China, há um grande mercado para isso. Indivíduos envolvidos com roubo de tecnologia podem oferecer boas somas em dinheiro para que funcionários roubem peças ou documentos – isso num país de população empobrecida, gerando uma equação que funciona. E em uma linha de montagem com um ritmo que pode chegar a três milhões de aparelhos ao dia, impedir vazamentos pode parecer uma tarefa hercúlea. Mas a Apple se mostra confiante, dizendo já ter reduzido os casos mais do que pela metade.

Para fazer isso, a companhia emprega revistas pessoais que acontecem de forma ostensiva, mesmo que aleatória, entre os funcionários. Em algo que lembra até mesmo um filme de espionagem, a Apple também chega a usar agentes para fazer contatos com operadores do mercado negro, de forma a identificar a demanda e possíveis funcionários envolvidos no esquema.

Entre as partes mais valiosas estão as carcaças, capazes de revelar o design de um novo iPhone ou MacBook, por exemplo. O grupo de segurança de produto já teria encontrado peças sendo enviadas para fora das fábricas por meio do sistema de esgoto, escondidas nos banheiros para coleta pelo pessoal de limpeza ou até mesmo atiradas sobre os muros ou grades das fábricas, todas situações que lembram muito a entrada ou saída de contrabando de um presídio. Sabendo das revistas, são poucos os que tentam levar componentes consigo mesmos.

Muitas vezes, não se trata nem mesmo de vazamentos para a imprensa, mas sim o uso de partes oficiais para criação de clones. Os documentos citam também gastos de milhares de dólares com a compra de dezenas de milhares de carcaças ou chips que seriam usados por fabricantes irregulares da China, capazes até mesmo de liberar um aparelho similar a um novo iPhone antes mesmo que a versão oficial chegasse às lojas.

Perigo doméstico

O trabalho gigantesco nas fábricas fez com que o foco do mercado negro se voltasse aos Estados Unidos, e, segundo a Apple, seu campus em Cupertino é uma fonte de vazamentos maior do que as unidades de produção na Ásia. Nos EUA, entretanto, o interesse é diferente, com o foco sendo as informações confidenciais sobre novos produtos, tanto para publicação na imprensa quanto espionagem industrial.

Foi justamente por isso que nasceram os times de segurança. Na era Jobs, a Apple chegou a usar intimações judiciais para tentar fazer com que jornalistas revelassem suas fontes, algo que acabou gerando grande negatividade por ser, simplesmente, inconstitucional. Aqui, entretanto, os motivos são diferentes.

Se as razões para os vazamentos na China são financeiras, em Cupertino elas são fruto da empolgação. Em suas investigações internas, a Apple ficou contente ao descobrir que possui um grande grupo de empregados apaixonados, que amam tanto seu trabalho que não resistem a revelar informações confidenciais ao público. Amizades com repórteres ou blogueiros, então, acabam resultando nos vazamentos.

Existem ressalvas até mesmo dentro do próprio campus. Refeitórios, salas de jogos ou outros espaços de convívio são considerados “zonas vermelhas”, lugares onde os funcionários são desincentivados a falar mesmo com os colegas, uma vez que cada pessoa ali trabalha em um time diferente e, sendo assim, é detentor de segredos variados. Os acordos de confidencialidade vigentes para alguns não cabem a outros, que podem muito bem realizarem os vazamentos de forma legítima, sem a menor possibilidade de serem punidos por isso – não oficialmente, pelo menos.

Toda a situação acaba gerando um constante sentimento de apreensão nos funcionários, com os documentos citando entrevistas nas quais colaboradores citaram medo de comentar sobre o próprio trabalho até com cônjuges ou filhos, por medo de serem responsabilizados por vazamentos. O temor vai além de uma simples dispensa, evolvendo processos, indenizações e até o risco de prisão.

Foi pensando nisso que a Apple criou um programa interno pelo qual empregados podem alertar caso suspeitem que “quebraram um segredo”. Os documentos apontam que 90% dos funcionários demitidos ou processados por revelarem informações confidenciais poderiam ser evitados caso eles não tivessem tentado ocultar sua participação em um vazamento.

A recomendação geral para os colaboradores é para que “sejam discretos” e se atentem aos contratos de confidencialidade firmados. A Apple espera que seus trabalhadores reconheçam o “imenso poder” que eles possuem nas mãos e ajam de acordo, mas sabe que o resultado ideal nem sempre é atingido. É aí que entra em vigor o time de segurança de produto, não apenas para encontrar os responsáveis pelos vazamentos, mas também para separar o joio do trigo, ou melhor dizendo, o intencional do acidental.

Como sempre age em relação aos vazamentos de iPhones, iPads e outros, a Maçã não se pronunciou sobre a obtenção dos documentos internos pela imprensa. A companhia nem mesmo confirma a existência de um time dedicado exclusivamente para realizar esse tipo de trabalho.

Fonte: The Outline