Mobilidade: o que podemos esperar para a era pós-PC?

Por Colaborador externo | 29.08.2012 às 14:10

* Por Fabrício Bloisi

O surgimento dos dispositivos móveis, como smartphones e tablets, já gera enormes mudanças nos hábitos da sociedade moderna. Por meio da internet móvel, a comunicação, a busca por informações e o lazer libertaram-se das amarras geográficas. Tudo ficou ao alcance de um toque. E isso é apenas o início. Em poucos anos, chegaremos a cinco bilhões de pessoas no mundo conectadas à internet através de seu smartphone, realizando todo tipo de atividade: compras, pagamentos, jogos, redes sociais, estudo, TV etc.

Esse processo vai possibilitar a inclusão digital da população brasileira. Dados do Ibope Nielsen indicam que o total de brasileiros com acesso à internet é de 82,4 milhões de pessoas em um universo de 200 milhões de habitantes. A popularização do smartphone e a pulverização do acesso à internet, a partir da enorme base de 255 milhões de linhas de celular habilitadas no Brasil, vão proporcionar o acesso à web a uma parcela importante da população brasileira, em muitos casos pela primeira vez.

E será conexão de alta velocidade, pois a chegada da tecnologia 4G vai aliviar o tráfego da rede 3G. As conexões Wi-Fi também estão cada vez mais disponíveis. A mudança em curso é gigantesca: dezenas de milhões de pessoas usando um dispositivo móvel como principal meio de acesso à rede.

No Brasil, estimativas apontam que o total de smartphones é de 10% entre os aparelhos celulares. Nos países desenvolvidos, esse índice é bem maior: 29% na Alemanha, 38% na França e mais de 50% nos Estados Unidos. Ou seja, em alguns anos, teremos 150 milhões de brasileiros conectados à internet via smartphones. Por isso, podemos afirmar que o impacto da popularização desse tipo de aparelho será ainda maior por aqui do que tem sido em outros países desenvolvidos. No Brasil, quando se tornar o principal meio de acesso à internet, o smartphone representará a grande força da era pós-PC: conectar tudo e todos à web, viabilizando uma inclusão digital em escala nunca antes imaginada.

Uma barreira para que essa indústria cresça a um ritmo ainda maior por aqui é o preço desses equipamentos móveis, que estão entre os mais caros do mundo. A boa notícia é que políticas governamentais e investimentos da indústria devem, em médio prazo, baratear fortemente tais aparelhos. Teremos, em 2013, smartphones "de entrada" entre US$ 100 e US$ 150. Com preço mais acessível e a consequente expansão do mercado, a realidade será outra.

Essa revolução digital também está mudando as características da indústria. O desenvolvimento de aplicativos pode ser feito em qualquer lugar do planeta, favorecendo a criação de empresas globais. O próprio mercado consumidor também ganhou uma escala inédita. Hoje, um aplicativo de destaque pode ser consumido no mundo inteiro. E há um apetite crescente por “apps” que tragam diversão, entretenimento, cultura e facilitem a vida no dia a dia. Somente em 2011, houve um crescimento de 230% no número de downloads de aplicativos, que alcançou a expressiva quantidade de 50 bilhões de downloads.

A estimativa é que, até 2015, o mercado de mobile apps – que reúne a indústria de desenvolvedores de apps e serviços móveis para smartphones – movimente US$ 50 bilhões no mundo. Para se ter uma ideia da velocidade de expansão desse segmento, há cinco anos, ele simplesmente não existia.

Para a indústria, o desafio é investir em inovação, na qualificação da mão de obra e fomentar o empreendedorismo, para que a indústria brasileira de aplicativos móveis consiga se desenvolver fortemente e competir de igual para igual com os principais players do segmento. Diversas histórias de sucessos de empresas de referência contaram com a valiosa contribuição de brasileiros. O Facebook e o Instagram, por exemplo, tiveram entre seus fundadores empreendedores nascidos aqui.

Isso corrobora a tese de que há muito talento no País – e que precisamos trabalhar para o contínuo processo de aprimoramento de um ecossistema que fomente a inovação, como o existente no Vale do Silício, nos EUA. Para isso, deve haver um ambiente econômico que conjugue acesso a financiamento, pesquisa aplicada, formação de mão de obra de qualidade e infraestrutura de tecnologia, entre outros aspectos.

Essa nova realidade impõe a necessidade de agilidade. Para se criar a próxima empresa de US$ 1 bilhão – que, espera-se, seja brasileira – é preciso focar na usabilidade dos produtos. A chave do sucesso é desenvolver um produto único, quase universal, que caia no gosto das pessoas – estejam elas no Brasil, China ou Suécia. Afinal, mesmo com a revolução da era pós-PC, uma coisa não mudou: o consumidor, com o seu poder de escolha, continua tendo a palavra final para definir quais produtos são bons e quais são as empresas que perdurarão.

*Fabrício Bloisi é CEO da Movile, empresa especializada em soluções móveis.