'Futuro dos games será móvel', diz Ron Czerny, CEO da Playphone

Por Felipe Santana Felix | 29.08.2013 às 15:31 - atualizado em 29.08.2013 às 21:47

Recentemente a Playphone, líder mundial em games sociais para celulares, fechou uma parceria com a Claro. A iniciativa resultou na Ideias Social games, plataforma para social games compatível com HTML5 e Android, disponível apenas para clientes da empresa de telecomunicações. A plataforma tem o objetivo de dar aos clientes da operadora um serviço adicional de entretenimento social na qual os usuários podem jogar e se divertir com seus amigos.

Aproveitando este lançamento conversamos com o CEO e membro do conselho, o brasileiro Ron Czerny. O executivo, que possui mais de 18 anos de experiência no mercado de games, já passou por grandes companhias como Capcom e foi o fundador da Atrativa.

Dentre os assuntos abordados, Ron falou sobre definição de games sociais, evolução do mercado para plataformas móveis e o Brasil dentro desta cena.

Canaltech Corporate: Muito se fala e pouco se sabe sobre games sociais e o crescimento desse nicho no mercado de jogos. O que realmente é um game social?

Ron: Game social não é nada mais que jogar algo que você gosta com amigos, realizando compartilhamento e interações. Dentro desse ecossistema tudo começa com um convite, invite. Um amigo seu manda um convite e sua curiosidade em relação ao game é despertada devido a essa indicação. Depois de algumas horas, ou minutos, o jogador vai conquistando achievements e o game começa a indicar outros amigos para jogar e assim se cria uma rede social para aquele game. Isso é o básico do social game e às vezes é muito confundido com as mídias sociais. As mídias sociais são externas ao jogo e as redes sociais criadas no jogo são internas. Depois que as pessoas já estão habituadas ao game, outras features são disponibilizadas, mas todo o gatilho é disparado por convites e sustentado pela interação entre amigos e a troca de social goods, aqueles presentes ou energias necessários para continuar jogando mais.

Canaltech Corporate: Então um game social não depende de uma rede social, como o Facebook?

Ron: Não. Um bom exemplo disso somos nós. A Playphone é uma plataforma, assim como uma mídia social também pode ser.

Canaltech Corporate: Mas vocês como plataforma utilizam outra plataforma, a móvel. Por quê?

Ron: Sim! Estamos apostando muito nas plataformas mobile. Nós só fazemos o business via celular e nossa plataforma é integrada aos aparelhos. Assim, a Playphone funciona em uma união estável com as operadoras. Diferentemente dos demais players do mercado, nosso produto foi criado para coexistir com as operadoras de celular. Para criar um ecossistema de sucesso para os games sociais é preciso desenvolver uma interação muito forte com o comportamento dos usuários e as operadoras agregam todas as informações do público que queremos atingir, assim essa "união" faz com que a força de nossas ofertas seja muito forte e acabe entregando aos usuários um game que ele e seus amigos realmente vão gostar de jogar juntos.

Existe um nicho muito forte nisso e nós estamos apostando. Acreditamos que o mercado ainda tem muito a crescer nos próximos quatro anos e com certeza podemos crescer juntos.

Canaltech Corporate: Durante um bom tempo a Zynga foi uma das maiores publicadoras de games sociais, mas agora o navio da companhia parece estar afundando. O que deu errado?

Ron: O primeiro grande erro da Zynga foi investir em apenas uma plataforma. O grande problema surgiu com o IPO do Facebook. Antes disso a empresa ficava com 100% das transações, destes valores 3% iam para as empresas de cartão de crédito, então 97% era o valor real das transações controladas pela empresa para seus jogos. Após o IPO o Facebook, por ser a plataforma de publicação, fez valer seu direito de participação e solicitou 30% das transações feitas em seu ambiente. Estes 30% eram o lucro da Zynga. Após isso a empresa procurou ter sua própria plataforma de distribuição, mas ela não vem dando muito certo.

O segundo ponto é que os números de social games na web desabaram, o próprio Facebook teve uma queda enorme em seus números devido ao crescimento das plataformas como smartphones e tablets. E a Zynga demorou muito para chegar à plataforma mobile, até mesmo o próprio Facebook demorou e agora grande parte do crescimento anunciado da mídia social está no mercado móvel.

Canaltech Corporate: Podemos encarar a crise da Zynga como uma crise no setor?

Ron: Não! Como eu disse, os números de games sociais vem caindo na internet tradicional, mas crescendo em plataformas móveis.

Canaltech Corporate: Então o mercado móvel é realmente o futuro para os games sociais?

Ron: A tecnologia de mobilidade está dando muito mais liberdade às pessoas. Estes aparelhos estão dando aos usuários inúmeras possibilidades de conversação e interação instantânea, que um desktop ou notebook não oferecem. Esta é a minha opinião. Por exemplo, vejo muitos usuários deixando de enviar e-mail para amigos e enviando mensagens via redes sociais, ou até mesmo aplicativos de mensagens e o receptor disso vê o que foi recebido de forma instantânea. Os aparelhos móveis dão mais liberdade de comunicação e por isso já se tornaram os grandes companheiros das pessoas.

Canaltech Corporate: Falando um pouco de jogos. Candy Crush saga é o game do momento, mas em pouco tempo já vimos febres mobile surgirem e desaparecerem. A que se deve esse fator que faz um jogo explodir no mercado e desaparecer em pouco tempo?

Ron: Temos uma ligação muito forte com as desenvolvedoras. Nós não desenvolvemos, mas acompanhamos tudo via estatísticas, inclusive queremos criar ferramentas para que os desenvolvedores possam acompanhar seu game e fazer melhorias de desempenho e devido a isso posso dizer que o sucesso relâmpago não tem nada a ver com peculiaridades do mercado mobile.

A explicação disso está no próprio mercado de jogos. Um sucesso no mercado de games é algo que ninguém consegue entender como replicar, não existem fórmulas, o que acontece é que alguns desenvolvedores têm uma visão de negócios abrangente, enquanto outros só fazem jogos. Hitgames é o nome que damos a estes sucessos como Angry Birds, Farmville, inúmeros outros jogos são ou foram Hitgames. Alguns hits, como o próprio FarmVille, morrem porque a empresa foca apenas no jogo. Um bom exemplo de gestão de um hit é o da Rovio, desenvolvedora de Angry Birds. Ela está focando em criar uma marca e isso faz com que o título tenha vida mais longa, transformando um Hitgame em algo muito maior, em uma franquia. Neste mercado algumas empresas enxergam investimentos de longo prazo, outras não. Não se cria uma franquia da noite para o dia.

Canaltech Corporate: Então o sucesso bombástico e o desaparecimento relâmpago não tem nada a ver com o perfil do jogador social?

Ron: Não, muitos acham que o perfil do social gamer é o casual, mas isso já mudou há certo tempo.

Canaltech Corporate: Então qual o perfil do jogador de games sociais?

Ron: No inicio do game social a plataforma predominante era o Facebook e todos os aplicativos eram casuais, pois as tecnologias eram limitadas e não existia como dar suporte adequado ao jogo, com atualizações e melhorias. Agora as plataformas estão muito mais potentes e muito mais preparadas para atender os jogadores. Hoje vemos inúmeras integrações entre games hardcore e mobile. A EA hoje é um bom exemplo disso, eles pensam em como fazer um jogo mobile e como fazer um para console, ou até mesmo como integrar os dois. Não é um pouco estranho chamarmos de Casual Gamer alguém que joga Candy Crush todo dia?

Canaltech Corporate: Sim, pura verdade! Agora a última pergunta, sobre desenvolvimento. Como está o Brasil em relação a este mercado?

Ron: Nosso país caminha para onde eu gostaria que ele caminhasse. O SO Android está sendo adotado muito bem como padrão em usuários de mobile por estar presente em diversos tipos de aparelhos. O sistema, por ser aberto, dá liberdade criativa a nós e aos desenvolvedores de jogos para desenvolver projetos com maior integração de dispositivos. iOS e Windows têm barreiras em lojas, principalmente para nós, pois entendem que somos concorrentes de suas lojas. No Android nós podemos concorrer de forma mais sadia com a Google Play.

O fator positivo para os desenvolvedores é a possibilidade de criar jogos em parceria com diversas empresas, como nós, e podem se utilizar da liberdade do Android para criar suas plataformas e distribuir os jogos aos consumidores. Nós recentemente fechamos uma parceria com a Claro onde nossa plataforma será nativa em todos os aparelhos. Isso vai ajudar bastante as desenvolvedoras locais a criar jogos para diversas plataformas de distribuição.