Blackberry Z10: renascimento de uma empresa ou apenas mais um smartphone?

Por Pedro Cipoli

A Blackberry viu o crescimento e popularização das plataformas Android e iOS praticamente de braços cruzados, e agora luta para chegar à terceira posição do ranking hoje ocupada pelo Windows Phone. Uma tarefa e tanto, diga-se de passagem, e hoje vamos conhecer o principal aparelho encarregado disso: o Blackberry Z10, o modelo mais avançado rodando o sistema Blackberry 10 que temos à nossa disposição e que possui alguns truques na manga, mas que sofre de duas falhas monumentais que vão dificultar muito a popularização da plataforma e que explicaremos em mais detalhes nessa análise.

Vamos começar com a seguinte observação: o Z10 não é um aparelho para o consumidor final. Simples assim. Não é um smartphone que você vê em uma loja e diz "Olhe que aparelho bonito. Aposto que ele é intuitivo e fácil de utilizar". Não é. Ok, há alguns tutoriais que ensinam alguns comandos básicos, mas é exatamente a mesma coisa que dizer que cálculo diferencial é fácil desde que você leia "alguns tutoriais". Estamos falando de intuição, foco das versões mais recentes do Android e iOS onde basta olhar para a tela inicial para saber o que fazer e como fazer, e essa não é uma característica do Z10.

Experiência

O Blackberry 10, sistema operacional do Z10, possui uma tela inicial que funciona de forma bastante diferente do que estamos acostumados. Não há botões físicos na parte da frente do aparelho e as bordas da tela são uma ferramenta essencial de uso. É através delas que acessamos a tela inicial, acessamos a área de notificação (que na verdade é apenas uma caixa de ferramentas e não tem nada a ver com os aplicativos abertos) e as opções dos aplicativos.

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Porém, depois de alguns dias percorrendo uma curva de aprendizem é bastante fácil utilizá-lo e começamos a olhar o Blackberry com bons olhos, em especial devido ao Hub. Este é um local onde todos os e-mails, atualizações do Facebook, LinkedIn e Twitter, checkins no Foursquare são mostrados por ordem de chegada. Esse é um recurso bastante útil e uma solução bastante elegante para a enorme quantidade de atualizações de diferentes redes que chegam a toda hora e não há nada parecido em outras plataformas.

As transições de tela são bastante fluidas e o multitarefa é bastante eficiente. Podemos utilizar até 8 aplicativos ao mesmo tempo e o multitarefa é real. Nada de colocar o aplicativo em modo de espera quando trocamos de um para outro (leia-se: alguns apps Metro do Windows RT). Por exemplo, se não pausarmos um vídeo do Youtube quando vamos ler um e-mail, ele continua rodando em segundo plano e todos os apps abertos ficam organizados em uma tela que é bastante fácil de se utilizar.

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Estrutura

Em relação à aparência, não temos nenhuma crítica. A parte da frente lembra muito o iPhone 5 e até o HTC One em alguns pontos – exceto que a estrutura é de plástico, mas plástico "mesmo" em vez do policarbonato utilizado no Galaxy S3/S4. A traseira, também de plástico, possui uma superfície emborrachada que resulta em uma excelente "pegada". Com uma tela de 4,2 polegadas, o Z10 não é pequeno demais nem grande demais, tendo uma proporção ideal para se manipular com apenas uma das mãos.

Sentimos um bom equilíbro entre tamanho e resolução. Com 768x1280 e densidade de pixels de 355 por polegada, temos uma tela ligeiramente melhor do que a do iPhone 5, inclusive com uma qualidade de imagens e cores bastante parecida. As dimensões lembram um iPhone 5 maior e um pouco mais grosso: 13 centímetros de altura, 6,6 centímetros de largura e 9 milímetros de largura.

Do lado direito temos os botões de volume separados por um terceiro que aciona o assistente pessoal da Blackberry – que funciona muito bem se você der comandos em inglês. O botão de destravar a tela é desnecessariamente difícil de acionar com apenas uma das mãos pois está no meio da parte de cima e em baixo relevo junto com o conector do fone de ouvido. No lado esquerdo temos a entrada micro USB para carregamento e dados e uma saída mini HDMI que você provavelmente não irá utilizar, pois o cabo HDMI-micro HDMI, raríssimo de se encontrar, não está incluso na embalagem.

Especificações

Já cansamos de escutar que o Z10 é fluido pois possui um sistema "muito bem integrado ao hardware". Besteira. O processador Snapdragon Krait dual-core de 1,5 GHz com 2 GB de memória RAM é capaz de rodar qualquer sistema sem gargalos, então não se engane com essa história de "hardware integrado ao sistema". Como dissemos acima, as transições de tela são bastante fluidas e o Blackberry 10 roda sem problemas com esse processador, mas ainda assim essas especificações estão longe de impressionar mesmo quem possui um Android ou iPhone de última geração (em alguns casos até penúltima).

Esta é a primeira grande falha do Z10: um hardware ultrapassado e longe de ser considerado top de linha. Tudo bem, o sistema roda bastante liso, as animações são bonitas, mas é inaceitável que o modelo mais avançado de uma plataforma não consiga rodar alguns jogos disponíveis em sua própria loja de aplicativos. Encontramos alguns que possuem um lag aqui e ali, mas outros, como é o caso do X Construct (também disponível para Android) nos dá vontade de jogar o smartphone na parede de tão lentos que ficam.

É mais ou menos "gastei uma nota no melhor aparelho da plataforma e ele não consegue rodar esse app?". Frustante, bem frustante. O Snapdragon Krait com apenas dois núcleos é sim um hardware muito bom, mas não é capaz de fazer mágica e na época que o Z10 foi anunciado já existiam opções bem mais sofisticadas (caso do Snapdragon 600, por exemplo) de forma que a Blackberry lançou seu principal modelo com um motor bem defasado em relação aos concorrentes.

Plataforma

O Z10 escolheu o mesmo caminho difícil dos aparelhos Lumia da Nokia: conseguir um lugar ao sol em um mundo dominado por Androids e iPhones, algo que não podemos deixar de bater palmas. Porém, coragem não vai fazer com que nos acostumemos a ver Blackberrys no metrô e no ônibus com a mesma frequência que as plataformas dominantes, assim como aparelhos bonitos não vão ajudar. A única coisa que fará os Blackberrys, liderados pelo Z10, fazerem sucesso é a plataforma, e esta é a segunda grande falha do Z10.

A plataforma não se resume apenas ao sistema operacional, que por sinal não se sai nada mal, mas à oferta e qualidade dos aplicativos. A loja de aplicativos da Blackberry mal chegou ao sexto dígito e a qualidade não chega perto de um aplicativo médio do Android/iOS. Por exemplo, há um game altamente recomendado para o Z10 chamado "Eat all brains", game em que um zumbi corre infinitamente e o usuário apenas clica para pular alguns obstáculos de vez em quando.

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Para uma plataforma nova, o mínimo necessário para fazer algum barulho é ter todos os apps mais famosos e utilizados. Alguns deles estão presentes como é o caso de Facebook, Twitter, Foursquare, Linkedin e Dropbox, todos pré-instalados. Porém, nada de aplicativos oficiais para o Evernote, Skype, Google+, Pinterest, Google Maps e a lista continua e é bastante longa. Isso não significa que o Blackberry World, loja de apps da Blackberry, seja ruim e sim que ela é nova. O grande erro da empresa é tentar colocar o Z10 e o ecossistema em geral no mesmo nível das maiores plataformas, pois não é uma concorrência direta.

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Câmera e acessórios

A câmera traseira de 8 megapixels se saiu muito bem em nossos testes, sendo capaz de tirar fotos de excelente qualidade e gravar vídeos em Full HD (1080@30fps) com estabilização comparável ao que encontramos nos modelos mais top de linha da Nokia com Windows Phone 8. A câmera frontal de 2 megapixels também não faz feio. Porém, tirando a possibilidade de tirar fotos de nós mesmos ou gravar algum vídeo caseiro, ela é de pouca utilidade pois há poucos apps VoIP para fazer uso dela, como é o caso do Skype.

O Z10 vem com uma bateria removível de 1800 mAh que é capaz de sustentar o Z10 por um dia e meio sem problemas mesmo com 3G, NFC e GPS ligados, um resultado bastante bom comparado com os modelos mais modernos de outras plataformas. Há também um fone de ouvido que dá até vergonha de mostrar para os amigos, pois pelo preço cobrado pelo aparelho o fone parece uma piada de péssimo gosto, sendo ao mesmo tempo desconfortável, feio e de qualidade duvidosa. Melhor seria não incluir fone de ouvido nenhum.

Conclusão

O Blackberry Z10 pode ser encontrado à venda no Brasil pelo preço sugerido de R$ 2449, valor altíssimo se considerarmos os dois principais defeitos que citamos acima: hardware desatualizado e plataforma em seus estágios iniciais, ainda pouco sofisticada em relação ao iOS e Android. Por esse preço podemos considerar o Z10 como um "problema de R$ 1000": se custasse cerca de R$ 1400, R$ 1500 até valeria a pena arriscar, pois seria um preço até atraente se considerarmos as qualidades do aparelho.

Um aparelho bom, bonito e com uma plataforma nova, mas os R$ 2450 colocam o Z10 em concorrência direta com o iPhone 5 e Galaxy S4 por aqui. Se pegarmos qualquer um dos dois e colocarmos lado a lado com o Z10, ele perde em vários aspectos, indo do hardware e chegando ao sistema operacional e quantidade e qualidade dos aplicativos. O fato do Z10 ser o aparelho mais avançado com o Blackberry 10 não é desculpa para seu preço ser tão alto e esperamos que a fabricante perceba isso antes que a plataforma caia no esquecimento.

Vantagens

  • Design elegante e tela de qualidade
  • Câmera de qualidade
  • Assistente pessoal, embora em inglês, funciona muito bem
  • O Blackberry Hub é uma funcionalidade de destaque, inexistente na concorrência

Desvantagens

  • Preço simplesmente irreal
  • Plataforma ainda jovem e incapaz de competir com Android e iOS
  • Hardware desatualizado para a época em que foi lançado
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