Com a pandemia, tivemos que nos adaptar a medidas como o uso de máscara, o isolamento e até mesmo ao lockdown. Essas medidas reduziram a transmissão viral, mas também parecem preveniram algumas outras doenças respiratórias. Mesmo assim, alguns pesquisadores estão preocupados.

Acontece que as tendências decrescentes da gripe e de outras doenças respiratórias podem ser um aviso de consequências inesperadas que virão, uma vez que a exposição a infecções de rotina e micróbios comuns no início da vida ajuda nosso sistema imunológico a aprender o que deve tentar combater. O fracasso em obter essas exposições no momento certo faz com que o sistema imunológico passe a reagir exageradamente.

Com isso, os especialistas especulam a possibilidade de efeitos como aumento em alergias e doenças relacionadas, como eczema (grupo de doenças dermatológicas que provocam inflamação ou irritação da pele) e asma, especialmente em crianças. 

Por causa do coronavírus, tivemos isolamento social e até mesmo lockdown, o que pode ter tido impacto no sistema imunológico (Imagem: ktsimage/Envato)

B. Brett Finlay, microbiologista e professor da University of British Columbia, fez um alerta sobre as consequências de longo prazo para as crianças que vivem um mundo hiper-higiênico e fechado. “As crianças não vão para a creche, não vão brincar com os filhos dos vizinhos. Meu palpite é que daqui a cinco anos, veremos muitas dessas crianças com asma e obesidade, porque quando você trata crianças com antibióticos, elas apresentam taxas muito mais altas de obesidade e asma mais tarde na vida", estimou o especialista.

Hipótese da higiene

Para entender isso, vale revisitar a hipótese da higiene, um conceito que vem evoluindo há mais de 30 anos e já contou com três versões. A ideia é entender, basicamente, que o contato precoce com micróbios treina nosso sistema imunológico. A versão mais atual da hipótese aponta, inclusive, que nossa diversidade microbiana está se esgotando e, portanto, ficando menos protetora, devido ao impacto dos antibióticos e dos antissépticos.

Pesquisadores da Universidade de Princeton e do National Institutes of Health estimaram, em dezembro, que a transmissão do RSV (vírus sincicial respiratório, um vírus responsável pela maioria dos casos de infecções do trato respiratório inferior em bebês) teve uma queda de 20% nos EUA. Já um artigo publicado em março apontou que o país também registrou taxas mais baixas de enterovírus D68 (que causa doença respiratória, principalmente em crianças). 

De acordo com um estudo ainda não revisado por pares, a epidemia de RSV na França, que normalmente acontece no inverno, começou quatro meses depois. Ou seja: a França está passando por um surto de RSV fora da temporada. 

Especialistas alertam consequências de longo prazo por conta das medidas de higiene adotadas em 2020 e 2021 (Imagem: Manuel Darío Fuentes Hernández/Pixabay)

O grupo de Princeton prevê que o RSV voltará com força total, e que como é uma situação sem precedentes, não há respostas concretas sobre o que vem por aí.

A visão dos especialistas é que as crianças podem correr o risco de perder a exposição a micróbios, com direito a um risco de doenças fora de temporada e um risco de longo prazo por não terem essas infecções na infância na hora certa.