Anonymous e outros ciberativistas se unem contra o Estado Islâmico

Por Redação | em 16.11.2015 às 11h54

Anonymous

Nem só de armas se resume a batalha contra o Estado Islâmico. Além dos Estados Unidos, França e demais países ocidentais, o grupo extremista arranjou um outro inimigo e bem diferente daquele que ele está acostumado a enfrentar: o Anonymous. O famoso grupo de ciberativistas comprou essa briga e levou a batalha contra o terrorismo também para o mundo digital e mostra que o mundo online e offline estão interligados até mesmo em questões geopolíticas de combate a atentados como o que vimos na última semana.

Só que essa batalha é bem anterior aos ataques em Paris na última sexta-feira (13). Batizada de #OpISIS — ou apenas Operação Estado Islâmico —, a organização contra os extremistas muçulmanos é algo que se desenrola ao longo de todo o ano de 2015. Segundo John Chase, um dos idealizadores dessa força-tarefa digital, tudo começou após os ataques realizados no início de janeiro ao jornal satírico Charlie Hebdo. Desde então, Chase se transformou em XRSone e, ao lado de outros hackers, deu início a uma caçada ao EI para expôr dados e minar os planos do grupo.

E eles tiveram vários avanços nesse sentido. Exemplo disso é que, até agora, eles conseguiram compilar mais de 26 mil perfis no Twitter que possuem alguma relação com o Estado Islâmico e criaram um site para divulgar informações de pessoas ligadas ao grupo jihadista. Isso sem falar do ataque a quase 150 páginas e a sinalização de 5,9 mil vídeos. São pessoas do mundo inteiro e que não se conhecem, mas que se juntaram para bater de frente com uma das organizações mais perigosas em atividade.

Mas, afinal, quem são esses combatentes?

Legião, porque somos muitos

Segundo Chase, essa é uma resposta à estratégia que o próprio Estado Islâmico adotou. Muitos dos simpatizantes do grupo são pessoas que acabam sendo recrutadas pela internet. A partir de um enorme trabalho de propaganda, eles atraem jovens do mundo inteiro para lutarem nas suas frentes e o que o Anonymous quer fazer é usar as mesmas armas para dar o troco. O resultado disso é um confronto que se desenrola tanto à vista de todo mundo nas redes sociais como também no submundo da internet pelos becos escuros da deep web.

Só que, ao contrário do que muita gente pode imaginar, esses guerreiros digitais estão longe de serem aquela figura estereotipada do hacker que o cinema criou. Nada daquele garoto esquálido trancado em um quarto escuro em meio a dezenas de telas. É claro que deve ter alguns dentro desse perfil, mas não são a maioria. De acordo com XRSone, boa parte desses ativistas são pessoas com algum tipo de experiência em computação, seja em tecnologia da informação ou mesmo especialistas em segurança, além de ex-militares e outros indivíduos que ele descreve como tendo um forte senso de justiça. Com idades e perfis bem variados, todos eles se unem em torno de um único propósito: fazer algo contra o Estado Islâmico.

CHARLIE HEBDO ANONYMOUS

Como o site Foreign Policy aponta, isso é algo bastante novo e que chama muito a atenção exatamente por ser algo bem diferente daquilo que imaginamos do próprio Anonymous. O grupo já é um velho conhecido da internet após a sua série de ataques a sites e serviços a ponto de muitos os considerarem os vilões do ambiente digital. No entanto, contrariando essa impressão original, eles decidiram se unir mais uma vez para combater um inimigo real e cujos estragos vão muito além da tela de um computador.

É claro que eles já se envolveram em outras causas mais sérias antes, mas o teor e o impacto dessa luta contra o Estado Islâmico é algo muito maior — e bem mais perigoso. Tanto que eles já começaram a enfrentar a resposta de simpatizantes do grupo extremista, que seguem caçando seus sites para tirá-los do ar. Exemplo disso foi uma página de discussão sobre o #OpISIS criado dentro do Reddit, que foi atacado diversas vezes.

Anonymous

O interessante do modus operandi do Anonymous é que, como não há um líder ou coisa parecida, toda a ação é feita de maneira bem orgânica e, de certo modo, caótica. Cada hacker atua naquilo que é sua especialidade, o que faz com que os ataques sejam feitos em diferentes frentes. É uma estratégia caótica bem diferente daquela que estamos acostumados a ver em guerras convencionais, mas que vem funcionando muito bem dentro do ambiente digital. Afinal, como se defender quando você simplesmente não tem ideia de onde o próximo ataque pode vir?

Pássaro azul em perigo

Como você já deve ter percebido, o Twitter é uma das principais armas da Operação Estado Islâmico e, para isso, eles desenvolveram alguns bots que funcionam em contas específicas em busca de perfis ligados à organização terrorista. O conteúdo encontrado por esses robôs é filtrado pelos hackers e exposto em outras páginas.

De acordo com um dos responsáveis por essa curadoria, o hacker identificado apenas como Mikro, a ideia dessa operação é mostrar ao mundo que o Estado Islâmico não é tão poderoso quanto ele diz que é e provar que até mesmo pessoas comuns, quando trabalham em conjunto, podem bater de frente com um grupo como o EI. E, se isso é possível, os principais governos também podem.

Anonymous

Mikro explica ainda o porquê desse foco dentro da rede social. Afinal, o que 140 caracteres podem fazer contra o terrorismo? Na verdade, trata-se de uma resposta dentro do próprio campo de batalha dos extremistas. Segundo ele, parte da propaganda usada pelo Estado Islâmico se origina a partir do próprio Twitter, onde simpatizantes e membros do grupo divulgam seus feitos, compartilham vídeos de suas execuções e criam hashtags tanto para ameaçar os Estados Unidos quanto para recrutar novos soldados.

Embora isso pareça algo distante para nós, os números de mensagens a favor das ações do EI são assustadoramente altos. Um estudo recente revelou que, entre setembro e dezembro de 2014 — ou seja, antes dos dois ataques à capital francesa —, existiam entre 46 mil e 70 mil contas ativas na rede social que apoiavam o Estado Islâmico. Diante disso, fica fácil entender o interesse dos ciberativistas em usar a mesma plataforma para combater os extremistas e seus simpatizantes.

E a estratégia dos ataques do Anonymous é bem simples. A partir de seus vários voluntários, eles dão início a uma série de denúncias em massa aos perfis pró-EI ativos. Isso faz com que essas contas sejam avaliadas pelo Twitter com prioridade e, em pouco tempo, saem do ar. Em comemoração, os hackers celebram com aquela velha frase que muitos já conhecem de outros carnavais — e de velhos ataques: Tango Down.

Hacker

É claro que o outro lado da batalha já aprendeu a se defender e criou mecanismos que bloqueiam usuários relacionados aos ativistas, mas isso não quer dizer que eles conseguem permanecer escondidos por muito tempo.

Pode parecer uma batalha sem sentido, mas que vem dando muito resultado. O Twitter não comenta nada sobre o uso de seu serviço pelos radicais islâmicos, mas confirma que a atuação do Anonymous em reportar perfis simpatizantes é de grande ajuda para que a empresa possa avaliar aquele conteúdo o mais rápido possível. No último dia 2 de abril, por exemplo, mais de 10 mil contas ligadas ao EI foram deletadas de uma só vez, algo que certamente deve incomodar e dar muito trabalho para os responsáveis por cuidar das mídias sociais da organização.

Isso não quer dizer, porém, que os 140 caracteres sejam as únicas armas nessa guerra. Como dito anteriormente, os ciberativistas atuam também derrubando outros sites, páginas relacionadas e até locais de doação de bitcoin que possam ser usados para financiar as operações do Estado Islâmico. Para isso, eles apelam para o bom e velho ataque de negação de serviço (o famoso DDoS), invasões de SQL e outras técnicas consideradas ilegais, mas que funcionam dentro do contexto de conflito que essas duas forças se encontram.

hacker

É aí que entra o chamado Ghost Security Group, ou apenas GhostSec, um grupo formado por antigos membros do Anonymous e que atua de maneira bem mais agressiva, inclusive na deep web. Eles identificam possíveis sites que estejam ligados ao EI e avaliam cuidadosamente se a suspeita é verdadeira ou não. Com a ajuda de membros que falam a língua árabe, eles procuram qualquer evidência e, caso seja comprovado, partem para o ataque.

Segundo um dos membros do GhostSec, identificado como Digital Shadow, o objetivo desses ataques é cortar as cadeias de comunicação do grupo para diminuir a sua força para o combate. Para ele, esse é um método que ajuda a salvar vidas, uma vez que diminui a eficiência do lado inimigo.

Além disso, os ciberativistas passaram também a atuar como espiões, infiltrando-se em fóruns jihadistas e acompanhando as discussões. Mais do que isso, eles caçam os usuários dessas conversas a partir de seu endereço de IP e enviam essas informações ao governo dos Estados Unidos e outros contatos especialistas em segurança digital. Segundo Michael Smith, um desses informantes que fazem o meio de campo entre o GhostSec e o governo, os dados fornecidos pelos hackers ajudaram os EUA a desmantelar um grupo de simpatizantes do EI que planejavam um ataque na Tunísia no último mês de julho. O FBI não confirmou e nem negou essa informação.

Estratégia válida?

Por ser algo muito novo, esse ciberativismo em tempos de guerra ainda é algo muito nebuloso. É claro que toda a ajuda é bem-vinda na hora de combater o terrorismo e os grupos extremistas, mas muita gente ainda vê esse tipo de coisa com um pouco de receio. Afinal, é possível confiar em pessoas sem rosto que compartilham informações que podem ou não ser reais?

Só que, mais importante do que isso, é preciso ter em mente que essa estratégia é algo que deve ser usada apenas para fins de informação e não como esforça real de guerra. Como o Foreign Policy destaca, combater o Estado Islâmico no Twitter ou derrubar suas páginas não vai fazer com que o grupo desapareça. Você pode atrapalhar sua comunicação e dificultar o recrutamento de simpatizantes, mas não é o suficiente para eliminar a ameaça como um todo.

Mas essa nem é a intenção do Anonymous e do GhostSec. Como eles já declararam diversas vezes, toda a campanha do #OpISIS é apenas uma resposta às ações do grupo extremista no ambiente digital e não uma tentativa de acabar com eles de uma vez por todas. Como um dos ativistas explica, eles querem que os membros do EI percebam que não apenas os governos estão lutando contra eles, mas a própria população.

Via: Foreign Policy, The ISIS Twitter Census, NY Times 

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